Por Marcelo Osakabe e Lucianne Carneiro — De São Paulo e do Rio
27/04/2023 05h01 Atualizado há 4 horas
A inflação voltou a mostrar sinais de desaceleração na prévia de abril, atingindo o menor patamar em 12 meses desde outubro de 2020. Ainda assim, analistas consideraram a abertura dos dados negativa, na margem. Para economistas, os números reforçam a expectativa de uma desinflação bastante lenta e que o Banco Central terá trabalho para combatê-la.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) desacelerou para 0,57% em abril, após marcar 0,69% em março. Com isso, o indicador acumulou alta de 4,16% em 12 meses.
Este é o menor nível desde outubro de 2020, quando o resultado em 12 meses foi de 3,52%. Ele também ficou dentro da banda de tolerância da meta perseguida pelo Banco Central para este ano, entre 1,75% e 4,75%, com centro em 3,25%.
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O IPCA-15 de abril veio abaixo da mediana das 34 projeções de analistas de consultorias e instituições financeiras consultados pelo Valor Data, de 0,60% ante março e 4,19% em 12 meses.
Cinco das nove classes de despesas pesquisadas mostraram arrefecimento entre março e abril: alimentação e bebidas (de 0,20% para 0,04% em abril), habitação (0,81% para 0,48%), transportes (1,50% para 1,44%), saúde e cuidados pessoais (1,18% para 1,04%) e comunicação (0,75% para 0,06%). Por outro lado, aceleraram a alta os grupos artigos de residência (-0,18% para 0,07%), vestuário (0,11% para 0,39%) e educação (0,08% para 0,11% em abril). O segmento de despesas pessoais registrou estabilidade.
Individualmente, o item com maior contribuição foi a gasolina, que subiu 3,47% e respondeu, sozinha, por 29,8% da prévia do mês. Em março, o combustível incorporou a reoneração parcial dos tributos federais.
A alta da gasolina, no entanto, foi menor que a antecipada por economistas e contribuiu para o indicador ficar abaixo da mediana das expectativas. O Sicredi, por exemplo, esperava avanço de 4,60% desse item.
“No geral, a leitura é positiva, mas nos parece mais ligada uma herança do IPCA fechado de março, cujo resultado foi melhor que o esperado. Na margem, parece que veio pior, inclusive as medidas de núcleo e difusão”, comentou o economista-chefe do banco, André Nunes.
Nos cálculos do Valor Data, o chamado índice de difusão, que mede a proporção de bens e serviços que tiveram aumento de preços no período, passou de 61,3% para 63,2%. Sem alimentos, grupo que apresenta forte volatilidade, o indicador também avançou, de 63,9% para 66,8%. Já a média dos cinco núcleos monitorados pelo Banco Central teve uma leve alta, para 0,45% em abril, de 0,43% em março, conforme a MCM Consultores.
Economista da Quantitas, João Fernandes observa que as surpresas positivas se concentraram em três preços voláteis, com pouca interferência da política monetária – além de gasolina, energia elétrica e alimentação vieram melhor que o esperado. “Para fins do que o mercado acompanha para pensar na trajetória da Selic, vimos uma piora”, resume.
Ele ressalta, em especial, a trajetória dos serviços subjacentes. “Eles voltaram a rodar alinhados à média histórica vista entre 2004 e 2010, que é compatível com uma inflação da ordem de 5% a 6%. Para estar alinhado à meta atual, seria necessário voltar à uma trajetória mais perto da vista em 2017”, diz.
O dado de abril fez com que uma medida acompanhada pela gestora WHG, a média anualizada e sazonalizada dos núcleos nos últimos três meses, continuasse em trajetória de alta. Após tocar 5,0% em novembro, o indicador voltou a subir e chegou a 6,5% em abril. Um número ainda bem acima da meta de inflação perseguida pelo Banco Central, observa o economista da gestora Danilo Passos.
Apesar disso, Passos pondera que a inflação não necessariamente vai voltar a acelerar. “O que temos visto é que a narrativa de desaquecimento da economia segue em curso, os preços de atacado estão caindo”, diz. “Daqui para frente, no entanto, o processo pode se mostrar mais moroso e em trajetória não linear. Alguns meses podem mostrar alta, e outros, baixa.”
“O número de hoje [ontem] traz cautela ao otimismo visto após o IPCA de março, mas ainda é cedo para dizer que a tendência mudou”, afirma a economista Andrea Angelo, economista da Warren Rena. Em suas contas, os núcleos de serviços intensivos em trabalho e diversos mostraram estabilidade na média móvel de três meses, dessazonalizada e anualizada. Por outro lado, os serviços subjacentes aceleraram e uma medida de serviços inerciais mostrou a primeira surpresa altista.
Um teste mais definitivo sobre a chance de os juros caírem, nesse sentido, virá na virada para o segundo semestre, diz a economista-chefe da ARX Investimentos, Elisa Machado. Naquele momento, todos os estímulos fiscais previstos, como o aumento do salário mínimo e o reajuste do Bolsa Família e do funcionalismo, entrarão em vigor. Ao mesmo tempo, alguns produtos também sofrerão recomposição de tributos, como o caso dos combustíveis.
Fonte: Valor Econômico
