Por Matheus Prado e Augusto Decker, Valor — São Paulo
28/08/2022 12h00 Atualizado há 54 minutos
Os investidores estão muito mais preocupados hoje com o cenário pós-eleitoral e as incertezas sobre os rumos fiscais no ano que vem do que propriamente com quem vai ganhar a disputa pela Presidência. Para Emy Shayo Cherman, estrategista de ações para Brasil e América Latina do J.P. Morgan, a bolsa brasileira representa uma grande oportunidade, “se pudermos assumir que não haverá nenhum tipo de ruptura institucional ou de política econômica”.
A executiva, que se encontrou com uma série de investidores locais e globais nas últimas semanas, diz que não há uma preferência clara entre os clientes do banco por nenhum dos candidatos. “Mas a volatilidade por conta do período eleitoral é muito comum, ocorre em todos os países e gera uma pressão no mercado”, disse em entrevista ao Valor.
Para a estrategista, um fator que tem pesado favoravelmente para o Brasil é o fato de o país estar próximo de completar seu ciclo de elevação dos juros. “É muito importante como um diferenciador entre o Brasil e os demais mercados emergentes”, afirma. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.
O que permitiu a alta recente dos mercados?
Emy Shayo Cherman: Um dos fatores foi a sinalização do Fed de que, daqui para frente, vai ser mais dependente dos dados para elevar os juros. O tom mais pessimista está ficando para trás. Antes não tínhamos, por exemplo, uma visibilidade da banda [os níveis de oscilação das taxas] dos Treasuries, que agora temos. E fica muito difícil ter uma visão sobre mercado de ações sem isso. Uma vez que o Fed sinaliza que daqui para frente vai ser mais cauteloso, já conseguimos ter uma confiabilidade de que as piores surpresas já passaram. Esse é o principal, de longe. E o segundo fator, que não pode deixar de ser mencionado de forma alguma, é a [sinalização de] pausa [no aumento dos juros] pelo Banco Central local, que foi muito importante como um diferenciador entre o Brasil e os demais mercados emergentes.
Por quê?
Cherman: Quando tivemos essa pausa, notamos dois movimentos: o primeiro foi de ‘short covering’ [recompra de posições vendidas, quando se aposta na queda de um ativo] dos investidores locais nas ações domésticas nas quais eles estavam mal alocados, e o segundo foi o fluxo de estrangeiros voltando para a bolsa de valores brasileira [entraram mais de R$ 17 bilhões desde o início de agosto]. Os estrangeiros olharam para o Brasil e reconheceram que foi o primeiro mercado emergente a parar o ciclo de aperto de juros e, portanto, entrar neste mercado seria uma oportunidade.
Até que ponto essa recuperação é sustentável?
Cherman: Nossa previsão para a próxima reunião do Fed é de [aumento nos juros de] 0,75 ponto e, depois, esperamos mais duas rodadas de 0,25 ponto. A inflação veio mais baixa do que o esperado nos EUA em julho, e isso deu um alívio, mas a incerteza é bem menor do que era antes. Em relação ao S&P 500, reiteramos nossa estimativa de 4.800 pontos ao fim de 2022 e achamos que muitos temas para os quais aguardávamos uma resolução já ficaram para trás. E o posicionamento em ações ainda está proporcionalmente fraco, por isso estamos positivos. A visão do J.P. Morgan é que não teremos recessão nos EUA. E, no ciclo de revisão de lucros, nós aumentamos recentemente a expectativa de ganhos das empresas do S&P.
E qual é a visão do banco para a bolsa brasileira?
Cherman: Neste mês, nossa bolsa é uma das melhores do mundo. Temos duas visões muito importantes. Primeiramente, os juros no Brasil vão demorar a cair. Em geral, demoram de cinco a seis meses, mas neste caso achamos que vai demorar dez meses, presumindo que agosto foi o último aumento da taxa. A outra é que ainda esperamos uma desaceleração da economia, afinal o objetivo de aumentar os juros é desinflar a atividade, mas está acontecendo exatamente o oposto. Então, dadas essas duas questões, achamos que muito desse movimento, principalmente relacionado aos investidores domésticos, já aconteceu. E agora estamos entrando em um período que é tipicamente reconhecido como mais turbulento, já que historicamente o Brasil tem performance inferior à dos pares durante eleições.
Isso já está acontecendo?
Cherman: Segundo o estudo que fizemos em relação à performance de Brasil em ciclos eleitorais, nos seis meses que antecedem as eleições o Brasil tem uma performance pior que os mercados emergentes como um todo em 11%. Desta vez, com quatro meses de ciclo, o Brasil está apenas 3,7% pior que mercados emergentes. Isso mostra que as eleições ainda podem pesar no período pré-eleitoral. Por outro lado, o estudo mostra que no ciclo como um todo [seis meses antes e seis meses depois das eleições] a performance do Brasil tende a ser igual à dos mercados emergentes, isto é, o Brasil se recupera depois do pleito. No ano, o índice de mercados emergentes está caindo 18,5% (influenciado por China) e o índice MSCI Brasil sobe 10%.
Como o J.P. antevê o impacto da eleição nos negócios?
