Os mercados financeiros globais ainda passam por uma espécie de “ressaca” pós-pandêmica, apesar de mais de meia década ter se passado.
A inflação global ainda não retornou ao patamar considerado ideal pelos bancos centrais, os juros seguem elevados — e muito acima das mínimas históricas em muitos países — e o comportamento dos investidores passam por transformações diárias, com metais preciosos em suas máximas históricas, bolsas emergentes em alta sem precedentes e um enfraquecimento sistêmico do dólar.
Enquanto os investidores apostam em novas classes de ativos, um velho (e clássico) conhecido de tempos de incerteza havia ficado em segundo plano — as oscilações pouco previsíveis do mercado derrubaram o retorno dos hedge funds globais e dos multimercados brasileiros, um mercado que juntos, englobam mais de US$ 5 trilhões (R$ 25,1 trilhões).
Mas a maré parece estar virando. Em 2025, investidores que apostaram na categoria obtiveram ganhos de cerca de 12.6% — o melhor resultado desde 2009, de acordo com dados da Hedge Fund Research Inc. No Brasil, o movimento também foi de recuperação. O IHFA (Índice de Hedge Funds da ANBIMA) encerrou o ano passado com alta acumulada de 15,33%. O número não apenas marca a recuperação da rentabilidade da classe, como encerra um ciclo prolongado de desempenho modesto.
O retorno chega depois de um período em que juros elevados, mudanças tributárias e a ascensão dos ativos incentivados drenaram recursos dos multimercados. O resultado foi um ciclo de resgates que afetou tanto liquidez quanto execução de estratégia. Em 2025, porém, esse mecanismo começou a se inverter.
“Esses resgates geraram um ciclo negativo: gestores foram forçados a reduzir posições para gerar liquidez, pressionando preços para baixo, deteriorando a performance e alimentando novas saídas de capital. Esse ciclo, ao que tudo indica, foi interrompido”, afirma Thiago Picanço, sócio e head de Wealth Management da Reach Capital.
A normalização dos fluxos permitiu que gestores voltassem a operar sem a pressão de vendas forçadas. “Com menor pressão por resgates, os gestores conseguem executar suas estratégias de forma mais eficiente, explorando assimetrias e posições relativas sem o custo adicional das vendas forçadas”, diz Picanço.
Se 2024 foi o ano do esgotamento do modelo anterior — marcado por resgates e competição assimétrica com renda fixa — 2025 foi o ano da virada operacional.
O próximo capítulo dependerá dos juros, da disciplina das gestoras e da confiança do investidor. Mas, depois de um longo inverno, os hedge funds brasileiros voltaram a ter aquilo que define sua existência: ambiente fértil para gerar alpha.
Volatilidade como aliada
A recuperação não veio por acaso. O ambiente de 2025 combinou a expectativa pelo cenário eleitoral , incerteza fiscal e ruído político externo — exatamente o tipo de cenário em que fundos de mandato flexível conseguem gerar retorno descorrelacionado.
“Devido à flexibilidade de mandato, os multimercados estão bem posicionados para navegar o aumento da volatilidade. O cenário, pautado pelas eleições no Brasil e pela imprevisibilidade do governo Trump, tende a gerar distorções de preços relativos, propiciando janelas de oportunidade para gestores macro”, afirma Alfredo Menezes, CEO e CIO da Armor Capital.
Segundo ele, parte relevante da performance veio também do ambiente global:
“A boa performance no ano de 2025 é em boa parte explicada pelo ambiente de risk-on e pela desvalorização global do dólar”. No ano passado, o Ibovespa teve alta acumulada de 34%, enquanto o real subiu 11%.
O resultado é uma combinação que devolveu aos multimercados sua função original: atuar onde a renda fixa pura não alcança e onde a direção dos mercados não é trivial.
Para além da performance pontual, gestores enxergam o setor entrando em um novo estágio estrutural.
“A indústria brasileira de multimercados atravessa um estágio claro de maturação e profissionalização. Há cada vez menos espaço para estratégias pouco diferenciadas e maior exigência por governança, consistência e disciplina de gestão de risco”, diz Picanço.
Esse processo vem acompanhado de consolidação entre gestoras e maior seletividade por parte dos investidores. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por fundos capazes de entregar retorno descorrelacionado e preservação de capital — justamente o território natural dos multimercados e eleva a importância dos ativos dentro de uma estratégia mais sofisticada.
O próximo gatilho
Se 2025 marcou a recuperação da performance, 2026 deve ser o ano em que a captação volta a destravar — desde que o ciclo de juros coopere. A expectativa é que o Copom mantenha os juros inalterados na decisão desta quarta-feira (28), mas a pesquisa Focus, divulgada pelo Banco Central, aponta que o mercado aposta em uma taxa de 12,25% ao fim de 2026.
“Em termos de captação, a indústria local deve se beneficiar de uma queda na taxa de juros, tornando o produto mais atrativo se comparado à renda fixa”, afirma Menezes. Ele acrescenta que mudanças tributárias em discussão também podem favorecer o segmento: há discussões no Ministério da Fazenda sobre a possibilidade da taxação dos títulos isentos. Se aprovado, a mais nova mudança poderia deixar os fundos multimercados com uma atratividade maior. Para Picanço, dados históricos sustentam essa expectativa:
“Estudos internos mostram que os multimercados performaram o equivalente a 89% do CDI em ciclos de alta da Selic e 143% do CDI em ciclos de corte, o que por si só pode ser um catalisador para retomada dos fluxos positivos”, completa.
Assim como em outros segmentos do mercado de capitais, o maior risco para a retomada do mercado está em uma eventual — e não precificada — postergação do ciclo de cortes de juros no Brasil.
Brasil e o espelho internacional
O movimento visto no Brasil acompanha uma tendência global. Nos últimos anos, hedge funds internacionais enfrentaram resgates semelhantes diante da alta de juros nos países desenvolvidos — ainda que longe da Selic de 15% vista por aqui.
“Esse movimento foi acompanhado por um escrutínio crescente sobre a relação entre taxas cobradas por fundos ativos e o desempenho entregue”, diz Picanço. A diferença, segundo ele, é que o Brasil possui ineficiências próprias que criam oportunidades específicas de geração de alpha:
“As chamadas ‘jabuticabas’ locais, como precatórios, FIDCs e outras estruturas específicas, criam ineficiências que podem ser exploradas por gestores bem posicionados”, completa. Nos últimos anos, não foi raro ver fundos multimercados sendo transformados em outros tipos mais “atrativos” de veículos de investimentos.
Se 2024 foi o ponto de exaustão e 2025 a virada operacional, 2026 será o ano em que o investidor decide se volta — ou não — a confiar no multimercado como instrumento central de alocação. A performance reapareceu, a liquidez se normalizou e as gestoras voltaram a executar suas estratégias sem amarras.
O próximo passo é fluxo. E, para Alfredo Menezes, o gatilho está dado: “Em termos de captação, a indústria local deve se beneficiar de uma queda na taxa de juros, tornando o produto mais atrativo se comparado à renda fixa.” Depois de um longo inverno, a disputa agora não é mais por sobrevivência — é por relevância.
Fonte: Forbes Brasil

