Por Alessandra Saraiva — Do Rio
18/05/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
Impulsionada por boa performance da atividade de serviços, a economia brasileira teria crescido 1,5% no primeiro trimestre, ante quarto trimestre de 2021, de acordo com leitura do Monitor do PIB, indicador da Fundação Getulio Vargas (FGV).
A alta é a maior desde o quarto trimestre de 2020 (3,2%) na comparação com os três meses imediatamente anteriores. O setor de serviços subiu 0,8% ante os últimos três meses do ano passado, melhor taxa nessa comparação desde terceiro trimestre de 2021 (1,3%).
Mas, para Claudio Considera, economista da FGV responsável pelo indicador, os bons resultados do levantamento devem ser vistos com cautela. A economia de serviços opera um momento de forte retomada, após sofrer sucessivos prejuízos nos últimos dois anos de pandemia, notou ele.
Assim, no entendimento do técnico, a sustentabilidade do ritmo de alta na economia nos próximos meses dependerá do “fôlego” da atual retomada de serviços. “O desempenho do PIB continua dependente de serviços, que representam em torno de 73% da economia”, resumiu.
Ao comentar sobre o ritmo da economia ao término do primeiro trimestre, Considera notou que em março, de certa forma, ocorreu o começo do “fim do distanciamento social”. Desde março de 2020, quando a pandemia começou, Estados e municípios lançaram restrições de atividades e de circulação social, para prevenir contágio por covid-19. Isso gero duro impacto em serviços como viagens, hotéis e restaurantes naquele ano e em 2021.
Segundo ele, março sinalizou que a necessidade de distanciamento social, mesmo com a pandemia ainda em vigor, já não inibe consumo de serviços. Isso é perceptível na evolução mensal do Monitor do PIB. No indicador, a economia teria crescido 1,8% em março ante fevereiro, com serviços avançando 1%, nessa comparação.
Outro aspecto lembrado pelo técnico é que ocorreram notícias de rendas extras ao para o consumidor. Além do Auxílio Brasil (ajuda emergencial do governo) a União também autorizou saque de FGTS e antecipação de 13º salário a aposentados. “Isso conferiu também renda extra [para consumir serviços]”, afirmou.
No entanto, para os próximos meses, outros fatores devem ser levados em consideração para mensurar tanto continuidade de alta de demanda por serviços, como do PIB como um todo, afirmou Considera. Uma delas é a continuidade do avanço da inflação, que não dá sinais de arrefecimento para o futuro. “Temos hoje uma inflação que está ‘comendo’ a renda familiar. Sim, o consumo das famílias está crescendo [até março no Monitor do PIB] mas até quando pode aguentar isso?” questionou. No indicador da FGV, o consumo das famílias apresenta altas, idênticas, de 1,5% em março ante fevereiro; e no primeiro trimestre de 2022 ante quarto trimestre de 2021.
Ao mesmo tempo, outros componentes do PIB importantes para manter economia em alta apresentam saldo negativo até março. O consumo do governo, importante motor de aquecimento da atividade – como lançamento obras -, caiu 0,8% no primeiro trimestre ante quarto trimestre de 2021.
Assim, o economista comentou que o desempenho acima do esperado na atividade do primeiro trimestre pode contribuir para novas revisões para cima, no resultado total da variação do PIB em 2022 ante 2021, mas não há garantias de um crescimento econômico sustentável em horizonte de longo prazo. Isso porque, frisou ele, em algum momento o ritmo em alta da atual retomada de serviços se esgotará e, quando isso ocorrer, terá influência no resultado do PIB como um todo, dado o peso do setor na economia, explicou ele.
Fonte: Valor Econômico

