Por Alessandra Saraiva e Marcelo Osakabe — Do Rio e de São Paulo
16/08/2022 05h02 Atualizado há 4 horas
A queda de 4,85% no preço da gasolina nas distribuidoras, anunciada ontem pela Petrobras, deve levar a uma nova onda de revisões para baixo da inflação acumulada em 2022, avaliam economistas consultados pelo Valor. O movimento deve ocorrer não apenas de olho nos efeitos diretos e indiretos do combustível – que tem peso de 6,5% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) -, mas também diante da perspectiva de novos cortes nos preços dos combustíveis nos próximos meses, uma vez que a cotação do petróleo segue sob pressão no exterior.
Nas contas da LCA Consultores, o efeito direto do corte sobre a inflação é um impacto negativo de 0,1258 ponto porcentual, diz o economista Bruno Imaizumi, a ser dividido entre a coleta do IPCA cheio de agosto e no IPCA-15 de setembro.
Com isso, a estimativa para a inflação no acumulado de 2022 caiu de 7,46% para 7,20%. O cálculo leva em consideração os efeitos diretos do anúncio de hoje, possíveis novos reajustes nos combustíveis e também efeitos indiretos, “sobretudo em alimentos, que devem aparecer nas coletas agropecuárias nas próximas semanas”, diz Imaizumi.
Já a MCM Consultores estima um impacto negativo de 0,17 ponto porcentual do IPCA entre agosto e setembro. Com isso, a projeção da casa para a inflação cheia em 2022, considerando apenas os efeitos diretos, deve cair dos atuais 6,90% para 6,70%.
Para André Braz, economista da Fundação Getulio Vargas, agosto deve apresentar deflação ainda maior após a redução. Em seus cálculos, o corte de 4,85% sobre a gasolina não deve ser integralmente repassado à bomba, mas ainda assim irá “tirar” 0,15 ponto porcentual do IPCA, parcelado igualmente entre agosto e setembro.
As projeções de mercado giram em torno de -0,20% para o dado deste mês, número que deve migrar para mais perto de -0,30%, acredita. Com isso, a cresce também a chance de o IPCA fechar o ano abaixo de 7%. pondera.
Para Braz, o recuo também reflete um fenômeno mais amplo: o de que a recessão global vai baixar ainda mais os preços de commodities no mercado internacional. Ele não descarta novas reduções do combustível até fim do ano.
Ontem, após dados negativos do setor industrial tanto na China quanto nos Estados Unidos, o contrato do petróleo WTI para setembro, o mais líquido, fechou em queda de 4,79% em Nova York, negociado a US$ 93,89 o barril.
Braz lembra que o avanço da inflação levou os Estados Unidos a nova rodada de aumento de juros, o que inibe consumo e, com isso, o ritmo de crescimento da economia americana. Ao mesmo tempo, o mercado imobiliário da China, fortemente atrelado ao PIB chinês, mostra dificuldades no momento, o que “pode trazer novas surpresas no campo de commodities”, frisou, não descartando novas desacelerações de preços, ou até mesmo recuos, nesse tipo de produto.
Outro aspecto citado por Braz é o fato de que os sinais de desaceleração não são apenas de China e Estados Unidos. Outras regiões, como Austrália e Europa, também dão indícios do mesmo fenômeno. “As grandes economias dão sinais de desaceleração”, alertou, reiterando que isso ajuda a derrubar cotação de petróleo – e, assim, a reduzir preços de derivados no Brasil.
No Santander, a expectativa desde a semana passada já era pela adoção de um ajuste dessa magnitude nos preços da Petrobras. Assim, o tracking de alta frequência do banco para a inflação se manteve em 7% para este ano – a projeção oficial do banco, atualizada a cada 45 dias, se mantém em 7,9%.
O viés, por outro lado, é que essa projeção caia ainda mais, diz o economista Daniel Karp. Ele cita o patamar de 6,50%, que tem sido visto em outras casas e também em medidas de mercado como a inflação implícita. Ontem, os Contratos Futuros de Cupom de IPCA – derivativos que os investidores utilizam para se proteger de flutuações na taxa de juro real do Brasil e apostar na trajetória da inflação – apontavam IPCA de 6,27% no ano.
“O risco é mesmo de ir mais para perto de 6,5%. Só não ocorreu ainda por dois motivos”, diz Karp. “O primeiro é que, por questões relacionadas à oferta global, acreditamos que o preço do petróleo pode voltar a subir para perto de US$ 100 no fim do ano, o que significa um possível reajuste para cima dos combustíveis mais à frente. Segundo, porque acredito que parte dos economistas ainda não leva em consideração que a nova rodada de expansão fiscal – o Auxílio Brasil em R$ 600 – e os demais benefícios devem sustentar a demanda em nível ainda alto, impedindo que a inflação caia de forma mais firme.”
Fonte: Valor Econômico
