Para especialistas, é importante ter resiliência, correr os riscos necessários e não desperdiçar oportunidades
PorNelson Rocco
— Para o Valor, de São Paulo
Conseguir se reinventar ao ritmo das mudanças globais é o mantra por trás do sucesso de empresas ou grupos que já contam com mais de um século de existência. Para sobreviver ao longo das décadas é importante ter resiliência, correr os riscos necessários e não desperdiçar oportunidades. O mundo empresarial brasileiro é farto em exemplos. O Grupo Cornélio Brennand, o Grupo Votorantim, a fabricante de alimentos Catupiry e os Correios são apenas alguns.
Fundado em 1917, em Recife (PE), o Grupo Cornélio Brennand (GCB) soube aproveitar oportunidades de mercado. Iniciou as atividades com a produção de cerâmica, com a Cerâmica São João. Em 1954, quando no Brasil só existiam duas fábricas de azulejos e mais de 50% das peças usadas por construtores eram importadas, o empreendedor Ricardo Lacerda de Almeida Brennand decidiu criar a Iasa (Indústria de Azulejos S.A).
“Esse olhar empreendedor seria a nossa porta de entrada também no setor de embalagens e utilidades de vidro, com a Companhia Industrial de Vidros, em 1958”, conta Léo Mendes de Farias, presidente do GCB. Duas décadas depois, o grupo diversificou mais uma vez, ao entrar no ramo de cimento e, mais recentemente, nas áreas de energia e imóveis.
Hoje, o GCB fatura R$ 1,25 bilhão, de acordo com os últimos dados disponíveis, de 2022. Fazem parte do grupo as empresas Atiaia Renováveis, de geração e comercialização de energia renovável; Vivix Vidros Planos; e a Iron House Desenvolvimento Imobiliário. O GCB tem ainda participações no JW Marriott Hotel São Paulo, e na Cimento Bravo.
Na opinião de Rodrigo Rodrigues, vice-presidente da consultoria Falconi, o que falta aos empresários é a “percepção para a mudança dos tempos”. Segundo ele, não é necessário criar negócios em áreas diferenciadas, mas é importante “ser disruptivo”. Denis Medina, professor de Finanças da Business School São Paulo, vai na mesma linha. “A empresa precisa encontrar um caminho para a renovação, para se reinventar, acompanhando as mudanças do mercado, ou se torna irrelevante.”
O Grupo Votorantim, com receita consolidada de mais de R$ 48 bilhões no ano passado, está em constante reinvenção. Iniciou as atividades em 1918, com uma fábrica de tecidos em Sorocaba, interior de São Paulo. Entre a fundação e a década de 1950, passou a atuar na indústria química, de cimento, de aços longos e de alumínio. Nas quatro décadas seguintes, a Votorantim entrou nos setores de energia, zinco, papel e celulose, suco de laranja e financeiro. A partir dos anos 2000, partiu para a internacionalização, com a aquisições na América do Norte e Europa.
O período de 2015 a 2022 foi marcado pela evolução da governança e do posicionamento do grupo. “Tivemos novos movimentos, como a abertura de capital da Nexa [mineração e metalurgia], da CBA [alumínio] e da Auren [energia], bem como importantes parcerias com o CPP Investiments, em energia renovável, e a CDPQ, em cimentos, na América do Norte”, lembra João Schmidt, diretor-presidente do Votorantim.
Schmidt conta que a diversificação não parou por aí. Entre 2021 e 2022, houve a entrada em novas áreas, com a Altre (mercado imobiliário), CCR (infraestrutura), 23S Capital (private equity, em parceria com o Temasek), Hypera (farmacêutica) e Reservas Votorantim (gestão ambiental).
Os Correios, estatal que conta com 361 anos de atividade, também vêm se reinventando ao longo da história, ainda que mantendo a trajetória no mesmo setor. Tradicional entregadora de cartas, telegramas e encomendas, hoje a companhia se define como operadora logística. “Somos a maior empresa de logística da América Latina. Temos uma frota de mais de 23 mil veículos, mais de dez linhas de transporte aéreo de carga, mais de 8.000 unidades operacionais e mais de 10 mil agências no país”, enumera Fabiano Silva dos Santos, presidente dos Correios.
A transformação dos Correios tem sido rápida, com o atendimento às demandas do e-commerce, dos novos negócios e do aumento da comunicação por meios eletrônicos. Segundo Santos, entre 2008 e 2022, o envio de mensagens caiu 73% e o de encomendas cresceu 210%. “Precisamos evoluir para atender às necessidades das pessoas, das empresas. A mudança visa garantir a sustentabilidade da companhia.”
Apesar de manter se firme no setor de alimentos, a Catupiry, criada em 1911, vem desenvolvendo novos produtos a cada dia. Dona do tradicional requeijão cremoso, a companhia conta com uma gama de mais de cem itens, entre várias versões de requeijão, cream cheese, fondue, pães de queijo, quitutes, salgados e pizzas artesanais, além de itens específicos para restaurantes e outras fabricantes de alimentos.
Fonte: Valor Econômico