Segundo dados da Health Care Without Harm (HCWH) de 2019, só as unidades hospitalares emitem cerca de 2,5 vezes mais gases de efeito de estufa (GEE) do que os edifícios comerciais
Por Gabriela da Cunha — Para o Valor, do Rio
01/11/2022 05h02 Atualizado há 10 horas
O Brasil tem cerca de 5 mil hospitais, a maior parte de pequeno e médio porte. Independentemente do tamanho, todos têm em comum o complexo desafio de redução e gestão de resíduos em diferentes frentes. Grandes consumidores de insumos os hospitais sempre se preocuparam com o tratamento de resíduos para evitar o contágio por doenças. Porém, não podem mais se limitar a isso.
Segundo dados da Health Care Without Harm (HCWH) de 2019, só as unidades hospitalares emitem cerca de 2,5 vezes mais gases de efeito de estufa (GEE) do que os edifícios comerciais. Os sistemas de saúde, de modo geral, respondem por mais de 4% da emissão global de CO2 – mais do que os setores da aviação ou do transporte marítimo, por exemplo.
“No Brasil, assim como no exterior, as ações estão muito centradas em serviços e medicamentos inovadores. Mas, nossas pesquisas mostram que os dois grandes segmentos da saúde, a indústria farmacêutica e os prestadores de serviços [hospitais, distribuidores de medicamentos, planos de saúde], ainda precisam olhar as questões mais ligadas à sustentabilidade ambiental”, avalia Bruno Porto, sócio da consultoria e auditoria PwC Brasil.
Ainda assim, a redução de gases que contribui para o aquecimento global está muito menos representada nas estratégias e na remuneração variável entre os executivos-chefes de saúde no Brasil e no mundo.
A 25ª pesquisa com CEOs da PwC Brasil, feita neste ano, mostra que apenas 9% dos executivos da saúde no Brasil e no mundo têm metas relacionadas a emissões de gases de efeito de estufa vinculadas à sua remuneração pessoal, ante 30% entre os líderes do setor de energia no mundo.
Mesmo quem adota metas “net zero”, assume compromissos centrados somente em eliminar o carbono em alguns processos internos e na cadeia de fornecedores, ou na busca por formas de distribuir medicamentos com veículos de transporte de baixa emissão de gases, por exemplo.
Parte das soluções está, por exemplo, no uso de tecnologia e isso passa pela digitalização de processos. Apesar de parecer uma medida simples, ela é efetiva para a gestão ambiental dos agentes do setor, segundo especialistas.
A troca da infraestrutura de armazenamento de informações dos prontuários de papel por softwares sofisticados de gestão, que guardam os dados em centros de dados, pode diminuir em cerca de 80% o uso de energia, de acordo com dados de 2016, compilados pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos.
Olhando para esse nicho de mercado, a Philips, por exemplo, lançou no Brasil o Tasy EMR, software de gestão de dados e prontuário eletrônico que já é aplicado em 1.650 unidades no país. Além de promover a redução de papel, o sistema permite, por exemplo, que as unidades hospitalares e clínicas aumentem a eficiência de suprimentos farmacêuticos, reduzindo a geração de lixo químico e gastos desnecessários.
“Enxergamos que a relação entre a saúde humana e a saúde ambiental está altamente conectada”, diz Felipe Basso, diretor geral da área de sistemas de saúde da Philips no Brasil, observando que seus produtos têm por objetivo reduzir o dióxido de carbono (CO2) na atmosfera.
Outras iniciativas para a menor geração de resíduos dependem menos do desenvolvimento tecnológico e mais de avanços regulatórios, como no caso da chamada blisterização – ou seja, a venda de medicamentos em doses individualizadas e de acordo com cada recomendação médica.
“Esse é um processo que já ocorre nos Estados Unidos. É um tema mais amplo, que envolve discutir como capacitar as farmácias e toda a cadeia de distribuição de forma a tornar a blisterização segura ao consumidor”, diz Bruto Porto.
Enquanto isso não acontece, parte da indústria farmacêutica está caminhando para a troca de embalagens plásticas e de isopor por alternativas mais sustentáveis, como as feitas a partir da fibra do algodão ou papel cartonado, que emitem menos CO2 em sua produção.
No caso da farmacêutica Merck, uma recém-fechada parceria com a Eureciclo, certificadora de logística reversa, vai promover a compensação ambiental de 11,7 toneladas de plástico ainda em 2022, aumentando as taxas de reciclagem e beneficiando as centrais de triagem.
Segundo a empresa farmacêutica, a compensação ambiental compreende 100% das embalagens comercializadas no Brasil.
“Em menos de seis meses, compensaremos o equivalente a 46 caixas d’água de 1000 litros cada repletas de plástico”, informou Klariane Buosi, gerente de vendas de biomonitoramento da divisão de Life Science da Merck.
Os setores de cosméticos, biocosméticos, higiene pessoal, farmacêuticas e hospitalares representam quase 15% do total de clientes da Eureciclo. Segundo levantamento desta certificadora, 92% estão entre pequenas e médias empresas e 7% são as grandes marcas como Merck, J&J, GSK, Mantecorp, P&G e Simple Organic, por exemplo.
Fonte: Valor Econômico