Por Taís Hirata — De São Paulo
08/12/2023 05h02 · Atualizado há 5 horas
A privatização da Sabesp deverá atrair grandes gestoras de investimento, em especial as que já têm familiaridade com o mercado brasileiro, avaliam atores do setor de infraestrutura.
Grupos que entraram na privatização da Eletrobras ou estudaram o processo a fundo estão entre os prováveis interessados – como o GIC, fundo soberano de Cingapura, o Canada Pension Plan (CPP) e a 3G Radar.
Outros potenciais investidores citados são gestoras do país com atuação em infraestrutura, como Pátria e IG4 Capital. A gestora de Paulo Mattos inclusive já criou um veículo exclusivo para estudar a Sabesp, em sociedade com a americana Water Asset Management, que já tem participação na empresa hoje. O plano é iniciar a captação de um fundo focado apenas na oferta, de ao menos US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões), uma vez que o desenho da privatização for definido pelo governo.
Procurados, o CPP, o Pátria e a IG4 não comentaram o assunto. A reportagem não conseguiu contato com o GIC e a 3G Radar.
Já os grandes operadores privados de saneamento – Aegea, Iguá e BRK – não deverão participar do processo. Para analistas, o perfil da privatização da Sabesp não conversa com a estratégia das companhias, que não teriam controle total da operação nem
poderiam incorporar o ativo a seus portfólios vigentes. Além disso, em alguns casos, o mandato dos acionistas investidores nessas empresas não permitiria o investimento em uma companhia de capital aberto, com a Sabesp.
Questionada sobre como está o interesse do mercado, a secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do governo estadual, Natália Resende afirma que há diferentes perfis de interessados. “Temos conversado de forma diversa com fundos, grupos de infraestrutura e inclusive os operadores de saneamento. Alguns têm buscado se juntar, temos visto esses movimentos.”
Apesar da forte expectativa do mercado, há também muitas dúvidas, principalmente sobre como ficará o desenho da operação. Diferentemente do modelo da Eletrobras, em que houve maior pulverização, o governo paulista pretende criar a figura de acionistas de referência, que teriam uma participação maior e poderes sobre o direcionamento do negócio. Essa possibilidade é bem vista pelos grandes fundos que desejam ter capacidade de influenciar nas decisões. A expectativa do mercado é que, para isso, seria necessário uma fatia de ao menos 10% na companhia, vaga no conselho de administração e nos principais comitês da empresa.
“A grande calibragem vai estar no desenho societário. A incógnita hoje é qual direito societário você vai dar, como será o acordo de acionistas, quais as limitações de controle. O investidor quer ter ferramentas suficientes para lidar com os problemas da operação. Se isso estiver bem equacionado, deve haver interesse de grupos financeiros que conhecem o mercado brasileiro de infraestrutura”, afirma Fernando Marcato, professor da FGV-Direito, que já foi secretário-executivo de novos negócios na Sabesp.
Segundo Marcos Ganut, sócio-diretor da Alvarez & Marsal Infra, há também interesse de gestoras de investimento de fora do país, ainda sem operação local. Porém, neste caso, o desafio de atração é maior. “Há grupos grandes de fora olhando, mas a preocupação é o risco Brasil. O investidor que não está aqui olha, mas coloca um prêmio de risco.”
Além disso, ele pondera que o formato do “follow-on” com participação limitada reduz o interesse de grandes entrantes. “Para alguns grupos de fora, o cheque fica relativamente pequeno na conversão para dólares, e não há muito controle do negócio. Acaba sendo o mesmo que comprar um papel de uma companhia.”
Por outro lado, ele pondera que se trata de uma oportunidade interessante porque a Sabesp é uma companhia já bem estruturada, com riscos muito menores do que concessões novas, com receita estável e forte resiliência. Para um investidor que está entrando em saneamento, seria uma oportunidade de iniciar uma nova plataforma no setor, aponta Marcato.
Após a aprovação do projeto de lei que autoriza a privatização, na noite de quarta-feira (6), o governo de São Paulo ainda terá de enfrentar etapas desafiadoras para tirar o processo do papel. A meta é fazer a oferta até julho de 2024, um prazo considerado pelo mercado factível, mas apertado.
Segundo Bruno Aurélio, sócio do Demarest, há desafios internos e externos a serem cumpridos. Internamente, haverá toda a discussão com os municípios a respeito dos planos de investimentos e dos contratos, algo determinante para o valor da companhia.
Além disso, haverá a necessidade de lidar com uma série de interlocutores externos. “Pode haver ruídos com Ministério Público, com o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, que não é um órgão fácil de se lidar. Deve haver ações populares, manifestações de sindicatos. Esses fatores podem gerar atrasos”, diz ele.
Fonte: Valor Econômico
