WASHINGTON – O Brasil chegou ao limite de gastos e não tem espaço para promover nova expansão fiscal no ano que vem, quando ocorre a corrida ao Planalto, alerta a chefe de Pesquisa Econômica para a América Latina e economista-chefe para Brasil no JP Morgan, Cassiana Fernandez. O grande risco é o brasileiro perder a confiança de que o governo será capaz de honrar sua dívida; se isso ocorrer, abre-se a porta para a fuga de investimentos do País.
“Sabemos que caminhamos para o muro. Vamos esperar bater nele ou mudar a rota antes?”, questiona Fernandez, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast, às margens das reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI), realizadas em Washington, nos Estados Unidos, na semana passada.
De acordo com a economista, os ativos de maior potencial de valorização nos próximos meses, na visão dos investidores, são o ouro e as ações de companhias americanas. Há menos preocupação com uma eventual bolha causada pela euforia com a inteligência artificial (IA), mas, diante da demanda crescente por ouro e do potencial de valorização à frente, é difícil imaginar que os investidores estejam “tão otimistas”. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Como está o sentimento do investidor na atual conjuntura global?
No evento de abril, logo após o Liberation Day (2 de abril, data do anúncio das tarifas recíprocas para produtos importados pelos EUA anunciadas por Trump), havia maior preocupação com os impactos das tarifas. Desde então, houve uma mudança, e os investidores estão menos receosos por causa dos acordos fechados e do risco de recessão global. A apreensão voltou um pouco, principalmente agora, em razão de Estados Unidos e China, e um grande tema é como a Suprema Corte vai se posicionar, além da reação dos EUA. Na margem, os investidores estão mais preocupados porque a inflação continua alta, principalmente nos Estados Unidos e em outros países. De modo geral, os bancos centrais têm sido mais cautelosos na América Latina.
E quanto à inteligência artificial (IA)?
A percepção é de que a IA provocará uma mudança estrutural muito relevante, mas a verdade é que ninguém consegue quantificar o tamanho do impacto nem quando começará a ser sentido. Há grande demanda de investimento por parte do setor privado, e sabemos que isso também gerará forte demanda por energia. Assim, começamos a discutir quem serão os ganhadores e os perdedores nessa nova dinâmica.
Há temor de uma bolha na IA? Têm crescido alertas quanto aos elevados valuations dos ativos nos EUA…
Investidores estão muito menos preocupados com a bolha, e o viés geral ainda é muito construtivo em relação aos impactos da inteligência artificial. A dúvida é como a tecnologia afetará produtividade, variáveis macroeconômicas, inflação e consumo de energia. Questionados sobre quais ativos têm maior chance de valorização nos próximos meses, os investidores apontam ouro e ações americanas.
Mas a própria demanda pelo ouro aciona o botão de alerta…
Se a principal aposta do mercado é ouro, é difícil imaginar que também os investidores estão tão otimistas assim, porque é um ativo conservador. A oferta limitada reforça a percepção de risco, mais do que um medo exagerado da inflação. Jamie Dimon avalia que o metal pode chegar a US$ 5 mil ou até US$ 10 mil, o que indica que ainda há espaço para valorização.
Qual é a visão dos investidores com os EUA e as políticas de Donald Trump?
Temos feito revisões consistentes para cima na projeção de crescimento dos EUA. Há a percepção de que o ritmo está mais forte e resiliente, e o balanço do setor privado, em média, ainda não preocupa. Os investidores estão mais preocupados com o risco de uma reaceleração da atividade econômica gerar pressão inflacionária do que com uma desaceleração mais rápida. Outra mudança ocorreu na percepção dos investidores em relação à Europa. Nas reuniões de abril, o otimismo era bem maior após o anúncio de expansão fiscal. Agora, eles se mostram um pouco mais céticos diante de questões como o potencial de gasto e as implicações para o crescimento, além de problemas estruturais, como a regulação. Hoje, a visão é muito construtiva para os EUA e menos construtiva para a Europa.
Mas e a preocupação em relação ao efeito das tarifas na inflação?
A preocupação agora é descobrir qual será o novo equilíbrio. Onde essa questão das tarifas vai parar? Qual será a média? Esperamos que a tarifa média de importação dos EUA termine o mandato (de Trump) perto de 20% ante 1,4% em 2017, e 2,3% em 2024, impacto que ainda deve aparecer nos preços. Falta, porém, convicção sobre como isso se dará, sobretudo pelas restrições internas dos EUA e pela decisão da Suprema Corte sobre a adoção de tarifa homogênea. O governo Trump já afirmou que não abrirá mão da receita gerada; por isso, pode ter de encontrar outras formas de taxar. Discute-se muito a tarifa setorial, que tende a provocar distorções maiores e aumenta a incerteza quanto ao impacto geral na economia. Hoje, a preocupação é mais com a incerteza do que com a direção.
Qual a visão sobre o dólar?
