O plano de recuperação extrajudicial da Raízen, joint venture entre Cosan e Shell, protocolado na terça-feira (11) na Justiça, prevê a capitalização da empresa de etanol e reorganização societária, o que pode incluir “fusões, cisões e incorporações de ações”, segundo o documento a que o Valor teve acesso. A companhia citou, em sua petição inicial do pedido, um risco de aceleração de cobrança de R$ 60 bilhões sem a blindagem na Justiça.
Os detalhes dessa futura capitalização ainda serão discutidos nas próximas semanas, com a possibilidade de conversão de dívidas de credores em ações da empresa, o que pode diluir as participações dos dois acionistas, ambos com 44% cada do negócio. Nas últimas semanas, credores se mostraram insatisfeitos com os valores que estavam sendo discutidos pelos acionistas em uma injeção de capital e formalizaram, em um pedido conjunto, incluindo bancos e detentores de dívidas externa, um aporte robusto de até R$ 20 bilhões, conforme revelou o Valor.
Na petição inicial, a Raízen aponta que a situação se deteriorou ainda mais com o rebaixamento de ratings pelas agências de classificação de risco, o que poderia gerar uma onda de antecipação de cobranças. As dívidas financeiras com bancos e “bondholders” (detentores de títulos externos) somam R$ 65,1 bilhões, dos quais 64% concentradas nas mãos de cinco grupos de credores. O montante sobe para R$ 98 bilhões, incluindo dívidas entre companhias do grupo.
As ações da empresa tiveram forte queda ontem, chegando a cair 17% durante o dia – com realização de leilão -, mas fecharam com recuo de 5,7%, cotadas a R$ 0,49.
O maior credor financeiro da Raízen é Bank of New York Mellon (BNY), com R$ 18,78 bilhões em créditos. Na sequência estão os “bondholders”, que detêm conjuntamente R$ 7,49 bilhões em créditos; a True Securitizadora, que intermediou emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio, é credora de R$ 6,43 bilhões; a corretora Pentágono DTVM, com R$ 6,35 bilhões; e o BNP Paribas, com R$ 3,06 bilhões em créditos.
“O eventual vencimento antecipado dessas obrigações pode, de forma concreta, dar gatilho à decretação de vencimento antecipado de diversos outros instrumentos financeiros, chamado ‘cross-default’, que pode acarretar a aceleração de mais de R$ 60 bilhões de dívidas, o que, por sua vez, ocasionará uma infinidade de ataques de credores contra o patrimônio”, conforme o documento que o Valor teve acesso..
Houve, segundo fontes, uma corrida para o pedido de proteção aos credores. Por isso, a pressa em protocolar o processo ainda nesta semana por conta do vencimento de um cupom de uma emissão de um Certificado de Crédito Agrícola (CRA), que iria drenar o caixa da empresa, explicou um interlocutor próximo à companhia.
O Pipeline, site de negócios do Valor, informou ontem que a Raízen correu para evitar um desembolso de R$ 1 bilhão que aconteceria na sexta-feira (13), data de pagamento dos juros do (CRA). Como os títulos estão pulverizados no mercado, seria difícil conseguir uma aprovação de “waiver” (perdão) a tempo – e era interesse dos demais credores preservar esse caixa.
A companhia diz já ter anuência de 47% de seus credores. Agora terá prazo de 90 dias para chegar aos 50%. Nesse período, as dívidas são congeladas e a empresa ganha tempo para sentar na mesa com seus principais credores para se alcançar um consenso.
A adesão é alta, mas a negociação com os credores ainda é incipiente, conforme interlocutores próximos às negociações. Isso porque os credores vão pressionar por uma injeção de capital mais robusta e esse deve ser um ponto central nas conversas nas próximas semanas.
Na semana passada, a Shell se comprometeu com aporte de R$ 3,5 bilhões e Rubens Ometto, por meio da Aguassanta, sua holding familiar, outros R$ 500 milhões. A Cosan ficaria de fora. Em comunicado ao mercado, a Cosan informou ontem que o pedido de recuperação extrajudicial tem caráter “exclusivamente financeiro sobre as obrigações financeiras de controlada e não geram efeitos sobre a companhia”.
O plano de recuperação extrajudicial revela ainda a intenção de emissão de nova dívida, de forma a substituir as atuais que estão nas mãos dos credores. A companhia é assessorada pelos escritórios Pinheiro Neto, TWK e E. Munhoz e o banco Rothschild.
Em teleconferência na terça-feira (11) para divulgação dos resultados, a Cosan tinha falado que o aporte de R$ 4 bilhões não resolveria de forma definitiva o problema da Raízen. Desde 2025, o BTG Pactual e a Perfin são sócias do conglomerado de Ometto. A Cosan estaria negociando com a Shell um aporte de terceiros, mas teria esbarrado na resistência da sócia.
Os acionistas da Raízen discutem a reestruturação da empresa desde o ano passado, período em que a companhia colocou uma série de ativos à venda. O próximo negócio a ser vendido é a refinaria da companhia na Argentina.
Fonte: Valor Econômico
