Por Eduardo Magossi — De São Paulo
28/08/2023 05h02 Atualizado há 6 horas
Nem só sobre o tamanho da alta de juros dos EUA foram as discussões e conversas paralelas registradas nos corredores do Simpósio de Jackson Hole. Choques de oferta, mudanças climáticas e desglobalização também estiveram no foco das autoridades monetárias, economistas e investidores presentes no evento. A avaliação é de Fabio Kanczuk, ex-diretor do Banco Central e atual chefe de macroeconomia da ASA Investments, que participou do encontro, encerrado no sábado.
“Jerome Powell, o presidente do Federal Reserve [Fed, o BC americano], deixou as portas abertas para uma nova alta. Mas foi cauteloso ao dizer que será dependente de dados embora a inflação subjacente se mostre resiliente”, disse ele, ressaltando que o sentimento dos presentes em Jackson Hole é de que um pouso suave – a queda da inflação sem aumento expressivo do desemprego – será difícil. “Raramente tivemos um pouso suave. A inflação está caindo mas ainda está longe da meta. Vejo muita gente animada, mas o mais provável não é um cenário de pouso suave”, afirma o economista.
Kanczuk destaca que outros assuntos mais ligados ao tema do simpósio – “Mudanças Estruturais na Economia Global “- ganharam destaque nas discussões paralelas. Segundo ele, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, alertou sobre o aumento de probabilidade a partir de agora da ocorrência de novos choques de oferta, como os registrados durante a pandemia, dessa vez provocados pelas mudanças climáticas ou mesmo pela transição energética para uma economia mais verde. “A Europa quer investir cerca de €600 bilhões por ano na transição para energia sustentável nos próximos dez anos e isto terá consequências econômicas. Lagarde apontou que esta transição poderá confundir os economistas”, disse.
Além dos choques de oferta provocados pelas mudanças climáticas, Lagarde também citou os riscos criados por mudanças no mercado de trabalho – com a digitalização e os desafios da inteligência artificial – e também por uma nova divisão geopolítica global e um movimento de desglobalização. Lagarde disse que a divisão geopolítica está se aprofundando, junto com um crescimento de protecionismo à medida que os países reconfiguram cadeias de abastecimento para se alinhar com novas metas estratégicas. “Ainda não sabemos se essas várias mudanças serão permanentes. O que é evidente é que, em muitos casos, seus efeitos têm sido mais persistentes”, disse a presidente do BCE, ao se referir à inflação resiliente.
O vice-presidente do Banco da Inglaterra, Ben Broadbent, também destacou a questão geopolítica, segundo Kanczuk. Em um painel em que deixou claro que o BoE precisará manter os juros elevados por mais tempo que o esperado, Broadbent buscou dados históricos para explicar as mudanças na economia. Segundo Kanczuk, Broadbent disse que grande parte da inflação alta que está sendo registrada na Inglaterra vem da demanda e não da oferta. E analisando dados comerciais a partir do século 19, Broadbent conclui que a abertura comercial reduz a volatilidade dos mercados. “Agora, como parece que estamos caminhando a um mundo menos globalizado e com mais protecionismo, teremos muito mais volatilidade.”
O presidente do Banco do Japão, Kazuo Ueda, por sua vez, embora tenha se mantido defensor de uma política mais flexível, também abordou a divisão geopolítica que está criando mudanças comerciais, mas nem tanto, na opinião de Kanczuk. “Ueda levantou a questão dos EUA estarem aumentando a importação de países amigos e reduzindo da China, o que tem afetado o Japão”, disse. Segundo o economista, Ueda mostrou que o comércio internacional não está diminuindo, mas mudando de perfil. “Os EUA aumentaram sua importação do Vietnã e do México. Mas Vietnã e México aumentaram suas importações da China. Então, no final, os EUA não estão ficando mais independente da China no comércio bilateral”, afirma o chefe de macroeconomia da ASA Investments.
Neste cenário de incertezas e mudanças, a mensagem passada em Jackson Hole, segundo Kanczuk, é de que o trabalho do combate à inflação não está encerrado, como dito por Powell, Lagarde e Broadbent. “A inflação dá sinais de desaceleração mas o setor de serviços segue bastante aquecido. É importante ressaltar que Powell disse que nem todo o efeito de transmissão de política monetária foi sentido e pode ser que ainda tenha mais impactos tanto na inflação como no crescimento econômico”, diz o economista.
Porém, nos corredores do evento, o que se destacou foi que a apresentação de Lagarde, com seus comentários sobre os efeitos das mudanças estruturais no mercado de trabalho, clima, transição energética e questões geopolíticas como catalisadores de novos choques de oferta de alimentos e bens, pode significar que um novo mundo de inflação elevada veio para ficar.
Fonte: Valor Econômico