Ainda há consenso de que o dólar continuará enfraquecendo e que, em cerca de dois meses, deverá estar mais barato em relação a outras moedas. A percepção, porém, é de que a tendência será agora mais lenta. A força da desvalorização da moeda americana tende a diminuir. Ninguém espera uma apreciação, mas o grosso da queda já aconteceu. Isso traz implicações importantes.
Por quê?
Porque para países emergentes que se beneficiaram com moedas mais apreciadas e, portanto, uma desinflação mais rápida, isso também já tem um limite maior. Os investidores ainda têm muito apetite para investir em países emergentes, mas quando perguntamos aos investidores os ativos de maior potencial de valorização nos próximos meses, nem mercado local, nem dívida externa de países emergentes figurou entre os dois primeiros. Foi ouro e ação americana.
Mesmo que haja a vontade para gastar mais em um ano eleitoral, não existe espaço
O FMI publicou um estudo que diz que os países emergentes são beneficiados por boas políticas, mas uma dose de sorte. Qual sua visão sobre o Brasil?
É uma combinação de sorte e boas políticas. Não podemos diminuir a importância da postura conservadora do Banco Central (BC) para a performance da moeda brasileira. Se o BC não tivesse acelerado o ciclo de alta de juros desde o fim do ano passado, e mantido agora um discurso coerente e conservador, provavelmente não teríamos visto um movimento tão forte do real. Cerca de 65% desse resultado foi reflexo do movimento global, e 35%, idiossincrático ao Brasil.
E quanto ao fiscal? O FMI suavizou suas projeções para o Brasil. Por que o estrangeiro tem uma visão menos crítica em relação às contas públicas no País?
O investidor doméstico olha o Brasil de dentro, pensando no filme. O estrangeiro olha mais a fotografia e a comparação com outros países, sendo que vários tiveram uma deterioração da política fiscal. Mesmo dentro da América Latina, em países como México e Colômbia, exceto a Argentina, houve uma tendência de piora na política fiscal e na dinâmica da dívida. O próprio Estados Unidos, com a preocupação das implicações do ‘Big Beautiful Bill’ à trajetória da dívida americana.
No Brasil, economistas alertam para o risco de uma crise fiscal, o debate da dominância fiscal vira e mexe aparece. O que esperar de um ano eleitoral à frente?
A minha visão é até o contrário. O Brasil já chegou ao limite do que conseguiria fazer em relação à expansão fiscal. Por isso, mesmo que haja a vontade para gastar mais em um ano eleitoral, não existe espaço. Os financiadores da dívida pública, que 90% estão dentro do Brasil, têm uma preocupação muito grande e não estão dispostos a aceitar deterioração adicional e, principalmente, mudanças de regras. O que aconteceu no fim do ano passado (no lançamento do pacote fiscal) foi uma lição importante. O grande risco do Brasil hoje é o brasileiro perder a confiança de que o governo vai ser capaz de honrar sua dívida. Porque se isso acontece, naturalmente, corremos o risco de uma saída de recursos do País.
Esse risco aumenta a depender do resultado das eleições?
Vai depender das políticas econômicas propostas na eleição, e o mercado reagirá a elas. Faltam 12 meses para o pleito; ainda não sabemos quem serão os candidatos. Os detentores de títulos da dívida pública devem examinar com cuidado o programa de cada um. É inevitável que o próximo governo promova um ajuste fiscal significativo para estabilizar a dívida. O Brasil não pode continuar financiando um déficit nominal de 9% do Produto Interno Bruto (PIB), estimado para este ano, com uma dívida já perto de 80% do PIB. Quem vencer a eleição terá de realizar o ajuste. Se o governo tiver credibilidade, o custo será menor. Sabemos que caminhamos para o muro. Vamos esperar bater nele ou mudar a rota antes?
A polarização dificulta o ajuste fiscal?
Mesmo com a disposição do governo e da equipe econômica, há dificuldades: todo ajuste fiscal necessário ao Brasil precisa passar pelo Congresso e depende de reformas estruturais. Algumas propostas, portanto, podem ser diluídas. O melhor ajuste seria aquele que desse condições para o Brasil crescer de forma acelerada e sustentável.
Há preocupação quando olhamos o balanço das empresas no Brasil, que já estão em uma situação bem pior do que no início do ano
Nas suas viagens de Nova York a Londres, passando por Washington, qual é a principal preocupação do investidor estrangeiro com o Brasil?
A preocupação é com a dinâmica da dívida pública, um medo recorrente. Apesar do desempenho positivo dos últimos três anos, percebe-se que nosso potencial segue baixo ante outras economias emergentes, o que gera inquietação. A piora do déficit em contas correntes tem aparecido com mais força no radar dos investidores, assim como a questão geopolítica, sobretudo sobre como o Brasil reagirá a tarifas maiores. A dinâmica da inflação no País também causa preocupação, num momento em que chama atenção o conservadorismo do Banco Central, dado o nível da taxa de juros, embora ainda haja desvio grande em relação ao centro da meta de inflação.
O que chamou atenção na comunicação dos diretores do BC durante as reuniões do FMI?
