Relevância atribuída pelos EUA à América Latina vem declinando desde a década de 1990, mas região oferece oportunidades para amenizar algumas das dores de cabeça americanas
PorMarcello Averbug
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Desde final da década de 1990 vem declinando a relevância atribuída pelos Estados Unidos à América Latina (AL). As últimas demonstrações significativas de interesse do governo americano pelos vizinhos do sul ocorreram em meados do século passado: a) a Aliança Para o Progresso, nos anos 60, ofertante de volumosos recursos para investimentos; b) o apoio aos golpes que destituíram o presidente João Goulart e, em 1973, o presidente chileno Salvador Allende.
Essas iniciativas refletiam a atmosfera reinante sob a Guerra Fria, pela qual um dos pesadelos americanos provinha do perigo de o comunismo avançar na AL. Assim, a ajuda econômica e o nefasto combate a governantes considerados ameaçadores enquadravam-se na lógica da estratégia dos EUA naquela época.
Com o desmoronamento da União Soviética e diluição da Guerra Fria, os EUA ascenderam ao trono de potência mundial sem rival de porte equivalente. A premência em evitar a penetração do comunismo na AL perdeu fôlego e, então, Washington sentiu-se capaz de distanciar-se da região sem o perigo de graves prejuízos. Nem mesmo Cuba continuou sendo alvo de aguda inquietação, conforme evidencia o fato de a reconciliação iniciada pelo presidente Barack Obama ter retrocedido sob Donald Trump e permanecer ignorada por Joe Biden.
Após o fim da União Soviética outras preocupações passaram a absorver o foco da política externa americana. E não faltaram encrencas em vários pontos do planeta para demandar a interferência, nem sempre justificável, dos EUA. Basta citar como exemplos o Iraque, Afeganistão, Irã, Israel versus palestinos, Síria, Líbano e conflitos na África, além da ascensão da China e radicalização dos atritos com a Rússia.
Porém, a dinâmica dos mais recentes acontecimentos econômicos e políticos mundiais evoluiu de tal maneira que, hoje, tornou-se conveniente lembrar aos americanos que a América Latina possui potencial para oferecer aos EUA oportunidades para amenizar algumas de suas dores de cabeça. Não sob modelo imperialista, mas sim sob o esquema de uma parceria benéfica a ambas as partes.
Por que destaco o fato de a AL possuir o mencionado potencial? É o que tentarei demonstrar a seguir.
Inúmeros fatores condicionam atualmente a vulnerabilidade da economia americana, entre os quais destaco os mencionados por Shannon K. O’Neil, do Nelson and David Rockefeller for Latin American Studies, em artigo publicado pelo Foreign Affairs de abril 2024.
O’ Neil informa que 80% do suprimento de minerais críticos à economia americana provém do exterior, principalmente Ásia, havendo uma forte dependência à China em materiais como níquel, manganês e grafite. Cerca de 60% dos microchips e 90% dos tipos mais avançados de chips semicondutores usados nos EUA são fabricados em Taiwan. A China tornou-se o maior fornecedor de vários antibióticos, anticoagulantes e medicamentos para quimioterapia e diabetes, assim como a principal origem de ingredientes para a indústria farmacêutica da Índia, relevante fonte de medicamentos importados pelos Estados Unidos.
Poderiam ser citados inúmeros outros exemplos de concentração externa de supridores de bens imprescindíveis à segurança e tranquilidade econômica americana. Evidentemente, a diminuição dessa delicada dependência requer um esforço para diversificar em termos geográficos o elenco das importações.
Os EUA deveriam redescobrir a AL como alternativa à dependência de importações asiáticas. Aliás, essa é apenas uma das várias óticas mediante as quais os EUA deveriam reavaliar sua visão sobre os vizinhos do sul sem instintos de superioridade
E é sob essa ótica que os EUA deveriam redescobrir a AL. Aliás, essa é apenas uma das várias óticas mediante as quais os EUA deveriam reavaliar sua visão sobre os vizinhos do sul, sem instintos de superioridade e com o espírito de estabelecer laços de relacionamento frutíferos para todos os integrantes do continente americano. Tal redescoberta seria a melhor oportunidade para a AL conquistar um intercâmbio com o “primo rico” que seja vantajoso ao desenvolvimento econômico e social de seus países.
No que diz respeito à diversificação das fontes de suprimento dos EUA, a AL oferece alternativas concretas. No segmento de minerais, a região possui amplas reservas de vários deles, inclusive dos necessários à fabricação de baterias de elevada capacidade. Segundo O’Neil, estima-se que 60% das reservas mundiais de lítio (principalmente no Chile, Bolívia e Argentina), 23% das de grafite e 15% das de manganês e níquel encontram-se em solo latino-americano, de onde já se extraem expressivo montante de cobre. América Central e México também têm o que oferecer em vários setores de atividade.
Na área de insumos e produtos farmacêuticos a região encontra-se bem-posicionada, abrigando competentes instituições de pesquisa, tais como Instituto Butantan e Fundação Oswaldo Cruz, que pertencem ao grupo dos 15 maiores produtores mundiais de vacinas.
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Constata-se, portanto, o quanto pode crescer o papel da AL como exportadora aos EUA, atenuando assim o peso de alguns dos atuais ofertantes. Mas a possibilidade de aproveitar plenamente esse potencial depende da superação de deficiências infraestruturais presentes na AL. Por esse motivo surge como indispensável a montagem de um esquema de financiamento internacional a esse setor, principalmente via Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Aliás, a China assumiu a iniciativa de oferecer financiamento a projetos de investimento na região, além de já ser o maior parceiro comercial do Brasil, Chile, Peru e Uruguai e absorver forte volume das transações comerciais dos demais países da região.
Outro aspecto negligenciado pelos norte-americanos é o de que quanto mais próspera e estável politicamente for a AL maior será o grau de segurança dos EUA, dada a proximidade territorial, e menor a tensão proveniente da onda de imigrações ilegais de que é alvo.
Em vista do exposto anteriormente, cabe perguntar: o que os EUA estão esperando para, na escala de prioridades em sua política externa, elevar a graduação atribuída à América Latina?
Marcelo Averburg é consultor econômico em Washington, economista aposentado do BNDES e autor do livro “Escritos Itinerantes: Economia e Política”.
Fonte: Valor Econômico