Indústria é uma das mais competitivas do mundo, com a produção de eucaliptos chegando a 36 m3 por hectare
Por Eliane Sobral
31/10/2023 06h01 Atualizado há 4 horas
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A combinação entre qualidade do solo e disponibilidade de área para plantação e investimentos em inovação tecnológica fazem da indústria brasileira de papel e celulose uma das mais competitivas no cenário internacional. Para se ter uma ideia do patamar atual, a produtividade de eucalipto no Brasil era de 10 m3 por hectare plantado na década de 1970. Hoje, colhem-se 36 m3 por hectare desse tipo de madeira por ano. Para efeito de comparação, a China, que ocupa o segundo lugar mais competitivo no ranking global, produz cerca de 25 m3 por hectare plantado, conforme levantamento de 2022 da consultoria Malinovski. No ano passado, a produção brasileira somou 24,9 milhões de toneladas de celulose e outros 11 milhões de toneladas de papel – aumento de 11% e 3,5% em relação ao ano anterior, respectivamente –, segundo a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), associação que representa 58 companhias do setor.
Boa parte dessa performance pode ser creditada ao desenvolvimento de novas técnicas no campo, principalmente ao melhoramento genético das árvores. O processo vem de longa data. Começou há pelo menos 40 anos, de acordo com o diretor de operações florestais da Klabin, Sandro Ávila. “Nas últimas décadas, essa técnica avançou tanto que hoje conseguimos acelerar a produção do pinus em até 15 anos, em vez dos 18 anos normais.”
Ávila diz que o time de cientistas e pesquisadores dedicados ao estudo de inovações aplicadas a toda a cadeia produtiva reúne cerca de 150 profissionais. O principal centro de pesquisa e desenvolvimento da companhia fica na cidade de Telêmaco Borba (PR). Dali saem os estudos que envolvem a cadeia florestal em várias frentes, do melhoramento genético à qualidade da madeira, qualidade do solo, variações climáticas, controle de pragas e inovações na área de biotecnologia.
Segundo o executivo, o viveiro de 40 mil m2 da empresa tem hoje mais de 30 espécies ativas, ou seja, em observação e análise. “Você acompanha o desenvolvimento desses clones e avalia para qual tipo de solo eles são mais indicados, e se são indicados realmente, porque pode-se investir numa espécie geneticamente modificada que não performa. O problema é que para descartar um clone e migrar para outro pode demorar até dez anos”, relata.
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As inovações não se resumem à genética. Já existe até monitoramento remoto de formigueiro e pulverização de defensivos agrícolas por drones, além de colheitadeiras com máquinas especiais para cada tipo de terreno – declive, aclive e outros acidentes geográficos.
Carlos Anibal de Almeida, diretor de operações florestais, logística e suprimentos da Suzano, lembra que há modelos científicos para tudo que envolve a produção: dos que apontam as características do solo, incluindo tipo de relevo, índices de insolação, umidade do ar, vento e precipitações pluviométricas. “É preciso entender a microrregião para ver qual tipo de clone melhor se adapta a cada área de cultivo.” Segundo ele, a Suzano trabalha com mais de 30 mil tipos de clones diferentes e algo próximo a 300 tipos em operação.
Um dos trabalhos em andamento, diz Almeida, é o desenvolvimento de clones mais tolerantes a regimes hídricos severos. Assim como outras empresas do agronegócio, a Suzano também está de olho nas variações do clima, que têm levado chuvas intensas a algumas regiões do país e seca prolongada em outras.
As mudanças climáticas ditam o tom operacional nas fabricantes de papel e celulose e o El Niño já está precificado. A Klabin, por exemplo, criou um comitê de crise depois que uma estiagem prolongada, entre 2018 e 2021, elevou o risco hídrico em várias áreas onde a empresa tem suas fazendas de pinus e eucaliptos. “Nosso planejamento de curto prazo, de 18 meses, leva em conta os possíveis efeitos do El Niño. Isso implica ter estoque de floresta em pé para o caso de uma fazenda ser afetada e também plano de contingenciamento de transporte, caso tenhamos estradas bloqueadas por fenômenos climáticos”, diz Ávila.
O vice-presidente de assuntos corporativos da Bracell, Luiz Dutra, afirma que as inovações não estão apenas no desenvolvimento das matérias-primas. “Somos tidos como fabricantes de commodities, mas poucos setores têm a dimensão dos investimentos feitos pelo setor de papel e celulose. Há muito valor agregado na produção brasileira”, diz ele, lembrando que, desde 2018, os acionistas da Bracell investiram mais de R$ 20 milhões na construção de novas fábricas e em pesquisa e desenvolvimento.
De acordo com a diretora de assuntos corporativos da Ibá, Renata Stringueta Nishio, o Brasil tem hoje quase dez milhões de hectares de área plantada e outros seis milhões de hectares de áreas nativas preservadas. Ela destaca que, além da boa adaptação das culturas do eucalipto e do pinus, a indústria de papel e celulose trabalha hoje com uma gama de cinco mil bioprodutos, “todos de origem renovável, recicláveis e em sua maioria biodegradáveis – livros, papel, copos, canudos de papel e painéis de madeira”. A Klabin, por exemplo, colocou no mercado um tipo de saco de cimento que não precisa ser descartado. “A gente chama de dispersível, ou seja, nem precisa abrir a embalagem, pode colocar tudo na máquina de produzir cimento, porque essa embalagem é biodegradável”, diz Ávila.
Além disso, a árvore também está presente, a partir da celulose solúvel, em diversos outros produtos, como alimentos, medicamentos e roupas. No mercado têxtil, inclusive, as fibras provenientes de árvores já representam 6% do mercado global desse segmento.
As empresas de papel e celulose também gostam de destacar que promovem a economia circular em suas linhas de produção. A fábrica recentemente inaugurada pela Bracell, em Lençóis Paulista (SP), tem, segundo a empresa, a maior e mais limpa caldeira de recuperação química do mundo – ela gera energia a partir da queima da fração orgânica do licor negro, um subproduto do processo fabril. “Esse método não apenas supre as demandas de energia da fábrica, como também produz um excedente de 150 MW a 180 MW, disponibilizado no grid nacional”, afirma. Mais recente Próxima Digitalização na floresta
Fonte: Valor Econômico