Por Eduardo Magossi — De São Paulo
31/01/2024 05h02 Atualizado há 26 segundosPresentear matéria
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Os Estados Unidos devem entrar em recessão a partir do segundo trimestre e, embora a expectativa é de que seja suave, até 1,3 milhão de pessoas perderão seus empregos, levando o Federal Reserve (Fed, banco central americano) a cortar os juros agressivamente a partir de março, o que vai abrir espaço para o Banco Central (BC) brasileiro também acelerar os cortes.
“A Selic deve chegar a 8% em novembro”, projeta o economista-chefe do banco suíço UBS, Arend Kapteyn. Em entrevista ao Valor durante rápida passagem por São Paulo, Kapteyn disse acreditar que o BC deve realizar cortes de 0,50 ponto percentual em cada reunião até junho e depois acelerar a redução para 0,75 ponto. “Estamos otimistas com o Brasil. No segundo trimestre, a inflação deve ficar 15 pontos-base abaixo da meta do BC”, afirmou. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
Valor: Por que o cenário-base do UBS é de uma recessão?
Arend Kapteyn: Apesar do PIB mais forte que o esperado e do consumo resiliente, o mercado de trabalho vem desacelerando. A intenção de contratação das empresas está estagnada. E, historicamente, quando o desemprego sobe 5 pontos-base [0,05 ponto percentual] de seu mínimo, entramos em recessão. Sempre acontece. Não estamos nesse ponto ainda a nível nacional, mas 38% dos estados americanos já atingiram esse valor. É o maior percentual já registrado sem o país entrar em recessão. As empresas estão desacelerando suas contratações e estão muito perto de realizar cortes à medida que o aperto monetário está reduzindo os lucros. Atualmente, com exceção do setor público e o de saúde, poucas vagas estão sendo criadas em outras áreas.
Valor: Mas as vendas no varejo seguem aquecidas…
Kapteyn: Em algum momento, o dinheiro acumulado durante a pandemia pelas famílias vai acabar. No fim do terceiro trimestre havia US$ 1 trilhão em poupança acumulada. Acreditamos que as famílias estejam gastando cerca de US$ 2,4 bilhões por trimestre, o que levaria a US$ 600 bilhões no fim do primeiro trimestre de 2024. Esse dinheiro está basicamente com os 20% mais ricos e os 20% mais pobres. Os mais ricos não vão gastar essa poupança, mas os mais pobres – que têm em mãos menos de US$ 100 milhões – irão. E as transferências sociais vistas durante a pandemia vão ser muito menores este ano. Além disso, os consumidores também estão fazendo muitos empréstimos no cartão de crédito. Em 2023, 40% do consumo foi feito com empréstimos em cartão, cerca de US$ 100 bilhões, um número historicamente elevado. É o maior intervalo entre renda e gastos já registrado nos EUA desde a Segunda Guerra Mundial porque os dados de renda revelam que os americanos não têm dinheiro, mas os dados de consumo mostram que eles estão gastando acima da média.
Valor: Esse consumo resiliente não pode trazer a inflação de volta?
Kapteyn: Teoricamente sim, mas isso não está acontecendo. O que nos leva a acreditar que uma parte expressiva da inflação foi provocada por choques de oferta que agora se dissiparam. E que valorizamos demais a narrativa de que o aumento da demanda impulsionado pelos estímulos econômicos também provocou a inflação. Agora a inflação está caindo como uma pedra, apesar de o mercado de trabalho não estar enfraquecendo ainda, apesar do forte consumo e do PIB subindo. E a média de seis meses do núcleo da inflação anualizada está em 1,86%, abaixo da meta de 2% do Fed. Na base anual, ainda está acima de 2%, mas se continuarmos assim por álbuns meses vamos chegar aos 2%.
Em algum momento, o dinheiro acumulado durante a pandemia pelas famílias vai acabar”
— Arend Kapteyn
Valor: Quando a recessão dos EUA deve começar?
