Por Adriana Cotias — De São Paulo
15/08/2022 05h03 Atualizado há 49 minutos
A derrubada da inflação, mesmo que por decreto, e a percepção de que o Banco Central (BC) encerrou – ou está muito próximo de terminar – o ciclo de aumento de juros disparou uma corrida para ativos de risco nos últimos dias. Na renda fixa, essa procura diminuiu as taxas dos títulos públicos prefixados e indexados à inflação, enquanto na bolsa o Ibovespa marcou uma sequência de pregões positivos.
Mas será que essa lua-de-mel dos investidores vai resistir a uma disputa eleitoral que mal começou? E o apreço pelo chamado “kit Brasil” – com valorização das ações e do real e queda dos juros futuros – vai durar diante do processo de ajuste monetário nas economias desenvolvidas? Há quem considere que ainda não é o momento de aumentar o risco da carteira, já que há uma série de desdobramentos, locais e externos, à frente para se ter mais visibilidade do cenário de investimentos. Outros acham que já é hora de compor a carteira com alguma pimenta para além da renda fixa mais básica, atrelada a juros pós-fixados.
No Tesouro Direto, os prêmios do Tesouro IPCA+, que no fim de julho estavam na casa dos 6,2% nos diversos vencimentos, na sexta eram negociados com taxas de 5,55% para os papéis com resgate em 2026, e de 5,89% para os de 2035 e 2045. Os prefixados, com resgate em 2025 e 2029, que chegaram a exibir taxas superiores a 13%, cederam para 11,97% e 12,11%, respectivamente.
O Ibovespa recuperou os níveis de fins de abril e na sexta fechou acima dos 112 mil pontos, com alta de 9,31% no mês, voltando a ficar no azul no acumulado do ano.
Com incertezas não desprezíveis adiante que podem trazer volatilidade, não é ainda o momento de se aumentar o risco da carteira, segundo Álvaro Frasson, economista do BTG Pactual. Ele cita que a economia americana segue aquecida, com o desemprego em baixos níveis, salários elevados e o valor dos imóveis alto, apesar do recuo recente, o que pressupõe a continuidade das pressões inflacionárias. “Não são favas contadas que o pior já passou”, afirma.
Pelas estimativas do especialista, os juros nos EUA ao fim do ciclo de aperto monetário devem estar mais para os 4% do que os 2,7%, 2,8% embutidos nas taxas futuras para 2023. “Quando corrigir, tem um risco de realização [de vendas] no S&P 500”, diz Frasson.
Fazendo um paralelo com o Brasil, ele diz que são raros os períodos em que o Ibovespa consegue ir bem a despeito dos tombos das bolsas americanas. “Teria que ter algum evento local muito bacana para o Brasil passar por um rali diferente. Não parece o caso.”
Frasson avalia que o ambiente local é de muita oscilação porque medidas fiscais recentes jogam dinheiro na economia, ajudam no crescimento de curto prazo, mas fragilizam as contas públicas para o ano que vem. As possíveis flexibilizações no orçamento dificilmente vão acomodar “tantos desejos” no teto de gastos. “Na medida em que nada é muito claro, o ativo de risco tende a andar de lado, com volatilidade, não parece haver uma tendência de grande apreciação.”
Isso não quer dizer que não tenha pechinchas na bolsa. Basta olhar o EWZ, o ETF que replica o Ibovespa em dólar, ou múltiplos como o preço/lucro (P/L, que dá uma ideia do prazo de retorno do capital), na sua mínima histórica. “Mas não necessariamente o investidor deve aumentar muito a exposição amanhã. O mais recomendável é fazer aos poucos e diversificar em renda fixa e variável”, diz Frasson. Ele acrescenta que todas as classes apresentam oportunidades e que, mesmo com a redução das taxas futuras, nominais e reais, nas últimas semanas, os prêmios dos títulos públicos estão muito atrativos quando comparados à série histórica de cinco, dez anos.
A recente valorização do kit Brasil reflete a tendência a comportamentos extremos dos investidores, que no fim do ano passado ignoraram a necessidade de um ajuste monetário duro pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), no início de 2022 caíram na real e entraram no modo aversão a risco, e depois passaram por certa acomodação, descreve Marcelo Mattos, executivo-chefe de investimentos da Inter Asset. “Nas crises, quando há quedas fortes é normal ver alguns ralis. Não é fácil cravar se esse momento [de aversão] acabou, tem muita informação para vir e o principal desafio é o combate à inflação.”
