As explicações do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, acerca da intervenção no mercado de câmbio realizada nesta semana e o enfraquecimento global do dólar, após uma leitura mais fraca do que a esperada do setor de serviços dos Estados Unidos, permitiram uma ligeira apreciação do real na sessão de ontem, que voltou a acompanhar seus pares emergentes, ainda que com um desempenho inferior. O alívio, no entanto, não se estendeu aos demais ativos locais e o Ibovespa encerrou o dia em ligeira queda, ao mesmo tempo em que os juros futuros anotaram leve alta.
O dólar comercial encerrou o dia em queda de 0,35%, negociado a R$ 5,0404. Apesar da ligeira apreciação do real, o mercado de câmbio se manteve no foco dos agentes, diante da avaliação de que, se o real permanecesse descolado de seus pares, o Banco Central poderia anunciar novas intervenções no mercado. Na terça-feira, a autoridade monetária realizou um leilão de swaps equivalentes a US$ 1 bilhão.
No entanto, em evento organizado pelo Bradesco BBI, Campos Neto afirmou que a interferência no câmbio não teve relação com a recente depreciação do real, como vinham especulando alguns investidores, mas sim devido à pressão oriunda do vencimento das NTN-As, que são títulos atrelados ao dólar.
“Entendemos que o câmbio é flutuante e o BC tem que fazer intervenções quando há disfuncionalidade na moeda”, disse, completando que, quando se olha o comportamento do câmbio em 2024, o real está “relativamente ok” comparado com outras moedas no mundo emergente.
Para o gerente da mesa de derivativos da Commcor, Cleber Alessie Machado, o Banco Central tem agido de forma técnica nessa intervenção, sem “mostrar os dentes”, ao fazer um primeiro swap cambial de 20 mil contratos, equivalentes a US$ 1 bilhão. “O BC foi muito parcimonioso e técnico, como costuma ser nessa gestão do Roberto Campos Neto. A autarquia não quis responder bruscamente a essa pressão por conta das NTN-As e fazer um leilão de US$ 3,6 bilhões de uma vez”, diz.
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“Talvez sob outra gestão, a autoridade fosse ser mais agressiva, mas como o Campos Neto vem do mercado, ele acompanha os movimentos. Por isso, mesmo que os investidores desafiem o BC para ver até onde ele vai atuar, acredito que da mesma forma que até aqui o BC foi bastante cauteloso, ele vai fazer muita avaliação antes de qualquer nova interferência”, afirma.
O movimento da moeda brasileira e dos demais ativos globais também esteve diretamente relacionada à dinâmica do mercado de juros dos Estados Unidos ontem. Após dados de emprego no setor privado do país terem surpreendido, as taxas dos Treasuries subiram com força e tocaram as máximas observadas em 2024. A pressão só foi revertida, ao longo do dia, após números mais fracos do PMI de serviços do Instituto para a Gestão de Oferta (ISM) e por declarações do presidente do banco central americano, Jerome Powell.
Em discurso realizado em evento da Universidade Stanford, o presidente do Federal Reserve (Fed, BC americano) afirmou que “a maioria” dos membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) projetam cortes de juros ainda este ano, caso a economia americana evolua como esperado. No entanto, Powell reforçou que isso dependerá da dinâmica da economia, cuja perspectiva ainda é “bastante incerta”.
“Esse foi um discurso muito familiar de Powell e que decepcionou os pessimistas que previam uma atitude conservadora em resposta à combinação da recente ação dos preços e dos dados de manufatura mais firmes. O Fed está, sem dúvida, no modo de ‘esperar para ver’; o problema é que os investidores estão cansados de esperar”, comentam Ian Lyngen e Vail Hartman, analistas de renda fixa do BMO Capital Markets.
O rendimento da T-note de 10 anos, que tocou as máximas de 4,431%, encerrou em leve queda, aos 4,355%, de 4,350% do ajuste anterior. Com a volatilidade nos mercados de juros, os índices americanos também não exibiram tração e fecharam de lado: o Dow Jones recuou 0,11%, o S&P 500 avançou 0,11% e o Nasdaq subiu 0,23%.
A ausência de apetite por risco ao redor do mundo se juntou ao mau desempenho das ações da Vale e acabou impondo um novo dia de perdas para as ações locais. O Ibovespa caiu 0,18%, aos 127.318 pontos, após ter recuado mais de 1% nas mínimas. A mineradora caiu 1,44%, refletindo a baixa de 2,5% do minério de ferro.
Ao mesmo tempo, os juros futuros encerraram a sessão em ligeira alta, com o DI para janeiro de 2027 passando de 10,265% para 10,285%. Agentes seguem reavaliando a magnitude do ciclo de política monetária do BC. Ontem a equipe do UBS BB revisou sua projeção de Selic no fim do ciclo 8% para 8,5%, enquanto a do Santander Asset elevou sua projeção para o juro básico no fim deste ano de 8,5% para 9%. A precificação atual do mercado para a Selic final está em torno dos 9,8%, enquanto a mediana do Focus encontra-se em 9%.
Segundo o sócio e gestor da Oby Capital, Camilo Cavalcanti, a atual precificação de mercado para a Selic terminal parece exagerada. “Mesmo revisando nosso cenário com informações mais recentes, ainda enxergamos o juro mais próximo de 9% do que 10%”, avalia o profissional.
Assim, os momentos recentes de maior estresse no mercado local têm sido aproveitados para ampliar posições aplicadas (que ganham com a queda das taxas). “Estamos aplicados em juros nominais na parte curta, aplicados em juros reais médios e longos, e tomados em juros nominais longos”, aponta o gestor.
Segundo ele, a posição tomada (que ganha com a alta da taxa) na curva longa não se explica somente como uma proteção contra uma piora dos riscos fiscais, mas também porque a inflação implícita neste trecho da curva está baixa, rodando na casa de 4,80%. “Só esteve mais baixa em 2019 e na época do covid. Também parece barato manter essa posição para cenários de estresse. É basicamente uma ‘compra de volatilidade’”, conclui.
Fonte: Valor Econômico