Kapteyn: A recessão deve começar em maio, ou seja no segundo trimestre, quando o relatório de empregos, o ‘payroll’ passar a mostrar dados negativos. O payroll deve permanecer negativo, ou seja, com fechamento líquido de vagas de trabalho no segundo, terceiro e quartos trimestres. O início do fechamento de vagas será lento mas vai acelerar no segundo trimestre. A recessão deve ser suave, com queda de 1% do PIB, um valor historicamente pequeno, mas suficiente para gerar até 1,3 milhão de desempregados. Estimamos que a taxa de desemprego vai subir de atuais 3,7% para 5%. Como o Fed tem mandato duplo, de cuidar da estabilidade de preços e do pleno emprego, com desemprego de 5%, os modelos do banco central vão avaliar que ele precisa cortar os juros de forma agressiva. Com esse tamanho de desemprego, o Fed vai cortar os juros de atuais 5,50% e chegar no fim de 2024 a 2,75%, atingindo 1,25% no fim do ciclo de afrouxamento em 2025. Nosso cenário-base mostra 65% de chances de recessão. Há um desencontro entre minhas estimativas e de outros bancos quanto aos cortes porque nem todo mundo que está projetando uma recessão suave está prevendo um desemprego de 5%. E um desemprego de 5% é essencial para que a recessão ocorra.
Valor: Mas os investidores seguem animados e o S&P 500 batendo recordes…
Kapteyn: As pessoas se confundem porque acham que o S&P 500 espelha a economia e ele não espelha. O S&P é constituído por empresas grandes e sólidas. Mas quando olhamos a economia real como um todo, englobando pequenas empresas, a pressão dos juros altos é mais elevada. O impacto do aperto monetário tem causado muito prejuízo para as essas empresas causando queda na demanda, reduzindo lucros e apertando margens. Um ou dois trimestres a mais e teremos uma recessão. Quando os lucros caem, o payroll começa a cair, impulsionando a recessão. Estamos muito perto desse ponto, os lucros estão evaporando.
Valor: E quando deve ocorrer o primeiro corte?
Kapteyn: O primeiro corte deve ocorrer já em março. Isso porque a previsão do Fed para o nível de inflação para o fim do ano já será atingida até março. A taxa implícita dos Fed Funds tem projeção de taxa real de 2,2% e já estamos nesse nível. Se o Fed não cortar em março, ela sobe para 3%. O presidente do Fed, Jerome Powell, disse várias vezes que deve começar a cortar antes que a inflação chegue em 2%. O problema com março é a economia resiliente. O Fed quer ter certeza se o atual comportamento inflacionário que estão vendo é sustentável. Mas quando o PIB do quarto trimestre atinge 3,3% corrói a confiança do banco central. A inflação está no caminho certo, mas a economia segue aquecida.
Valor: O cenário de cortes agressivos está bem distante daqueles feitos pelo Fed…
Kapteyn: O ‘dot plot’ [gráfico de pontos] do Fed prevê três cortes de 0,25 ponto percentual, mas em seu cenário ele não leva em conta uma recessão, mas um pouso suave. No curto-prazo, a economia segue aquecida, mas nosso cenário de recessão reflete a economia daqui a dois trimestres. O relatório de empregos desta sexta-feira deve mostrar um aumento de 290 mil vagas de trabalho em janeiro, muito acima dos 180 mil previstos pelo mercado. Mas, a partir de maio, o payroll vai começar a mostrar o fechamento de vagas. E quando isso acontecer, o Fed vai acelerar os cortes. E, no início, será mais difícil para as empresas que necessitarão de alguns trimestres para aliviar seus custos de empréstimos. Para o comportamento do mercado, mesmo que seja uma recessão suave, o S&P vai cair 10% a partir da recessão. Mas deverá se recuperar até o fim do ano, em torno de 5.150 pontos, cerca de 4,5% acima do nível atual.
Valor: Qual vai ser o impacto da recessão dos EUA no Brasil?
Kapteyn: Se você tem uma queda de 10% no S&P 500, todas as bolsas do mundo serão afetadas, com exceção da China. Mas na economia o impacto não será grande. Os EUA não importam muito do Brasil e os cortes agressivos do Fed vão permitir que o Banco Central acelere os cortes na Selic. Acreditamos que o BC vai cortar 0,50 ponto por reunião até junho e depois aumentar os cortes para 0,75 ponto, com a Selic chegando em novembro a 8%. Estamos otimistas com a queda da inflação no Brasil. Vai abrir a porta para mais cortes. Estimamos que a inflação vai estar 0,15 ponto-base abaixo da meta do BC já no segundo trimestre. E mesmo em relação ao dólar, o real deve manter-se em R$ 5, evitando a valorização do dólar ante moedas de mercados emergentes que estamos prevendo. O problema do real é que ele está sobrecomprado e como os juros vão cair, o carrego também vai.
Fonte: Valor Econômico