Quase três meses após o início da guerra no Irã, o choque inflacionário provocado pela disparada do petróleo começa a impor uma reprecificação mais intensa dos juros globais e eleva o desconforto dos investidores com a renda fixa americana, em um movimento que também começa a desancorar, ainda que de forma contida, as expectativas inflacionárias.
Em apenas três pregões, os rendimentos dos Treasuries (títulos dos EUA) de longo prazo superaram a marca de 5% e atingiram os maiores níveis desde 2007, em um movimento que reacendeu temores sobre a capacidade do mercado de absorver um ambiente de inflação persistente, déficits fiscais elevados e juros estruturalmente mais elevados.
O estresse não se dá só nos Treasuries. Há, de modo geral, uma contaminação no humor dos mercados, que provoca um aumento dos prêmios de risco na renda fixa global. Nos Gilts britânicos, as taxas ultralongas estão próximas de 6%; os rendimentos do JGBs japoneses de 30 anos seguem nas máximas históricas, acima de 4%; e, na Europa, os juros também continuam em alta e em níveis já bastante elevados.
Ao observar os títulos públicos dos países do G7, o economista-chefe da Apollo Global Management, Torsten Slok, afirma que os juros estão nos maiores níveis desde 2004. Ele acredita que “a era das taxas artificialmente comprimidas parece ter ficado definitivamente para trás”, especialmente se não houver uma solução clara para questões como a pressão inflacionária gerada pela guerra; os déficits fiscais elevados; o fim do programa de afrouxamento quantitativo dos bancos centrais; e a exigência de prêmios mais elevados diante da fragmentação geopolítica.
A visão é compartilhada pelo Barclays. “Enquanto escrevemos, os rendimentos dos Treasuries de 30 anos ultrapassaram com folga o amplamente observado nível de 5% e os títulos americanos não estão sozinhos”, afirma a equipe liderada por Anshul Pradhan. “Temos argumentado contra a ideia de ‘comprar na queda’ na ponta longa da curva e seguimos com essa visão”, afirmam os profissionais do banco britânico ao avaliarem que a economia dos EUA tem sido resiliente, o que levanta questionamentos sobre os juros de equilíbrio.
O processo de reprecificação dos juros tem assustado os mercados desde a forte surpresa altista do índice de preços ao produtor (PPI) dos EUA de abril, que veio muito acima do esperado na semana passada. Em meio a declarações cada vez mais conservadoras de dirigentes do Federal Reserve (Fed, banco central americano) e de outros grandes bancos centrais, o mercado passou a embutir na conta uma inflação mais alta e a consequente necessidade de juros ainda mais elevados.
Ainda que de forma bastante contida, as expectativas de inflação de mercado, que costumam ser observadas de perto, têm subido. Dados da distrital de St. Louis do banco central americano mostram que a inflação “implícita” de cinco anos subiu de 2,4% no início da guerra para 2,69%, enquanto a inflação de dez anos avançou de 2,25% para 2,48%.
Não chega a surpreender, assim, que a taxa da T-note de dez anos tenha ultrapassado 4,5% e que o rendimento do papel de 30 anos tenha encostado em 5,2%, no maior nível desde 2007, diante de uma onda de vendas dos papéis da dívida americana.
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Além do choque do petróleo, os profissionais do Barclays mencionam a desconfiança – cada vez maior – com as contas públicas. “Os desdobramentos da política fiscal também não ajudam, diante da frustração com as receitas tarifárias”, diz a equipe de Pradhan. “A perspectiva fiscal piorou”, enfatizam os estrategistas, ao notarem que a tarifa efetiva imposta pelos EUA caiu e está muito abaixo do nível estimado anteriormente, ao mesmo tempo em que os gastos com defesa do governo americano também parecem ser mais altos.
É nesse sentido que o Barclays adota uma visão mais pessimista com as taxas ultralongas nos EUA. “Mesmo que o Fed não eleve os juros, um período prolongado de manutenção das taxas em nível estável, mas sem sinais de desaceleração no crescimento, provavelmente levaria a uma nova alta dos yields de 30 anos, à medida que os investidores reavaliam a taxa neutra e o componente de expectativas”, enfatizam os estrategistas. Diante de um quadro fiscal que não deve melhorar nesse ambiente, é possível que as taxas de 30 anos subam para algo próximo de 5,4%.
“E altas de juros pelo Fed poderiam empurrá-las ainda mais para cima caso o crescimento permaneça forte”, alertam os estrategistas de juros do Barclays.
O Bank of America (BofA) também mantém uma visão mais negativa com o mercado de Treasuries e acredita que a taxa da T-note de dez anos, que subiu a 4,671%, pode alcançar 4,78% no atual movimento de incorporação de prêmios na curva de juros. Há, no entanto, a chance de que esse vencimento chegue a 5,02%, apontam os profissionais do BofA, que seria um nível não visto desde outubro de 2023.
No cenário-base do banco canadense RBC Capital Markets, a taxa da T-note de dez anos deve rondar o nível de 4,5% neste ano, após a disparada recente diante da maior preocupação do mercado com a inflação. “Nossa expectativa, ainda que com baixa convicção, é de que esses saltos [dos juros] se mostrem temporários, com os yields retornando posteriormente, ao longo do trimestre, para a faixa superior dos níveis de negociação dos últimos meses”, ou seja, um pouco abaixo de 4,5%.
“Ainda assim, não estamos particularmente otimistas, e nosso cenário-base para o ano continua sendo de yields presos em uma faixa lateral”, enfatizam os estrategistas do banco. Para eles, deve haver um pequeno rali na renda fixa em torno das eleições de meio de mandato nos EUA, no quarto trimestre, diante da expectativa de que os democratas retomem o controle pelo menos da Câmara. Isso, na visão do RBC, poderia levar o mercado a “eliminar qualquer probabilidade remanescente de estímulos fiscais adicionais nos dois últimos anos do mandato de Donald Trump.”
Fonte: Valor Econômico