12 Sep 2023ROBERTA JANSEN
Ápice do fenômeno está previsto para dezembro e janeiro, prolongando o período de maior risco de desastres.
O El Niño, que eleva as temperaturas do Oceano Pacífico, está por trás da intensidade das chuvas registradas e do ciclone no Rio Grande do Sul este mês, que deixaram 46 mortos e milhares de desabrigados. O ápice do fenômeno está previsto para ocorrer entre dezembro e janeiro, prolongando o período de maior risco de desastres naturais para o Sul.
O aquecimento anormal das águas do oceano altera as correntes de vento e as precipitações em diversas partes do globo. No Sul do Brasil, especificamente, o El Niño provoca tempestades intensas e frequentes, que devem se repetir esta semana. Segundo previsão da Metsul feita neste domingo, esta semana será de mais chuva e enchentes no Sul, com a possibilidade da formação de um novo ciclone extratropical perto da costa brasileira até quinta-feira.
“A atmosfera está trabalhando em modo El Niño”, afirma Marcelo Seluchi, diretorgeral do Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia. “Infelizmente, vamos ter mais situações como as da semana passada, com episódios de chuva mais frequentes e mais intensos. Esse é o ‘padrão El Niño’ no Sul.”
CHUVA E VENTO. A média de precipitação para setembro no Rio Grande é de 180 milímetros – a média registrada nos primeiros oito dias de setembro já foi de 200 mm. E, nesses primeiros dias do mês, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou volumes superiores a 200 mm em muitas áreas, sendo que alguns locais chegaram a acumular mais de 300 mm, como é o caso de Passo Fundo, Serafina Correa e Cruz Alta.
O El Niño afeta também o regime dos ventos. No alto da atmosfera, a pelo menos oito quilômetros de altura, os mais frios e mais intensos, chamados de jatos, tendem a se intensificar. “Vento, calor e umidade. É tudo do que se precisa para a formação de tempestades”, afirma o pesquisador do Cemaden Christopher Cunningham, especialista na área de clima. “Dadas essas condições, teremos de ficar de olho na passagem de todas as frentes frias pela Região Sul pelo menos até o fim do ano.”
O Sul costuma receber frentes frias da Antártida. Quando essas frentes se chocam com o ar mais quente, a tendência é de formação de tempestades e até de ciclones extratropicais. Além disso, as mudanças climáticas tendem a agravar o El Niño. “Será que não estamos falhando na cultura da prevenção? A informação já está disponível”, disse Cunningham. “Não adianta depois dos desastres colocar a culpa em quem não pode se defender, no caso o clima.” Para o pesquisador, os efeitos do aquecimento global já são evidentes. “Não é algo que vai acontecer no futuro, já está acontecendo.”
DOAÇÕES. A Defesa Civil do Rio Grande do Sul pediu ontem prioridade na doação de kits de limpeza, para os desabrigados e desalojados pela tragédia climática. “A principal necessidade no momento é de materiais de limpeza, especialmente nessa fase em que o Poder Público, a comunidade e voluntários realizam a limpeza de casas e ruas”, informou à Agência Brasil. Entre os produtos solicitados estão baldes, rodos, vassouras, luvas e botas. •
Precipitação A média registrada nos oito primeiros dias foi de 200 milímetros, ante média mensal de 180 mm
Fonte: O Estado de S. Paulo
