Por Eduardo Magossi — De São Paulo
27/07/2022 05h03 Atualizado há 5 horas
A resiliência dos mercados acionários americanos mesmo diante do temor de uma recessão provocada pela forte alta nos juros promovida pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deve levar a um ciclo mais longo de aperto monetário no Brasil, em um momento em que o país enfrenta incertezas relacionadas ao estresse fiscal e às eleições, avalia Marcelo Fonseca, economista-chefe do Opportunity Total, em entrevista ao Valor.
Mesmo com dados que revelam a partir de junho queda na confiança do consumidor, na atividade industrial e nos novos pedidos de hipotecas nos EUA, o mercado acionário não parece se abalar. Em julho, os índices S&P 500 e Nasdaq sobem quase 5%. Essa resiliência, segundo Fonseca, é fruto da interpretação de parte do mercado de que a queda dos preços das commodities, além dos dados que mostram desaquecimento de atividade, irão facilitar o processo de desinflação e, com isso, o Fed não precisaria prosseguir com um aperto monetário mais rígido.
“O ônus da prova desse comportamento aparentemente contraditório entre o mercado acionário e a realidade dos dados será o comportamento da inflação”, disse. “Se a recessão americana for moderada e a inflação entrar nitidamente em trajetória de queda, os mercados irão olhar para além da fraqueza da economia no curto prazo, já entendendo que em breve haverá uma ‘boia’ do Fed por meio do corte de juros. O ônus da prova está na deflação.”
Na avaliação do economista, o comportamento da inflação vai ser mais rígido e ficará muito mais difícil para o Fed derrubá-la do que acredita o mercado. Fonseca considera que a taxa no fim de ciclo deverá entrar em terreno contracionista e chegar em torno dos 4%, acima do sinalizado pelo banco central, de 3,5%. “Será necessária uma forte desaceleração para produzir uma recessão capaz de esfriar o mercado de trabalho, que é a fonte primária do desequilíbrio inflacionário americano”, disse. Segundo Fonseca, a dinâmica da inflação de curto prazo é muito mais determinada pelo mercado de trabalho e salários do que pela atividade em si, medida pelo PIB. “A conclusão é que o tipo de desaquecimento que vai ser necessário é o desaquecimento no mercado de trabalho, e talvez uma recessão branda do PIB não seja suficiente e demore muito mais tempo do que o mercado está precificando.”
Na sua visão, quanto mais tempo os mercados seguirem resilientes com juros elevados, mais forte permanecerá o dólar e países emergentes como o Brasil terão que manter também sua política monetária mais apertada por mais tempo para controlar a inflação. No caso do Brasil, Fonseca avalia que 2023 vai ser um ano bastante desafiador.
Para ele, o país vem desenhando uma desconstrução dos pilares fiscais, com medidas do governo para estimular o consumo e ajudar os mais pobres em um momento de abertura pós-pandemia, com um forte aumento no custo de vida. “É preciso olhar com mais cuidado para a questão da pobreza, mas o grande desafio é como fazer isso sem colocar em xeque o marco fiscal, a sustentabilidade de longo prazo das contas públicas, que na verdade é o grande elemento de prosperidade de longo prazo.”
Segundo ele, a dúvida é se haverá maturidade suficiente do sistema político – independente de candidato A ou B – para não seguir a receita dos últimos 40 anos de se sacrificar o longo prazo empurrando políticas que visam remediar situações de curto prazo, ainda que relevantes. “Curto prazo é importante, é fundamental aliviar a pressão que os estratos de menor renda da sociedade estão sentindo. Mas não se pode abrir mão de políticas que gerem prosperidade no longo prazo”, afirma.
E é isso que os dados do boletim Focus, do Banco Central, vêm mostrando consistentemente, diz. “O Focus revisou fortemente para cima o PIB para 2022 e sistematicamente tem subtraído dos anos seguintes, o que dá a exata dimensão de que só estamos emprestando o crescimento futuro para o curto prazo e não criando um processo consistente de retomada e crescimento”.
Além do estresse fiscal, o Brasil vai enfrentar a desaceleração da China, grande importadora de commodities do país, e a já citada resiliência dos mercados americanos, que pode fazer com que os juros permaneçam elevados por mais tempo. Fonseca prevê, no Brasil, uma Selic de fim de ciclo de 14,25%, e uma inflação elevada não apenas em 2022, mas também nos próximos anos. A projeção do Opportunity é de inflação de 6,95% neste ano e de 6,15% para 2023. “Diante desse cenário, um corte nos juros não está no horizonte próximo.”
Para o economista-chefe do Opportunity Total, a grande questão é se o mercado já reflete completamente o cenário que ele descreve. “Essa é a grande pergunta que se faz. Acho que o mercado já reflete uma boa parte da dose de estresse institucional do ponto de vista fiscal. Mas está completamente precificado? Eu acho que não.”
Fonte: Valor Econômico
