Especialistas têm convocado as empresas a participar dos esforços para reverter a situação
Por Rafael Vazquez — De São Paulo
18/10/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
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Luana Araujo: empresas devem ajudar mais ativamente nas políticas de saúde — Foto: Divulgação
A baixa cobertura vacinal no Brasil atualmente virou motivo de preocupação onipresente na comunidade médica e científica, que alerta que o cenário pode ir além da saúde e causar impactos econômicos. Até por isso, especialistas têm convocado as empresas a participar dos esforços para reverter a situação.
“A questão é dramática porque perdemos em todos os sentidos. A vacina da gripe, por exemplo, atua fundamentalmente na economicidade. Quanto mais saúde, menos abstenção no trabalho”, explicou o médico infectologista e secretário de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde do Estado de São Paulo, David Uip, que participou ontem do seminário “O Futuro da Saúde no Brasil”, organizado ontem, no Dia da Vacinação, pelo Lide, organização que reúne líderes empresariais de todo o país. “Sem falar nos casos de doenças preveníveis por vacinas que acabam levando jovens produtivos à morte”, acrescentou o especialista.
A taxa de vacinação no país, que era de 95% em 2015, hoje é de 40%, segundo o DataSUS (dados oficiais do governo).
Para a médica infectologista do Hospital Israelita Albert Einstein Luana Araujo, a saúde moderna ainda precisa evoluir na adoção de ferramentas capazes de mensurar o impacto que doenças e adoecimentos causam na economia como um todo, inclusive para que os investimentos no sistema sejam mais assertivos. Contudo, ela disse que já há avanços nesse sentido. Também defendeu que as empresas ajudem mais ativamente nas políticas de saúde, principalmente nas ações de prevenção, como a vacinação.
“Os empresários precisam entender que eles são gestores de microssistemas de saúde. Não são bolhas ou desprovidos de responsabilidade em saúde pública. A boa notícia é que muitos já entenderam, visto que os programas de saúde corporativa têm crescido muito”, disse a médica do Albert Einstein.
“As pessoas passam um terço do dia trabalhando. Portanto, a cultura da saúde precisa entrar nas empresas. Saúde pública não é governamental, é saúde do povo. E todos os atores que pertencem a esse universo precisam estar em consonância”, adicionou Araujo, apontando que a tendência é de que cresça a integração entre entes públicos e privados para atingir metas coletivas de saúde tanto em vacinação quanto em outras áreas.
Há ainda a preocupação de que doenças como poliomielite e sarampo retornem a infectar brasileiros e afetem a capacidade de atendimento do Sistema Único de Saúde. “A partir do momento em que você tem pessoas comprometidas por doenças que poderiam ser prevenidas por vacinação, isso aumenta a internação hospitalar e a mortalidade. Sem falar nas sequelas que impactam muito o serviço de saúde do ponto de vista econômico”, comentou o secretário de Saúde do Estado de São Paulo, Jean Gorinchteyn.
Para ele, a proposta de reunir empresários para ouvirem um painel chamado “vacinas salvam vidas” contribui para conscientizar lideranças importantes do país e as estimula a se somar ao objetivo de recuperar as taxas de vacinação do Brasil, que antes costumava estar acima dos 90%.
“O empresariado está consciente e vem à procura de trazer soluções para os problemas. Esse é o momento que temos a possibilidade de rediscutir de forma conjunta as estratégias a serem tomadas para a saúde no nosso país”, declarou Gorinchteyn.
Na mesma linha, o ex-governador de São Paulo João Doria, fundador do Lide, lamentou que a baixa cobertura vacinal tenha se tornado uma preocupação para a dinâmica da economia. “Seja quem for o futuro presidente do Brasil, não podemos ter mais a repetição de fatos como os que aconteceram no início da pandemia, quando o negacionismo a falta de cuidado com as pessoas, as recomendações equivocadas de tratamento com cloroquina e a falta de equipamentos prejudicaram a população”, disse, cutucando o presidente Jair Bolsonaro.
Na pandemia, Doria rivalizou com o presidente da República assumindo o discurso pró-vacina e foi aplaudido no evento por ter liderado a corrida pela chegada do imunizante ao país, o que incentivou o governo federal a não ficar à sombra do então governador paulista e postulante à campanha presidencial pelo PSDB.
No fim do seminário, em apresentação ao público, o ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) Dirceu Barbano defendeu a construção de um ambiente mais propício para mostrar à população a vantagem da vacinação. “Não dá para dizer que vamos exterminar os movimentos antivacina. Mas é possível mostrar o quanto é perverso ter a tecnologia que a ciência já conseguiu para prevenir doenças e termos algumas pessoas duvidando de que sejam úteis ou possam fazer bem coletivamente”, concluiu.
Fonte: Valor Econômico