O executivo afirma que uma coisa é trazer a inflação americana de 9% para 6%, outro desafio é de 6% para 4% e de 4% para 2%. Para Mattos, não dá para dizer ainda que o pico de alta de preços nos EUA já foi atingido, pois falta ver ajustes mais significativos em moradias, saúde, salários e nos serviços em geral. O alívio nas cotações de commodities, com o restabelecimento de alguma normalidade às cadeias de produção, é de curta duração a seu ver, porque a transição energética tirou investimentos estruturais do setor.
“Os preços no mercado não parecem refletir completamente o novo patamar de juros e de custos em dólar, e isso vale para as empresas do mundo inteiro”, destaca Mattos. Gastos maiores com energia ainda não apareceram nos balanços das companhias e tal impacto deve ser melhor percebido nas demonstrações financeiras do terceiro trimestre, diz. Além disso, o Fed dobra o ritmo de redução do seu balanço, retirando mais liquidez da economia, em setembro.
Ponderando isso tudo, Mattos entende que alterar a disposição à tomada de risco e modificar totalmente o portfólio por causa dos ciclos de política monetária e de mercado é um erro, porque praticamente ninguém consegue capturar os sinais de mudança com precisão. “A chance de fazer um movimento tardio é muito alta, o investidor deve evitar os extremos e sempre pensar a alocação no longo prazo. Pode manter reservas para aumentar bolsa nos momentos de baixa, por exemplo.”
Nos fundos de gestão própria da Inter Asset, o mantra é o da sobrevivência e, por isso, a carteira está mais direcionada a estratégias ligadas a juro real de curto e médio prazos. Em ações, mantém uma exposição neutra, em linha com o peso de mercado. “A gente não acha que a bolsa esteja cara, longe disso, os múltiplos chamam a atenção, mas depende dos juros [mais baixos] para andar.”
Há cerca de quatro meses, os gestores do multi family office Vita Investimentos recomendaram adicionar ativamente risco às carteiras dos seus clientes e isso não mudou quando os preços pioraram, ou agora, com a valorização, diz o sócio Arthur Mello, co-executivo-chefe de investimentos. As Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-Bs), com resgate em 2026 e 2028, foram o cavalo que vem apostando pensando em risco e retorno, independentemente do perfil. “Tudo que a gente fez ao longo dos últimos dois meses, em duas semanas deu um bom lucro.”
O especialista diz que os preços estão mais ou menos nos mesmos patamares de quando começou a incrementar os portfólios com ativos mais voláteis. “Isso mostra a importância de fazer o movimento paulatinamente, para não correr o risco de um dia, de uma semana, porque sabe que nunca vai acertar o momento da virada ou o ponto mais baixo do mercado”, diz Mello. Ações, na visão do especialista, ainda são um terreno movediço, há muita volatilidade pela frente e a preferência é por juro real.
Ricardo Sommer, diretor de gestão da Sicredi Asset, diz ver como natural a valorização dos títulos indexados à inflação num momento em que o processo de aperto monetário está chegando ao fim, mas reconhece que foi mais forte do que previa. “A gente calcula que a taxa de juros neutra está em torno de 4%, 4,5%, então o prêmio das NTN-Bs ainda tem suco para tirar”, diz. “Mas é normal que tenha essa gordura com a incerteza que se vive por ser ano eleitoral, ainda a ver quando isso vai se acomodar.” O executivo considera precoce a exposição em títulos prefixados por causa da incerteza fiscal. “Um país com dívida interna alta paga a dívida com inflação.”
Dentro da gestora, a perspectiva para a inflação já era mais baixa do que o consenso de mercado, trabalhando com um IPCA em 6,8% para 2022 e em 5,1% para o ano que vem. Sommer acha que o BC pode começar a discutir um ciclo de corte de juros a partir do segundo trimestre de 2023. Ele considera que o mais provável é a Selic ficar nos 13,75% ao ano do último ajuste do Comitê de Política Monetária (Copom), que deixou apenas uma “fresta aberta” para uma alta adicional.
Para atravessar a fase de incertezas, Sommer diz haver bons multimercados que conseguem se adaptar ao cenário mais rapidamente do que o investidor sozinho. Em crédito privado, avalia que tem mais escassez de ativos, mas ainda com prêmio na margem. E vê também oportunidades na bolsa, considera que vale ter uma carteira de ações, buscar companhias mais capitalizadas, não ficar exposto apenas aos índices.
Fonte: Valor Econômico

