A economia resiliente dos Estados Unidos tem sinalizado que suporta um patamar de juros ainda maior, disse ontem o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell. Embora os juros americanos estejam em um território restritivo, na faixa entre 5,25% e 5,5%, “não parece que a política monetária está apertada demais”, afirmou, durante evento no Economic Club de Nova York. Apesar de Powell reiterar também que o aumento dos rendimentos dos Treasuries longos, se sustentado, reduziria a necessidade de nova alta de juros, as sinalizações “hawkish” (duras) se sobressaíram e os retornos da renda fixa americana saltaram a novas máximas desde 2007, o que derrubou as bolsas.
O evento foi interrompido logo no início por ativistas climáticos que pediam que o Fed parasse de queimar “dinheiro, futuro e o planeta”. Powell foi retirado às pressas da sala e só voltou após a manifestação ser controlada.
Durante seu discurso, o banqueiro central reiterou que evidências de força adicional da economia podem colocar o processo de desinflação em risco e que o Fed poderá apertar mais a política. “Os juros serão mantidos em território restritivo até que tenhamos confiança de que a inflação voltará à meta de 2%.”
“Estamos atentos a dados que mostrem a força da economia e do mercado de trabalho”, disse ele. Powell afirmou que a amplitude do aperto monetário seguirá dependendo de dados e equilíbrio de riscos, mas que incertezas estão dificultando esses julgamentos. Uma dessas incertezas seria geopolítica. Para ele, as tensões estão muito elevadas e representam riscos importantes para a atividade econômica global. “O nosso papel institucional no Fed é monitorar esses desenvolvimentos relativamente às suas implicações econômicas, que permanecem altamente incertas. Falando por mim, achei o ataque a Israel horrível, assim como a perspectiva de mais perdas de vidas inocentes”, afirmou.
Outro risco seria a desinflação perder força. “Dados de inflação de setembro mantiveram tendência de queda, mas foram menos animadores”, afirmou, reiterando que a inflação está muito alta e que alguns meses de dados favoráveis não é sinal de vitória. Powell também disse que apesar do mercado de trabalho seguir apertado, muitos indicadores sugerem que ele está esfriando gradualmente.
“Até o momento, a queda da inflação não ocorreu à custa de um desemprego significativamente mais elevado – um desenvolvimento altamente bem-vindo, mas historicamente incomum. A recuperação das cadeias de abastecimento, em conjunto com o reequilíbrio da oferta e da demanda no mercado de trabalho, permitiu a queda da inflação sem uma atividade econômica substancialmente mais fraca. Na verdade, o crescimento econômico tem surpreendido consistentemente positivamente este ano, como se viu mais recentemente nos fortes dados de vendas a varejo divulgados no início desta semana”, afirmou.
Sobre as condições financeiras, Powell disse que elas se tornaram significativamente mais restritivas nos últimos meses e os rendimentos dos títulos de longo prazo têm sido um importante fator impulsionador. Segundo ele, preocupações com déficit fiscal elevado e o processo de aperto quantitativo – com a redução do balanço de ativos do Fed – está claramente apertando as condições financeiras, com os investidores buscando um prêmio maior para comprar papéis de longo prazo. Segundo ele, esses rendimentos maiores dos Treasuries não mudam profundamente o caminho da política monetária, mas podem afetar a decisão por mais uma alta de juros ou não.
No fim do dia, as bolsas fecharam em queda, os rendimentos dos Treasuries saltaram para máximas em 16 anos e o mercado começou a precificar cortes apenas no segundo semestre de 2024. O índice Dow Jones fechou em baixa de 0,75%, o S&P 500 caiu 0,85% e o Nasdaq cedeu 0,96%. Na renda fixa, o rendimento do título de dez anos avançou para 4,99%, ante 4,902% no dia anterior. Já o retorno do papel do Tesouro de 30 anos ultrapassou a barreira dos 5% – foi de 4,989% para 5,106%. O “yield” do papel de dois anos recuou de 5,217% para 5,165%.
Para o analista-chefe da Oxford Economics, John Canavan, Powell deixou a porta aberta para mais aperto monetário se a economia continuar a crescer mais rapidamente do que o esperado. “Os rendimentos de curto prazo responderam positivamente aos comentários de Powell, com o yield do papel de dois anos caindo”, disse ele, em entrevista ao Valor.
O economista ressaltou que Powell reconheceu que a inflação ainda está muito elevada e que o Fed poderá apertar mais a política se a economia permanecer mais resiliente do que o esperado. “Mas também deixou claro que o Fed está mais cauteloso por uma série de motivos. Em primeiro lugar, a política já está restritiva e os efeitos totais do aperto já realizado ainda não foram totalmente sentidos na economia. Além disso, as condições financeiras estão ficando também mais apertadas e os riscos geopolíticos aumentaram.”
Segundo ele, o cenário-base da Oxford Economics é o de que o aperto monetário do Fed provavelmente atingiu o pico neste ciclo, mas mais um aumento em dezembro ou janeiro é um risco, “uma vez que a economia entra no quarto trimestre com mais dinamismo do que o previsto”.
Para Lucas Zaniboni, economista da Garde Asset Management, o discurso de Powell manteve a linha da guinada mais dovish observada em outros dirigentes do banco central há algumas semanas. “Isso ganha mais relevância pelo fato de todos os principais dados de setembro até aqui – CPI, mercado de trabalho e vendas no varejo – terem surpreendido para o lado hawkish”, afirma. Para Zaniboni, também não haverá mais altas neste ciclo.
O economista também lembra que o aperto das condições financeiras citados por Powell e outros dirigentes como substituição de novas altas tem que ser visto com cautela. “Se o problema for de origem fiscal, no fim pode significar uma taxa neutra mais alta e uma postura restritiva menor do que o esperado”, disse.
Franscisco Nobre, economista da XP, também destaca que o banqueiro central reforçou a mensagem de que os juros vão ter que ficar altos por mais tempo e possivelmente o patamar de juro neutro – antes estimado em 2,5% – poderá ser mais alto porque a economia está muito resiliente e o desequilíbrio fiscal está aumentando, o que acaba criando pressões inflacionárias. Nobre estima que o Fed manterá os juros onde estão e só cortará no segundo semestre de 2024. “ A projeção é de terminar 2024 em 4,75% e 2025 em 3,5%. Acreditamos que os juros não vão voltar para o neutro de antes.”
Fonte: Valor Econômico
