27/07/2022
A depender das políticas no campo econômico a serem adotadas pelo governo que sair vitorioso nas eleições deste ano, o investidor estrangeiro pode promover um forte resgate de capital, com impactos significativos para a inflação, os juros e o dólar.
A avaliação é de Ales Koutny, gestor brasileiro focado em mercados emergentes da empresa de investimentos britânica Janus Henderson, com cerca de US$ 360 bilhões (R$ 1,95 trilhão) em ativos.
Com uma visão bastante destoante dos pares de mercado, Koutny diz que não descarta um cenário no qual políticas de caráter populista provoquem uma fuga de recursos acentuada do Brasil, que poderia levar o dólar a testar patamares ao redor de R$ 7,50 ou até R$ 8,00. Ele também vê a possibilidade de o Banco Central prosseguir com o processo de aperto monetário para níveis de até 20% ao ano.
Já no boletim Focus, que capta as projeções feitas por economistas consultados pelo BC, a estimativa é que a moeda americana fique em R$ 5,20 tanto para o final de 2022 como de 2023, enquanto a taxa Selic deve ser de 13,75% e 10,75%, respectivamente.
?Podemos começar a ver uma situação em que a inflação dispara e a moeda deprecia. Nesses cenários, a única maneira de conseguir retomar a credibilidade é continuar subindo as taxas de juros?, afirmou o gestor que fica baseado em Londres, em entrevista por vídeo à Folha.
Como o sr. tem acompanhado a dinâmica fiscal no mercado brasileiro, com iniciativas do governo para aumentar os gastos públicos?
De maneira não muito boa. A questão principal que avaliamos é o quão sustentável é a dívida de um país. No caso do Brasil, se as políticas populistas continuarem avançando na direção de aumento dos gastos, e as commodities continuarem a cair, são tendências que irão afetar bastante o teto fiscal do governo, o que significa que vamos voltar a ter o mesmo tipo de converros sa que tínhamos na época da reforma da Previdência.
Com o aumento do risco fiscal no Brasil, o BC deve ter de promover ainda mais algumas altas na taxa Selic acima do previsto pelo mercado?
Essa é uma das nossas grandes apostas. O mercado local parece ter certa confiança no BC e continua precificando apenas mais um aumento de 0,50 ponto percentual na taxa Selic, mas discordamos muito disso.
Primeiramente, porque será a terceira ou quarta vez que o BC fala que agora estamos chegando perto do final do ciclo de alta dos juros. Portanto, se ele continuar subindo mais 0,25 ponto ou 0,50 ponto percentual, não vai ser algo excepcional. Mas o mais importante é a questão do cenário político no Brasil. Assumindo que nenhuma política seja muito extrema, teoricamente a inflação no Brasil está em uma trajetória de desaceleração mais para o final deste ano, começo do ano que vem.
O problema é que, se as políticas começarem a vir de uma forma que o mercado interprete de uma maneira muito negativa, e os estrangeiresolvam sair do país, vamos ver uma pressão muito alta na moeda.
Se o mercado perde a fé na política do governo, como vemos na Argentina, mesmo que o governo decida fixar a taxa de câmbio ou adote outras medidas para conter a inflação, podemos começar a ver uma situação em que a inflação dispara e a moeda deprecia. Nesses cenários, a única maneira de conseguir retomar a credibilidade é continuar subindo as taxas de juros.
Estimamos em cerca de um terço a probabilidade de a taxa de juros no Brasil chegar a 18%, ou até 20%, é algo que vai depender da questão política no país, e se, sob um novo governo, seja uma renovação do governo atual, seja um novo governo, o quão populistas as medidas que eles querem tomar vão ser, e como eles irão financiar isso.
Nesse cenário, até onde o real poderia se desvalorizar?
Em um cenário como esse, não me surpreenderia ver o real contra o dólar a R$ 7,50, ou até R$ 8,00. Pelos nossos modelos, e pelos modelos do FMI e do Banco Mundial, eles basicamente mostram que o real está barato em relação ao seu valor justo. A questão é que, quando questões políticas entram no mix, o valor justo de uma moeda é o que menos importa.
Fonte: Folha de S.Paulo
