A reação tímida do mercado ao início da guerra entre Estados Unidos e Irã se transformou rapidamente em um movimento coordenado de ampla aversão a risco na sessão de ontem. Com temores crescentes de que o conflito se estenda mais do que os investidores esperavam, as bolsas globais exibiram forte queda, o dólar se fortaleceu amplamente frente a divisas desenvolvidas e emergentes e a alta nos preços do petróleo ampliou os receios de que bancos centrais não sejam capazes de afrouxar mais os juros ao redor do mundo. No Brasil, o Ibovespa caiu mais de 3%, o dólar fechou o dia aos R$ 5,26 e os investidores passaram a precificar um ritmo mais brando de cortes na Selic pelo Banco Central.
Ainda que a narrativa predominante seja a de que o choque na oferta de petróleo será passageiro e que o otimismo observado há algumas semanas deve retornar aos mercados, os cenários mais pessimistas ganharam peso na sessão e levaram a um amplo movimento de redução na exposição a ativos de risco.
No site de apostas Polymarket, por exemplo, investidores passaram a atribuir maior probabilidade de a guerra de EUA e Israel contra o Irã terminar apenas em junho e não mais em abril, como esperavam até a sessão de segunda-feira.
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Assim, os ativos de países emergentes, que vinham surfando uma onda global de otimismo, exibiram duras perdas. O dólar chegou a avançar mais de 3% frente ao real e alcançou a marca de R$ 5,34. No fechamento, o dólar comercial reduziu os ganhos, mas ainda terminou o dia em alta de 1,91%, cotado a R$ 5,2645.
O estresse contaminou também o Ibovespa, que teve seu pior dia desde o anúncio da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em dezembro. O principal índice da bolsa encerrou em queda de 3,28%, aos 183.105 pontos, após despencar 4,64% nos menores patamares do dia. Em conjunto, as empresas do Ibovespa perderam R$ 150,5 bilhões em valor de mercado com a queda no dia, segundo dados do Valor Data. Em Wall Street, o S&P 500 caiu 0,94%, após recuar 2% nas mínimas do dia.
O petróleo Brent manteve sua escalada e avançou 4,70%, fechando aos US$ 81,40 o barril, maior patamar em 14 meses. Com os receios elevados de que a inflação possa reduzir o espaço para o afrouxamento monetário global, os agentes também passaram a projetar um ciclo de cortes menor por parte do Banco Central.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 avançou de 12,685% a 12,885%. O mercado de opções digitais de Copom mostrou quadro de cautela: a probabilidade implícita de corte de 0,5 ponto da Selic despencou de 73% para 57%, após ter atingido mais de 80% na semana passada. Já a chance de corte de 0,25 ponto subiu de 24% a 35%, depois de ter tocado a mínima de 12% na quinta-feira passada.
O economista Tom Porcelli, do Wells Fargo, lembra que os mercados emergentes estão mais expostos a eventos no Oriente Médio. “No entanto, assumindo que as disrupções de mercado sejam apenas temporárias, não acreditamos que as preferências dos bancos centrais de mercados emergentes em relação às taxas de juros devam mudar”, diz.
O chefe de investimentos (CIO) da Azimut Brasil Wealth Management, Marco Antonio Mecchi, compartilha a premissa de que o BC deve continuar a fazer o que já estava em seus planos sobre o ciclo de corte de juros. “Se a estratégia do BC era dar um corte de 0,5 ponto, eu seguiria com isso. Ao meu ver, teremos um choque temporário nos preços do petróleo. A inflação até pode ficar um pouco mais elevada, mas em algum momento a logística do petróleo se resolve ou a Opep ajusta sua produção e os preços voltam ao que estavam.”
Juros não necessariamente vão ficar parados, mas ajuste será próximo do mínimo que o BC está sinalizando”
Mecchi avalia que esse fortalecimento do dólar neste momento é justamente um ajuste de posições por conta da forte mudança nos preços das moedas, em especial emergentes, frente ao dólar. “Como ninguém ainda sabe qual vai ser o alcance do que vai ser esse conflito no Oriente Médio, está ocorrendo um desmonte de posições. Estamos vendo, portanto, uma queda nos preços do ouro, da prata e de ativos de mercados emergentes. É uma correção. O mercado estava muito alavancado nesses mercados”, aponta.
“Independente dos números que o modelo [de projeção do BC] vai dar, o mais importante é entender que o cenário se tornou extremamente incerto”, pondera Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank. Para ele, é até mais provável que, mantida a incerteza quanto à geopolítica global, o BC prefira um corte menor de 0,25 ponto percentual daqui a duas semanas.
“Normalmente, nesse contexto, os BCs tendem a se mover da maneira mais cautelosa possível. Isso não significa, necessariamente, que os juros vão ficar parados, mas sim que o ajuste será próximo do mínimo que o BC está sinalizando”, diz Salles. “Estamos de frente a uma grande incerteza. Se a estrada está com neblina, vá devagar.”
Já Igor Barenboim, economista-chefe da Reach Capital, acredita que o BC ainda terá espaço para o corte de 0,5 ponto no dia 18. Até lá, é provável que o presidente dos EUA, Donald Trump, trabalhe para amenizar os impactos do conflito nos mercados e na economia americana. “Tendo a prender a respiração e achar que a coisa vai se acomodar. O homem mais poderoso do mundo quer que o BC do seu país corte juros, e isso trabalha a nosso favor”, diz.
O chefe de mesa de renda variável da Warren, Ricardo Maluf, uma combinação de fatores pesou sobre o Ibovespa ontem: revisões nos ciclos de corte de juros no Brasil e nos EUA, em meio ao avanço dos preços de petróleo e ao aumento dos temores inflacionários; temor de que o conflito no Oriente Médio possa se estender mais do que o previsto anteriormente; e dados mais fortes do que o esperado para o mercado de trabalho local.
Ainda que tenha encerrado em queda, o Ibovespa conseguiu terminar distante das mínimas do dia após ajustes feitos por investidores ao longo do pregão. “Acaba que o começo de um dia de aversão a risco é sempre mais agitado. Tem ‘stops’ de todos os lados. Passando isso, pode passar a prevalecer o fundamento. No médio e longo prazos, a história de Brasil ainda segue positiva”, avalia
Fonte: Valor Econômico
