Por Alex Ribeiro — De São Paulo
19/04/2023 05h00 Atualizado há 4 horas
A queda da inflação de volta para as metas deverá exigir mais do que o aperto monetário feito pelo Banco Central: dependerá de ajustes mais gerais na direção da política econômica, em particular na área fiscal, e de perseverar por um período longo de tempo, provavelmente com altos custos para a economia real.
Esse é o alerta de dois ex-diretores do Banco Central, Carlos Viana de Carvalho e Fernanda Nechio, em um estudo apresentado num seminário recente da Brookings Institution, um centro de estudos de Washington.
Eles examinaram os dois últimos episódios brasileiros de desinflação, no primeiro mandato de Lula e no governo Temer, para extrair lições para países que vivem mazelas semelhantes. Em ambos, houve grandes preocupações com o desarranjo da política fiscal, e as expectativas de inflação se desancoraram. Outro traço em comum é que o preço pago para desinflacionar a economia incluiu recessões.
“O Brasil oferece um laboratório para estudar desinflações dentro do arcabouço de metas de inflação”, disse Nechio, ex-diretora de assuntos internacionais do Banco Central e hoje vice-presidente no Departamento de Pesquisa Econômica do Federal Reserve (Fed) de São Francisco.
Nas economias avançadas, os bancos centrais subiram os juros de forma acelerada, e o debate agora entre os especialistas é sobre o preço que será preciso pagar para baixar a inflação para as metas. Mas, por lá, o material para análise não é tão abundante quanto no Brasil. Países como os Estados Unidos experimentaram um longo período de inflação sob controle, conhecido como “Grande Moderação”.
“A maior parte das estimativas sobre os custos da desinflação é de períodos anteriores à adoção dos modernos regimes de metas de inflação”, dizem os economistas no estudo “Challenges to disinflation: the Brazilian experience” (Desafios à desinflação: a experiência brasileira, numa tradução livre). Viana de Carvalho foi diretor de política econômica do BC, e atualmente é sócio da Kapitalo Investimentos.
O primeiro surto inflacionário, iniciado em 2002, foi causado pelas incertezas sobre o que seria um governo Lula em aspectos caros para o mercado financeiro, como o equilíbrio das contas públicas e o respeito aos contratos. A inflação atingiu elevados 12,5%, bem acima do teto original da meta, de 5,5%.
O Banco Central subiu os juros a 26,5% ao ano, e foi preciso muito esforço: levou cerca de cinco anos para as expectativas se reancorarem na meta, e a política monetária recebeu o apoio de um ajuste fiscal. Ainda assim, a economia teve que passar por uma recessão, embora mais breve, com duração de dois trimestres.
No segundo episódio, no governo Dilma, a inflação chegou a 10,7%, e a taxa Selic subiu a 14,25% ao ano, em meio a uma política fiscal e de crédito nos bancos públicos insustentável. Foram cinco anos de desancoragem das expectativas de inflação, que foi vencida apenas no governo Temer, com o custo de uma forte recessão, após o início de consolidação fiscal e a adoção de uma agenda de reformas.
Os dois episódios têm traços em comum com a situação atual, dizem os dois ex-diretores do BC. Um deles é a desancoragem das expectativas de inflação, inicialmente provocada por incertezas fiscais no governo Bolsonaro, que, mais tarde, juntaram-se a dúvidas sobre a manutenção da autonomia do BC e sobre mudanças na meta de inflação.
O Banco Central subiu bastante os juros, de 2% ao ano para 13,75% ao ano. Mas a política monetária ainda não recebeu, de forma convincente, o apoio do restante da política econômica, como ocorreu em episódios passados. No estudo, os economistas mostram como as dúvidas sobre a trajetória fiscal estão contaminando, de forma mais intensa, as expectativas de inflação. Tecnicamente, tem aumentado a correlação entre a trajetória esperada para a dívida pública nos próximos anos e as expectativas de inflação. Assim, quando a trajetória esperada para a dívida pública piora, as expectativas de inflação pioram proporcionalmente mais.
Destacado para fazer comentários, o economista Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, lembrou que o caminho não é fácil, devido ao histórico brasileiro de alta inflação, dúvidas sobre a independência do BC e a problemas fiscais. Para ilustrar, ele pontuou que, depois da pandemia, a inflação alta corroeu uma boa parte da dívida pública. “Com essa experiência, não é fácil reancorar as expectativas.”
Fonte: Valor Econômico
