O movimento de valorização do câmbio brasileiro neste começo de ano é uma extensão da dinâmica observada no ano passado, de dólar globalmente mais fraco, com o adicional de um suporte dos fundamentos do real. O enfraquecimento da moeda americana deve continuar e pode dar margem para o real se beneficiar ainda mais. Está é a leitura do chefe de macroeconomia da Vinci Compass, José Carlos Carvalho.
“Quando o dólar começa a cair, o comportamento automático das pessoas é buscar uma justificativa no ambiente doméstico para explicar o movimento. Mas a dinâmica atual não está circunscrita ao Brasil. Vemos isso em todos os mercados globais, e o denominador comum é o dólar enfraquecido”, diz o executivo.
“A explicação para esse movimento global não está em questões pontuais, como a disputa pela Groenlândia. Isso tem efeito [nos preços], mas mais no curto prazo. A meu ver, o dólar mais fraco é resultado de um desejo antigo de Donald Trump, que é levar a indústria de volta aos Estados Unidos. É um desejo que já fez o dólar cair no ano passado e deve continuar estendendo por mais um tempo”, observa.
Carvalho avalia que o dólar mais fraco é um incentivo para que os americanos voltem a fortalecer sua indústria local, uma vez que a moeda mais fraca globalmente melhora a competitividade dos EUA. “Outros presidentes antes de Trump fizeram isso, como o Richard Nixon e o Ronald Reagan”, afirma.
Para o executivo da Vinci, o caminho seguido por Trump para enfraquecer a moeda se dá, principalmente, por meio da queda dos juros — daí sua pressão sobre o Federal Reserve (Fed) para a redução da taxa dos fed funds. “Desde que o Trump iniciou seu [atual] mandato, ele vem forçando a mão para derrubar os juros. Não acredito que o Fed venha a cortar as taxas amanhã, mas essa formação do banco central americano já não é tão importante, dado que o [atual presidente] Jerome Powell vai sair em maio”, diz.
“O presidente dos EUA vem entrevistando pessoas para a vaga e tem indicado que quer alguém com perfil mais ‘dovish’ [favorável a corte de juros]. Não está certo que isso vá ocorrer, mas a pressão existe.”
Carvalho analisa a postura de Stephen Miran, indicado de Trump a uma vaga na diretoria do Fed, cujo mandato termina neste mês. “Nas projeções trimestrais, tudo indica que Miran estima que os fed funds terminem o ano entre 2% e 2,5%. Não quero dizer que isso vá se concretizar, mas nos dá um direcionamento e ilustra o grau de poder que Trump tem tanto na queda das taxas quanto no enfraquecimento do dólar.”
Outros comportamentos de Trump, como embates geopolíticos, não seriam, na leitura do executivo, um caminho feito à risca para que o dólar enfraquecesse globalmente. “De fato, estamos vendo o ouro e a prata se fortalecerem, enquanto há um distanciamento do dólar como ativo de segurança, mas não acho que seja de caso pensado. Isso me parece ser só um efeito ao qual Trump não se importa.”
Ainda em relação ao ambiente externo, Carvalho nota que a intervenção coordenada entre EUA e Japão para enfraquecer o dólar contra o iene pode vir a reforçar a tendência do movimento global da moeda americana. “Quando olhamos para o movimento global do dólar, observamos o movimento do índice DXY, que é composto por seis moedas — entre elas, o iene”, diz. “Se o dólar americano já estava ficando fraco quando o iene também estava desvalorizado, agora que a moeda japonesa ficou mais forte, a tendência é que a moeda americana continue caindo. Ou seja, mais um vento favorável no exterior à história do dólar em queda.”
Para além de um cenário externo favorável, Carvalho avalia que os fundamentos do real também beneficiam o câmbio doméstico, em especial se observado a conta de capital (com entrada de recursos para renda fixa e variável) e a balança comercial. “Como o dólar está ficando fraco, o investidor está buscando alternativas de investimento [que não as ações de empresas americanas]”, diz. “Além disso, o dólar mais fraco fortalece o preço de commodities. Com quase todos os preços de commodities em alta, países exportadores desses produtos se beneficiam, por isso o Brasil tende a ser um grande beneficiário”, enfatiza.
Além dos preços, o volume de exportação do Brasil também chama atenção. “A balança comercial está positiva, com as exportações batendo novo recorde, no acumulado de 12 meses. Havia toda uma preocupação com as tarifas de Trump, mas aparentemente isso não impactou nossas vendas para fora”, diz. “Então, o real não se valoriza só pelo dólar, mas por seus fundamentos”, complementa.
Carvalho lembra, ainda, que os mercados emergentes ficaram esquecidos por alguns anos, o que fez com que os preços dos ativos desses países se achatassem. “Os mercados emergentes ainda estão baratos em relação aos desenvolvidos. Pode ter uma oportunidade boa nisso”, diz.
Em relação ao cenário eleitoral, Carvalho diz ver uma oscilação mais contida até o começo de abril, quando os principais nomes terão que deixar seus cargos para se candidatar às cadeiras dos governos federal e estadual. “A partir de então é que vamos ver quem tende a aumentar ou reduzir o prêmio de risco que há nos mercados em relação à questão fiscal”, afirma.
“Hoje não temos nada oficialmente declarado. Imaginamos que seja o presidente Lula e algum oponente da direita. Por enquanto, a visão que o mercado tem é a de que o Lula se traduz em mais risco para os ativos por conta de como fez a gestão da dívida até agora e pelo seu interesse em sempre colocar algo fora do teto de gastos”, observa o executivo.
Para ele, enquanto não houver uma sinalização de um endereçamento por parte dos candidatos à questão fiscal será improvável um corte de juros mais intenso. “O mercado precifica uma queda tão pequena porque entende que há um risco fiscal no radar. A curva de juros está em 12%, ainda longe de chegarmos no juro real neutro. É como se o mercado cobrasse 3 pontos percentuais por essa incerteza.”
Fonte: Valor Econômico

