Por Victor Rezende e Matheus Prado, Valor — São Paulo
03/09/2022 14h00 Atualizado há um dia
Embora as incertezas quanto ao rumo dos juros nos Estados Unidos e aos riscos políticos e fiscais no Brasil continuem a ter peso relevante na dinâmica da taxa de câmbio, algum apoio ao real tem sido oferecido pelo fechamento da “boca de jacaré” formada pela diferença entre o câmbio embarcado e o contratado. Após as máximas históricas vistas no ano passado, essa diferença tem se reduzido nos últimos meses, o que ajuda a evitar uma desvalorização expressiva do real, mesmo em um momento de dólar forte globalmente e nas máximas em 20 anos no exterior.
Dados do Banco Central e da Secex mostram que, até 26 de agosto, a diferença em 12 meses entre o câmbio embarcado, divulgado pela secretaria, e o câmbio comercial contratado, informado pela autoridade monetária, chega a aproximadamente US$ 30,7 bilhões, em níveis semelhantes aos observados em janeiro de 2021 e bem afastados do pico de US$ 58,7 bilhões atingido em agosto de 2021.
“Parece que, finalmente, o exportador começou a trazer recursos que estavam lá fora”, afirma o economista Jankiel Santos, do Santander.
“As condições de crédito estão mais caras, existe, ainda, um encarecimento de alguns insumos e o exportador precisa ter mais capital. Como está mais caro, ele começa a trazer os recursos que estavam lá fora”, aponta o profissional, ao lembrar que, no ambiente atual, o Banco Central tem indicado que irá manter a taxa Selic em nível elevado por um período prolongado, o que deve manter as condições de crédito mais caras.
“Além disso, esperamos alguma acomodação tanto no crescimento mundial quanto nos preços das commodities, após os ciclos de aperto monetário que estão sendo implantados em todo o mundo. Assim, acreditamos que as operações dos exportadores irão demandar um volume maior de recursos próprios, o que deve gerar uma redução ainda maior do descompasso entre o câmbio embarcado e o câmbio contratado”, diz Santos.
O economista do Santander, inclusive, acredita que esse potencial movimento pode ajudar a evitar um enfraquecimento excessivo do real à frente. “É um fator que ajuda a evitar uma desvalorização mais intensa do real, mas outros elementos mais importantes acabam prevalecendo. O cenário internacional está ficando mais conturbado e nós temos eleições. O mercado fica mais reticente e isso pesa na dinâmica do real”, afirma.
A volatilidade do câmbio nos últimos dias tem despertado a atenção de agentes, dado que os impactos do cenário internacional continuam relevantes no mercado, assim como a perspectiva de um diferencial de juros menor, preços das commodities em queda e alguns ruídos políticos, que já batem à porta com a eleição presidencial. Na sexta-feira, o dólar encerrou a semana negociado a R$ 5,1848.
“De certa forma, essa redução da ‘boca de jacaré’ dá algum apoio ao real”, diz a sócia e economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico. Ao observar os dados de câmbio embarcado e de câmbio contratado no acumulado deste ano, ela nota que a diferença, em 26 de agosto, estava em aproximadamente US$ 13,9 bilhões.
“Eles estão se aproximando mais e isso dá uma sustentação maior para o real. Ao se olhar as exportações, a ‘boca de jacaré’ continua aberta, mas o mais importante é o saldo, porque você mede efetivamente o quanto entra de dólar”, aponta.
Para Damico, a balança comercial física tem apoiado o saldo comercial contratado mais forte. “O exportador continua deixando recursos lá fora, mas começamos a observar um movimento diferente. Antes, nós víamos o exportador deixar os recursos lá fora e, aparentemente, ele não estava usando; estava fazendo caixa lá fora. Agora, o exportador provavelmente está começando a usar esses recursos para pagar importações. É uma das consequências desse processo de aumento de juros”, nota.
No acumulado do ano até 26 de agosto, o fluxo comercial registra entrada líquida de US$ 29,71 bilhões e é, assim, o principal agente a impulsionar o fluxo cambial, que está positivo em US$ 19,96 bilhões neste ano. O fluxo financeiro, por sua vez, tem mostrado desempenho contrário ao do comercial no acumulado do ano e registra saída líquida de US$ 9,75 bilhões.
De acordo com os dados da B3, os investidores estrangeiros ingressaram com R$ 16,39 bilhões no segmento secundário da bolsa (ações já listadas) somente no mês de agosto e sustentam um superávit de R$ 70,15 bilhões no ano. Os dados não são diretamente comparáveis, dado que, pela metodologia da B3, estrangeiros podem ter usado recursos que vieram da renda fixa para colocar em ações. Apesar disso, os números dão pistas de que remessas de lucros e dividendos podem estar por trás do movimento mais recente de saída registrado no fluxo financeiro.
“De um lado, os preços de commodities elevados no primeiro semestre ajudaram empresas como Petrobras, Vale e outras ligadas às matérias-primas, que pagaram dividendos muito elevados. Isso ajuda a explicar remessas fortes de dividendos”, diz Damico, da Armor.
“E outro motivo: ao pensarmos também no lucro das empresas estrangeiras que estão no Brasil, observamos um crescimento econômico muito forte aqui no primeiro semestre, que superou economias avançadas. O diferencial de crescimento foi favorável ao Brasil e isso tem implicações para remessas também. Isso pode ajudar a explicar esse fluxo negativo”, afirma.
Na avaliação do economista-chefe para América Latina do Deutsche Bank, Sebastian Brown, o quadro, no geral, mostra alguma recuperação do fluxo para o Brasil, principalmente devido a fatores externos, como nos momentos em que o Federal Reserve (Fed) foi interpretado com uma linguagem mais “suave” pelos mercados, antes do simpósio de Jackson Hole. “E também porque o posicionamento em América Latina, no geral, e no Brasil, em particular, estava bastante baixo em termos de participação de estrangeiros”, enfatiza.
Brown nota que os investidores não-residentes estavam pouco posicionados em relação aos anos anteriores, então havia espaço para uma recuperação acontecer. “Também acho que a eleição, principalmente depois dos pleitos na Colômbia, no Peru e no Chile, tem deixado a sensação de que os investidores conhecem os dois principais candidatos. Então, há uma noção melhor de quais são os riscos da eleição de cada um deles. E acho que isso tira um pouco da ansiedade que normalmente os investidores estrangeiros costumam sentir quando há ciclos eleitorais na região”, observa o economista.
Ele, além disso, afirma que o “carry trade” (operação em que o estrangeiro capta a juro baixo fora do país e aplica no mercado local, ficando com o diferencial de juros) continua bom no Brasil e que há alguma diferenciação em termos de ciclo de aperto monetário, já que existe a percepção de que, como o BC brasileiro foi um dos primeiros a subir juros, pode ser um dos primeiros a começar a reduzir. “E isso torna os ‘valuations’ mais atraentes e incentiva o investidor a montar posições para capturar o rali local em ações ou renda fixa.”
Assim, na avaliação do Deutsche, um modo de capturar melhor o sentimento em relação aos riscos domésticos é comparar a variação do câmbio no Brasil com a de outros países na América Latina. “E temos o real performando um pouco melhor que outras moedas”, nota.
Fonte: Valor Econômico
