Por que a Amazônia ainda não virou fonte de medicamentos
O Banco Mundial calcula que a floresta amazônica em pé teria um valor de US$ 317 bilhões por ano. No entanto, em 2024, o Pará — que exportou US$ 23 bilhões — eliminou 6,7 milhões de árvores da floresta e obteve apenas US$ 500 milhões com a exploração de madeira, evidenciando um uso econômico ainda limitado e pouco eficiente da biodiversidade amazônica.
Cientistas brasileiros já identificaram, na Amazônia, plantas capazes de produzir fibras, madeiras, celulose, corantes, óleos essenciais, óleos vegetais, alimentos e substâncias medicinais. Esse potencial permitiria o desenvolvimento de produtos alimentícios, cosméticos e farmacêuticos em larga escala.
O mercado farmacêutico brasileiro, por sua vez, conta com 411 empresas — sendo 72% de capital nacional — e movimenta cerca de US$ 36 bilhões por ano. As dez maiores empresas são nacionais e concentram 48% do mercado. Ainda assim, com raras exceções, como o Acheflan, os portfólios dessas companhias quase não incluem fitomedicamentos originados da biodiversidade brasileira.
Esse cenário não surpreende, já que poucas plantas medicinais brasileiras são reconhecidas pela Anvisa — e menos ainda têm origem amazônica. O professor Walter B. Mors descreveu cerca de 1.450 plantas medicinais no Brasil, mas apenas a unha-de-gato (Uncaria tomentosa), da Amazônia, integra a Farmacopeia Brasileira. Outras espécies também são pouco representadas na Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (Renisus).
Na prática, diversas plantas amazônicas já são amplamente utilizadas por populações locais. É o caso da copaíba e da andiroba, conhecidas por suas propriedades medicinais. A oleorresina da copaíba chegou a ser reconhecida pela Anvisa, mas perdeu a acreditação por falta de estudos clínicos robustos. Ainda assim, essas espécies acumulam registros de patentes, principalmente no exterior, com aplicações que vão de cosméticos a medicamentos.
Há também exemplos de descobertas brasileiras que resultaram em medicamentos desenvolvidos fora do país. Um caso clássico é o estudo da bradicinina, associado ao veneno da jararaca, que originou tratamentos para hipertensão — um mercado global bilionário.
O principal entrave para transformar plantas medicinais em medicamentos está no custo e na complexidade dos ensaios de segurança e eficácia, que podem alcançar milhões de reais. Embora haja um volume expressivo de pesquisas acadêmicas, muitos extratos sequer avançam para testes básicos de segurança. Diante disso, empresas farmacêuticas frequentemente optam por adquirir tecnologias estrangeiras já validadas, em vez de investir no desenvolvimento local.
Apesar dos desafios, há sinais positivos. Pesquisas da Fiocruz devem resultar no primeiro fitoterápico industrializado a partir do quebra-pedra, planta tradicionalmente utilizada no Brasil. Além disso, iniciativas recentes, como o Parque de Bioeconomia do Pará, inaugurado durante a COP30, buscam fortalecer a produção de alimentos, cosméticos e produtos naturais na região.
Atualmente, cerca de 1.000 startups estão registradas na Amazônia brasileira, atuando principalmente nos setores de alimentos, cosméticos e química. No entanto, muitas dessas empresas enfrentam limitações de capital humano, financeiro e tecnológico, além da escassez de infraestrutura para pesquisa e desenvolvimento.
Fortalecer o ecossistema de inovação na Amazônia exige políticas públicas voltadas ao financiamento, à formação de profissionais qualificados e à criação de centros de pesquisa robustos. A região ainda carece de instituições comparáveis a grandes centros internacionais, como o MIT ou o CNRS.
Para avançar, especialistas apontam algumas recomendações: transformar pesquisas científicas em inovação, ampliar a realização de testes clínicos, incentivar o desenvolvimento tecnológico nacional, fortalecer instituições de ciência e tecnologia e promover maior integração entre universidades e empresas — especialmente com apoio de grandes farmacêuticas.
O recente Parque de Bioeconomia das Docas surge como uma oportunidade relevante para mudar esse cenário, funcionando como um possível núcleo de desenvolvimento para produtos derivados da biodiversidade amazônica.
Fonte: UOL