Por Renato Jerusalmi
25/11/2022 05h01 Atualizado
Como será Lula no próximo mandato é a pergunta mais importante do momento. Ao compararmos o ambiente macroeconômico entre 2003 e 2010 com o atual, podemos observar diferenças importantes que nortearão o próximo governo.
O boom de commodities nos primeiros dois mandatos do Lula favoreceu tremendamente o Brasil, possibilitando superávit comercial acima de 2% do PIB em todos os anos do período e uma apreciação do real frente ao dólar de R$ 3,50 para R$ 1,66. Para os próximos quatro anos podemos esperar em algum momento uma recessão global e, como consequência, uma possível desvalorização das commodities.
A globalização e o aumento do comércio internacional colaboraram para uma desinflação nas principais economias. Grande parte da produção da manufatura mundial foi exportada para a China, que, com custos de produção menores, permitiu uma inflação baixa mesmo em um ambiente de crescimento pujante. Entre 2002 e 2020, a inflação média americana foi de 2,0% ao ano, com um crescimento médio do PIB de 3,7% ao ano. Porém, após a guerra na Ucrânia e o covid, podemos esperar uma reversão dessa tendência por motivos geopolíticos, que incentivam uma menor dependência internacional de insumos estratégicos. Portanto, devemos esperar um ambiente inflacionário menos favorável.
O tripé macroeconômico de câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário iniciado por FHC e mantido por Lula exerceu seu poder virtuoso e trouxe credibilidade suficiente para que o Brasil recebesse vultosos investimentos privados. De 2003 a 2010, o investimento direto no país saiu de US$ 10 bilhões para US$ 82 bilhões, o que retroalimentou o ciclo e, como consequência, vimos crescimento médio do PIB de 4% ao ano, uma redução da dívida/PIB de 77% para 62% e a queda do CDS Brasil de 2 mil pontos para 100 pontos.
Em 2023, Lula enfrentará um cenário macro mais desafiador, um mundo com inflação alta, monetariamente contracionista e com maior dificuldade de crescer. Com uma dívida/PIB perto de 80%, um déficit fiscal contratado e um juro real cerca de 6%, a trajetória da dívida pública é insustentável. Todos sabem o que deve ser feito: uma reforma administrativa suficientemente grande para atender aumentos de programas sociais, uma reforma tributária para retirar ineficiências da cadeia produtiva e desonerações injustificadas, e a continuação de reformas microeconômicas e privatizações que aumentem o investimento privado. Porém, os sinais do governo eleito vão na direção oposta.
O mercado de capitais brasileiro cresceu muito nesses 20 anos: ativos sob gestão por fundos de investimento subiram de R$ 0,5 trilhão para R$ 7,5 trilhões, 249 empresas abriram capital, o “market cap” do Ibovespa saiu de R$ 0,3 trilhão para R$ 3,4 trilhões, o volume anual de emissão de debêntures aumentou de R$ 20 bilhões para R$ 250 bilhões e o número de investidores pessoa física na B3 saiu de 85 mil para 4,5 milhões. Na medida em que o novo governo sinaliza movimentos retrógrados como descompromisso fiscal ou interferência nas estatais, o mercado responde duramente com a desvalorização dos ativos.
O mercado hoje tem uma função colaborativa de pressionar governantes, através da variação de preços, no caminho de soluções mais equilibradas. Recentemente, um exemplo emblemático aconteceu na Inglaterra, em que uma proposta de redução de impostos e subsídios de energia financiada com o aumento do endividamento público provocou forte reação na moeda e juros, culminando na desistência do pleito e renúncia da primeira-ministra Liz Truss.
A “PEC da Transição”, ou “PEC da Gastança”, é temerária e, se aprovada como proposta, representará um retrocesso. Quando o mercado de juros abre 250 pontos-base, seu recado para os políticos é que o custo de juros para o país subirá na ordem de R$ 145 bilhões ao ano. Se multiplicarmos pelo prazo médio da dívida e somarmos a queda da capitalização do Ibovespa, chegamos a uma destruição de valor perto de R$ 1 trilhão. Portanto, o impacto de uma irresponsabilidade fiscal no custo da dívida pública e na queda de investimentos pelo setor privado é muito maior que o aumento desejado do Bolsa Família, estimado em R$ 50 bilhões por ano.
Neste contexto, a resposta de como será o Lula do próximo mandato depende de como o Congresso atuará na defesa de propostas irresponsáveis. As defesas são como nosso sistema imunológico, podem vir de vários lados e podem ter vários agentes: o mercado financeiro, empresários, economistas renomados, representantes políticos e a própria sociedade. Como existe pouco espaço fiscal para aventuras, acreditamos que essas forças de defesa farão os políticos se reequilibrarem. Relembremos que temos agora um BC independente e que será forçado a subir juro no pior cenário. O juro futuro precificado a 15% ao ano inviabiliza grande parte dos investimentos na economia real.
Os políticos afetam os preços, e os preços mudam os políticos. Enquanto o organismo luta contra a doença da irresponsabilidade fiscal, é de se esperar muita volatilidade.
Fonte: Valor Econômico
