Por Anthony Harrup e Juan Montes, Dow Jones
01/02/2023 21h00 Atualizado há 13 horas
Empresas de todas as partes do mundo estão transferindo a produção e equipamentos para o México em busca de um centro de produção mais próximo dos EUA como parte de uma mudança mais ampla que está ocorrendo no comércio global.
Algumas empresas estão saindo da Ásia, enquanto outras investem milhões de dólares para aumentar a produção de bens que são exportados livres de tarifas para os EUA.
Economistas e executivos afirmam que rupturas nas cadeias de suprimentos, lockdowns na China por causa da covid-19, aumento dos fretes e as incertezas geopolíticas causadas pela invasão da Ucrânia pela Rússia estão alimentando a tendência de “nearshoring” (encurtar a cadeia de produção).
Em Tijuana, um dos maiores polos exportadores de televisores e outros aparelhos eletrônicos do mundo, os parques industriais estão operando quase a plena capacidade, segundo executivos. E em Ciudad Juárez, do outro lado da fronteira com El Paso, no Texas, recrutadores estão contratando trabalhadores para empresas que estão chegando ao país ou ampliando suas operações.
Segundo investidores, a economia do México, baseada na manufatura, tem como um de seus atrativos os acordos de livre comércio — incluindo o Acordo EUA-México-Canadá — e a proximidade do mercado americano. A escassez de mão de obra nos EUA também favorece a produção no México.
“Conseguir contratar pessoas suficientes para as nossas unidades nos EUA para apoiar nosso crescimento foi um verdadeiro desafio. Tínhamos um grande interesse em abrir uma fábrica no México”, disse Sam Rosen, presidente da Ollin Plastics, unidade de moldagem de plásticos da ATEK Companies, de Minnnesota.
A Ollin Plastics investiu cerca de US$ 10 milhões para instalar uma fábrica no polo industrial de Monterrey, onde começou a produzir “coolers” para o mercado americano no ano passado. Ela pretende crescer no local e fabricar outros produtos de plástico.
A Mattel, fabricante das bonecas Barbie e dos Mega Bloks, ampliou sua unidade em Monterrey, tornando-a a maior do mundo, com um investimento de US$ 47 milhões entre 2020 e 2022.
A fabricante de brinquedos mais que dobrou sua força de trabalho para 3,5 mil na unidade, como parte de uma reestruturação da cadeia global de suprimentos para aumentar a produção e a produtividade, com acesso imediato aos EUA, o maior mercado de brinquedos do mundo, segundo Roberto Isaias, diretor da cadeia de suprimentos da Mattel. A companhia exporta brinquedos do México para quase 30 países.
O governo Joe Biden está encorajando a produção regional como parte de seus planos para fortalecer as cadeias de suprimentos e a produção industrial dos EUA. Na Cúpula dos Líderes da América do Norte, realizada na Cidade do México em janeiro, EUA, México e Canadá concordaram em fortalecer as cadeias de suprimentos regionais e promover investimentos em setores como os de semicondutores e baterias para carros elétricos.
Após uma queda para US$ 28,2 bilhões em 2020, durante a pandemia, os investimentos estrangeiros diretos (IED) no México aumentaram para US$ 31,4 bilhões em 2021 e alcançaram US$ 32,1 bilhões nos primeiros nove meses de 2022 — maior número para o período desde 2013. Desse total, US$ 11,6 bilhões foram para infraestrutura, similar aos níveis de 2021.
O governo mexicano diz que mais de 400 empresas estão interessadas em transferir a produção da Ásia para o México.
“A realocação de multinacionais da Ásia para o México para fortalecer os mercados regionais é uma prioridade para o México, e EUA e Canadá estão interessados nisso”, disse Raquel Buenrostro, ministra da Economia do México em um pronunciamento recente.
O entusiasmo existe mesmo com o presidente Andrés Manuel López Obrador irritando alguns investidores estrangeiros com seus esforços para retomar o controle sobre a geração de energia no México. Suas políticas estão afetando grandes consumidores industriais de eletricidade, desencadearam disputas comerciais com os EUA, levou à suspensão de grandes projetos para o setor, e mantêm em compasso de espera bilhões de dólares em potenciais investimentos.
“Há um forte argumento de que o nearshoring seria ainda mais forte se não enfrentasse a resistência do governo de López Obrador”, disse Ryan Berg, diretor do Programa das Américas do think tank americano Center for Strategic and International Studies.
As empresas de energia estrangeiras travam batalhas legais com o governo sobre mudanças nas leis de eletricidade e hidrocarbonetos, que dão prioridade às estatais Comisión Federal de Electricidad e Petróleos Mexicanos.
Com a demanda por espaço industrial aumentando, a infraestrutura elétrica insuficiente limita a velocidade com que os fabricantes podem se mudar para o México, diz Alberto Villanueva, diretor-gerente da Nepanoa de Chicago, que faz gerenciamento de projetos e consultoria para empresas dos EUA interessadas em se estabelecer e crescer no México. “O México oferece um obstáculo quando se trata de serviços públicos”, diz ele.
Mesmo assim, ao longo da fronteira com os EUA, a demanda por espaços industriais está superando a oferta. No Estado da Baixa Califórnia, há apenas 2% do espaço em parques industriais disponível, segundo Román Caso, presidente-executivo da Co-Production International de San Diego, que oferece espaço industrial, serviços de logística e administração para empresas exportadoras no México.
A fabricante chinesa de produtos eletrônicos e eletrodomésticos Hisense, uma das maiores fabricantes de televisores de tela plana do mundo, comprou uma fábrica de produção de aparelhos de TV em Rosarito, na Baixa Califórnia, em 2015. Mais tarde, ela incorporou fornecedores e processos adicionais, aumentando a produção e tornando o México mais do que apenas um local de montagem.
A Hisense disse que está desenvolvendo um parque industrial em Monterrey, investindo US$ 260 milhões na produção de refrigeradores, máquinas de lavar, aparelhos de ar-condicionado e utensílios de cozinha para o mercado dos EUA.
A especialista em comércio exterior Cecilia Montaño, da Deloitte na Cidade do México, disse que sua equipe aconselhou empresas em mais de 30 projetos nos últimos meses para a realocação da produção para o México. “Algumas companhias estão tentando ficar mais próximas de seus mercados, com depósitos e centros de distribuição mais bem posicionados.”
“Essa é uma oportunidade enorme para o México, que surge apenas uma vez em cada geração”, diz Carlos Capistrán, economista-chefe para o México e o Canadá do Bank of America. “Está começando a acontecer, mas não sabemos se será um boom ou apenas um voo de galinha.”
Fonte: Valor Econômico