Eles foram muito consistentes com as comunicações oficiais, com a mensagem de que ainda não encontram condições para suavizar o aperto monetário, reforçando a ideia de estabilidade na taxa de juros para mais tempo. Existe um reconhecimento de que a atividade econômica começa a desacelerar, mas, na visão do Banco Central, isso ainda não é suficiente para aliviar as pressões inflacionárias.
O alerta para o risco de crédito privado com recentes casos nos EUA, no Brasil e no mundo também foi destaque nesses encontros. O próprio presidente do JP Morgan, Jamie Dimon, disse que onde há uma barata, há mais. Esse tema preocupa o investidor?
O investidor se preocupa muito mais com o que não conhece e sobre o qual não dispõe de dados e estatísticas. No caso do Brasil — porque, no dos Estados Unidos, não consigo agregar mais valor do que Jamie Dimon —, o nível da taxa de juros segue muito alto. O objetivo de mantê-la em patamar tão restritivo é justamente desaquecer a economia e reduzir as pressões inflacionárias, mas é preciso acompanhar a dosagem do remédio.
O que os balanços corporativos nos dizem?
Há preocupação quando olhamos o balanço das empresas no Brasil, que já estão em uma situação bem pior do que no início do ano. As margens já começam a sofrer mais, e empresas mais alavancadas já enfrentam dificuldades como vimos vários exemplos. Esse é um risco para a economia brasileira, sobretudo em 2026. Se houver um processo eleitoral e um cenário externo que gerem grande volatilidade no mercado, algumas empresas terão mais dificuldade para financiar seus balanços em 2026.
Brasil e EUA têm aprofundado as relações nas últimas semanas. Negociações comerciais são mais promissoras?
O impacto das tarifas sobre a atividade brasileira é pequeno. Minha maior preocupação, quando elas foram anunciadas, era o risco de retaliação do Brasil, que poderia ser muito mais prejudicial ao País. O governo foi pragmático ao não retaliar. Desde o encontro de Lula com Trump durante os eventos da Organização das Nações Unidas (ONU), percebe-se uma desescalada das tensões e alguma iniciativa para retomar o diálogo. Mas ainda estamos em estágio inicial, sem fatos concretos. É algo, sem dúvida, que exige atenção e preocupa.
No último FMI, os argentinos estavam em festa. Qual a percepção hoje, com as eleições de meio mandato batendo à porta?
Existe um grande otimismo em relação à política econômica. Historicamente, é difícil identificar um país que tenha feito um ajuste fiscal e tenha feito um ajuste fiscal tão rápido e mantido esse comprometimento. Mas é fundamental para o governo argentino e para a sobrevivência perseverar tanto em relação à política fiscal, mas também conseguir se mover na direção de reformas estruturais que atraiam o investimento privado. Essa é a grande preocupação de hoje, considerando as eleições desta semana. Se o governo de Javier Milei conseguir assegurar pelo menos controle de um terço do Congresso que evite que os decretos, os vetos presidenciais sejam derrubados, isso daria mais fôlego para continuar perseverando na política de ajuste fiscal.
E em caso negativo?
Vai ser muito mais custoso porque o Congresso pode dificultar o trabalho do governo. O apoio dos Estados Unidos foi fundamental porque a Argentina estava em uma espiral negativa principalmente depois da eleição da província de Buenos Aires em que os investidores começaram a temer a capacidade do governo continuar implementando as políticas que foram anunciadas e entregar os acordos que tinha feito com FMI e outras instituições e atrair investimento privado. É a primeira vez que ocorre uma intervenção direta do Tesouro americano comprando moeda de um país na América Latina, pelo menos nos últimos 30 anos. Mas, agora, está nas mãos dos argentinos.
O que a Argentina precisa fazer para solucionar de vez seus dilemas?
A solução da Argentina passa pela necessidade de atrair o investimento direto de fora. O país precisa atrair dólares para honrar seu endividamento externo. A médio e longo prazo, vai depender da capacidade da Argentina de atrair investidores para aumentar o PIB, o investimento de longo prazo
E a ameaça do Trump de condicionar a ajuda ao resultado das eleições?
A definição de um bom resultado nessas eleições primárias é relativa. É muito difícil o governo ter mais do que 50% do Congresso ou menos de um terço. Isso sim seria visto como uma derrota. Qualquer resultado no meio desses dois pontos vai depender muito da capacidade do Milei de conseguir construir alianças para frente.
Os países da América Latina vão enfrentar eleições nos próximos meses. O estrangeiro tem algum candidato preferido na região?
Por conta da dinâmica eleitoral, investidores estão mais cautelosos com a América Latina do que no ano passado. Eles estão em compasso de espera para saber qual o resultado das eleições. No geral, os investidores têm uma visão mais construtiva para México, talvez, menos de antes de mudar as regras do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês), mas ainda tem muita oportunidade. Um ponto de atenção é que a renegociação do USMCA começa oficialmente em julho do ano que vem. Na Argentina, o otimismo é mais cauteloso. Já o Brasil se destaca pelo nível da taxa de juros, mas o discurso de polarização e a percepção de uma eleição binária afugentam um pouco o investidor.
Fonte: Estadão

