11/06/2022 – Jornalista: Carolina Nalin e Jéssica Marques
A renda média dos brasileiros recuou ao menor patamar em dez anos. É o que mostrou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) que trouxe o rendimento de todas as fontes de 2021, divulgada ontem pelo IBGE. No ano passado, a renda média mensal domiciliar per capita foi de R$ 1.353. É o menor valor desde 2012, quando começou a série histórica da pesquisa. Em 2021, a retração foi de 6,9%, também a maior queda do levantamento.
A redução do valor e do número de famílias atendidas pelo Auxílio Emergencial no ano passado, em meio à lenta recuperação
do mercado de trabalho, fez a renda cair mais. Em 2020, 23,7% das famílias recebiam transferências, em 2021 o percentual passou a 15,4%. Outro fator que explica a queda na rendimento é o avanço da inflação.
? Tem efeito pandemia, efeito inflacionário e efeito da retirada desses colchões de proteção, com o mercado de trabalho ainda tentando se recuperar. São vários fatores que contribuíram, não é possível dizer qual preponderou, mas podemos dizer que todos perderam ? diz Alessandra Brito, analista da Pnad Contínua.
Todos as famílias nas diferentes faixas de renda perderam desde 2012, mas entre os 5% mais pobres o rendimento despencou 48%, passando de R$ 75 em 2012 para R$ 39 ano passado. Já o 1% mais rico perdeu 6.9% no período, de R$ 17,1 mil para R$ 15,9 mil, intensificando a desigualdade.
O economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social, chama a atenção para o contexto em que se deu a piora da desigualdade e da queda da renda das famílias. Enquanto o ano de 2020 foi “anestesiado? pelo auxílio emergencial, Neri lembra que 2021 começou com a interrupção do pagamento do benefício e terminou com a criação do Auxílio Brasil, menos generoso e mais restrito no contingente de beneficiários. O novo programa tem um desenho que dificulta a mensuração da realidade das diversas famílias atendidas:
?Tem essa terceira dimensão. Tudo se deu sob muita instabilidade, e esse movimento errático impacta o bem-estar e agrava os efeitos. A gente desajustou a política social. Poderíamos estimar melhor o grau de nobreza com o histórico do cadastro único via aplicativo deixado pelo Auxilio Emergencial e fazer melhores ajustes de política social do que se
está fazendo agora.
Maria da Conceição Ferreira da Silva, de 31 anos, foi uma das que viu o valor do beneficio assistencial cair de R$ 600 para R$ 400. A maranhense trabalhava como manicure pouco antes da pandemia e chegava a ganhar mais de um salário mínimo. Com a perda de renda e a gravidez da primeira filha, hoje com dois anos de idade, ela depende do auxílio do governo. Há cinco meses passou a trabalhar com artesanato. Com uma renda informal que não ultrapassa R$ 800, um acidente de trabalho agravou a situação:
? É difícil ter que sobreviver com o mínimo. Eu trabalho por encomenda e quando não tem pedido fico dependendo do auxílio. Perdi parte do movimento das mãos, isso dificulta que eu volte a trabalhar como antes. Minha filha tem dois anos, e eu tento não deixar faltar nada para ela. Está tudo muito caro, não está sendo fácil vender meus artesanatos.
O rendimento chegou a atingir a maior média da série (R$ 1.520) em 2019, antes da chegada da pandemia de Covid-19. Mas, desde que o pais passou a enfrentar os efeitos econômicos da crise sanitária, o rendimento tem caído. Em 2020, recuou 4,3% frente o ano anterior. Se considerados os 50% da população com os menores rendimentos, esta parcela recebeu, em média, R$ 415 em 2021, também o menor valor em dez anos.
CENÁRIO DIFÍCIL EM 2022
A pesquisa também revela que todas as regiões do pais registraram perda de renda per capita entre 2020 e 2021. Entre elas, o Nordeste segue com menor rendimento médio mensal domiciliar, ao atingir R$ 843 no ano passado continha média nacional de R$ 1.353. Neri diz que o ano de 2022 ainda apresentará indicadores ruins no que se refere à renda e desigualdade. Isso porque a queda no rendimento do trabalho supera a boa notícia de aumento da ocupação neste ano, ao passo em
que a inflação segue elevada e o calendário eleitoral adiciona instabilidade ao cenário.
? Não tem muito o que comemorar em 2022 e, olhando para 2023, talvez seja ainda mais difícil porque vai ser o ano em que não vai haver mais a preocupação eleitoral. Vamos botar os pés no chão em uma situação difícil. A renda e a desigualdade vão melhorar em algum momento, mas ainda não vejo essa luz no fim do túnel ?analisa Neri.
MAIS CONCENTRAÇÃO
Essa queda desigual também é percebida na apropriação da renda. A parcela de brasileiros que faz parte do 1% com os maiores rendimentos mensais recebe atualmente, em média, o equivalente a 38,4 vezes o que a metade da população do pais com os menores rendimentos ganha. Diferença bem maior que em 2020 que fora de 34,8%.
?Os mais pobres perderam bastante em termos de renda ?destaca Alessandra Brito, do IBGE.
O índice de Gini, que quanto mais perto de 1, mais concentrada a renda numa economia, subiu no ano passada De acordo com o IBGE. o coeficiente de Gini do rendimento médio per capita subiu de 0,524 em 2020 para 0.544 em 2021, motivado pela redução do auxílio emergencial e mercado de trabalho ainda fraco.
?A desigualdade medida pelo Gini aumentou em todas as regiões, sobretudo nas Norte e Nordeste, onde o recebimento do auxílio emergencial atingiu maior proporção de domicílios durante a pandemia de Covid-19 e que podem ter sido mais afetadas com as mudanças no programa ocorridas em 2021?, informou o IBGE.
Neri vê com preocupação a escalada da desigualdade. Ele lembra que o país já passava por esse aumento com a recessão de 2015 e 2016:
?A pandemia é um fenômeno global, mas há dificuldade no Brasil em enfrentá-la de maneira menos instável.
Fonte: O Globo
