O novo “sell-off” nos bonds da Braskem expôs mais uma vez a deterioração do humor no crédito corporativo brasileiro — mas, desta vez, sem contaminar o risco Brasil. Episódios recentes envolvendo Raízen, CSN e, em menor grau, Aegea já haviam elevado a desconfiança dos agentes. Ainda assim, o CDS de cinco anos do Brasil permanece relativamente comportado — em torno dos 132 pontos —, em um possível sinal de que o mercado reduziu a exposição após os estresses do ano passado.
“Os gringos estão mau humorados com os bonds brasileiros desde o evento Ambipar, que tinha selo ESG, pagava um bom yield e era um ‘case’ maravilhoso para quem tem mandato ESG lá fora. Tinha uma boa parte da comunidade bem alocada, que acabou ficando machucada no fim do ano passado. Parecia que isso tinha ficado para trás e que, neste novo ano, nada parecia demandar muita atenção, mas já na primeira semana de fevereiro a preocupação com a Raízen retornou”, observa um gestor de crédito privado em condição de anonimato.
De fato, desde a virada de janeiro para fevereiro, houve uma queda “em linha reta” dos títulos da Raízen no exterior após a Cosan ter anunciado um resgate antecipado de títulos com vencimento em 2030 e em 2031, o que eliminaria a cláusula de “cross-default” com a Raízen. Posteriormente, a empresa ainda perdeu grau de investimento nas métricas das três principais agências de classificação de risco.
E, ontem, o mau humor atingiu os bonds da Aegea e, depois, os da Braskem, após o Banco do Brasil ter informado que sua inadimplência foi afetada, no quarto trimestre, por um caso específico. Embora o banco não tenha revelado o nome da empresa envolvida, o Valor apurou que se trata de um caso conhecido da Novonor (antiga Odebrecht), que havia dado ações da Braskem em garantia a empréstimos.
“Foi a cereja do bolo para consolidar o mau humor do mercado, porque a Braskem é um nome que vem frustrando as expectativas e muito disso se deve ao ciclo dos petroquímicos, em geral, que está muito ruim. A empresa não tem muito o que fazer… E ainda tem o problema de Alagoas, que ninguém consegue medir o tamanho… Com tudo isso no bolo, o mercado olhou para os bonds e resolveu vender”, observa o gestor.
Outro profissional do mercado exemplifica, ao notar que, em momentos de estresse no mercado de bonds, dealers que estão dando preço para os clientes começam a ficar muito mais pressionados em momentos de mau humor, até porque começam a ficar muito mais posicionados do que gostaria em um papel que não para de cair. “Quanto mais estresse, piores ficam os preços. É um círculo vicioso. Claro, teve a questão do BB, mas boa parte das notícias negativas da Braskem já está no preço dos bonds. Só que isso juntou com o mau humor do mercado.”
No início de outubro, quando houve um estresse semelhante envolvendo os bonds da Raízen, houve reflexos, também, no risco Brasil e em outros ativos brasileiros, como o câmbio, conforme apontou o Valor na época. Ontem, o movimento foi bem menos intenso: os spreads do CDS de cinco anos do Brasil subiram exatos 2%, para 132,04 pontos. Vale notar, porém, que o dia foi de mau humor em Wall Street, com queda firme sofrida pelas ações das techs americanas.
“Eu não sei dizer ao certo o quanto da abertura do CDS foi por mau humor nos bonds corporativos do Brasil e o quanto foi relacionado à correção nas ações americanas. Foram só 3 pontos-base de alta e, pelo tamanho da crise envolvendo os bonds, poderia ter subido muito mais”, nota o gestor de crédito privado.
Para ele, entre setembro e outubro do ano passado, a realidade de mercado era “completamente diferente”. “Não tinha tido ainda o evento Ambipar e os fundos estavam bem posicionados. A Braskem estava sendo negociada a valores mais altos, assim como a CSN e a Raízen. Tinha um posicionamento técnico da indústria de fundos bem mais pesado e era necessário ter proteção. Isso puxou o CDS na época. Agora não. O pessoal reduziu muito o risco e não é mais necessário ter a proteção [do CDS] porque não se tem mais exposição à contraparte”, justifica.
“A menos que algum hedge fund queira fazer algum ‘trade’ tático maior, não vejo motivo para comprar agora, até porque outros episódios não estão fazendo preço, como a corrida eleitoral ou toda a questão envolvendo o Banco Master e o Supremo Tribunal Federal (STF)”, observa o gestor.
Fonte: Valor Econômico