Cherman: Ao contrário do que aconteceu no Chile e na Colômbia, acredito que o mercado trabalha com a possibilidade de que qualquer um dos dois [candidatos à frente nas pesquisas, o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva] pode ganhar e que ambos devem ser moderados, apesar de sabermos muito pouco hoje sobre as políticas que serão seguidas em 2023, principalmente no âmbito fiscal. As discussões hoje no mercado são muito mais avançadas em relação ao pós-eleição. As discussões para o pré-eleição e mesmo entre o primeiro e o segundo turno — de como a eleição funciona — são muito menos faladas do que o pós.
O cenário fiscal ganha protagonismo depois?
Cherman: Exato. E outra coisa é que, até pouquíssimas semanas antes das eleições do Chile e da Colômbia, o mercado não foi afetado pela política. Mas, chegando mais perto, duas ou três semanas antes, começou a ser um fator importantíssimo. Existe uma grande diferença: no Chile e na Colômbia havia um candidato que era claramente o preferido do mercado e, hoje, no Brasil, isso é um pouco menos evidente, mas há menos clareza em relação ao pós-eleição. As propostas nas eleições do Chile e da Colômbia eram muito mais claras.
Há uma diferença de temperatura nas discussões com os investidores locais e com os estrangeiros sobre a eleição?
Cherman: Os locais querem saber o que os estrangeiros pensam. E os estrangeiros trabalham com moderação, principalmente do lado do Lula. Os grandes argumentos deles são: já vimos o Lula moderado antes; e, tipicamente na América Latina, as campanhas são de esquerda, mas o governo é mais de centro. Nós vemos claramente isso acontecer no Chile e na Colômbia, onde os eleitos de esquerda escolheram para ministro da Fazenda representantes que são alinhados ao mercado. No Chile, o Mario Marcel, que era o presidente do Banco Central, virou o Ministro da Fazenda e, na Colômbia, o mesmo aconteceu com a escolha do José Antonio Ocampo, que é um dos mais respeitados economistas da América Latina. Isso pode apaziguar o mercado ou dar mais clareza sobre a grande incerteza em relação ao aspecto fiscal que a gente tem.
Como isso afeta o fluxo estrangeiro para a bolsa local?
Cherman: O fluxo internacional é 50% da história da bolsa brasileira e agora vemos um ‘valuation’ extraordinário, que eu só vi na eleição do Lula em 2002 e na crise de 2008. Então é uma grande oportunidade, se pudermos assumir que não haverá nenhum tipo de ruptura institucional ou de política econômica. Mas a volatilidade por conta do período eleitoral é muito comum, ocorre em todos os países e gera uma pressão no mercado. Não havendo ruptura, a política não é um impeditivo para a bolsa brasileira subir.
Mas a visão do estrangeiro é construtiva neste momento?
Cherman: O Banco Central foi muito importante. O nosso protagonismo nas conversas com estrangeiros não seria tão grande se não fosse pelo ciclo de aperto monetário. Além disso, a partir do momento em que você vai construir um portfólio baseado em mercados emergentes e o seu posicionamento não é muito otimista com a China, não existem muitas outras opções no mercado internacional. O Brasil desponta como válvula de escape para o investidor que não quer estar muito concentrado em China. A segunda opção seria a Arábia Saudita, mas ela é mais cara que o Brasil. Somos a primeira opção em um cenário em que as posições em China ou Ásia em geral não são tão fortes.
Qual pode ser o impacto da China na bolsa local?
Cherman: Temos expectativa de que a China cresça 7% na segunda metade deste ano em comparação com a primeira metade. Obviamente tem sido pior do que a gente esperava, principalmente depois do índice de gerentes de compras [PMI, na sigla em inglês] de julho, que reduziu bastante após ter mostrado grande melhora com a reabertura da economia em junho. E o mercado ainda avalia o emprego de estímulos na economia do país. Dito isso, acreditamos que as commodities podem permanecer no nível em que estão, o que é muito positivo para as empresas brasileiras do setor.
E como isso afeta a leitura do banco para o Brasil?
Cherman: Ainda temos uma expectativa estrutural a favor de empresas de ‘value’ [de valor]. Na nossa visão, commodities, bancos, empresas do setor elétrico e bens de consumo não discricionário são os que aparecem mais baratos na bolsa local. Também temos uma boa avaliação de shoppings, porque o setor está descontado em relação ao histórico e se beneficia do fechamento da curva de juros, apesar de acharmos que o Banco Central vai demorar a cortar as taxas. Ainda preferimos as empresas que se caracterizam por serem baratas, que têm valor, especialmente relativo àquelas que são caracterizadas por crescimento. Mas, como temos o Fed dando mais visibilidade recentemente, podemos ver ações de empresas de tecnologia performando ainda em 2022.
E qual a sua visão para o próximo ano?
Cherman: Dificilmente será mais desafiador que 2022. Em 2023, não devemos ter uma surpresa de crescimento como tivemos em 2022, porque teremos um cenário de juros mais pesado no mundo. Localmente, estamos bem em comparação às outras bolsas do mundo, mas devíamos ter tido muito menos volatilidade do que a que estamos vendo. Depois de uma performance acima do previsto no primeiro trimestre, fomos uma das piores bolsas do mundo no segundo trimestre e agora estamos procurando o equilíbrio. Mas temos uma visão positiva.
Fonte: Valor Econômico
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