Por Mariana Ribeiro — De São Paulo
26/04/2022 05h03 Atualizado 26/04/2022
Em linha com a expansão dos sistemas de pagamentos instantâneos ao redor do mundo, o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) se prepara para implementar o FedNow. O instrumento, previsto para ser lançado no ano que vem, carrega muitas semelhanças com o Pix brasileiro, mas especialistas apontam que há diferenças importantes entre os modelos, a começar pelo contexto em que foram criados e as funções priorizadas.
Assim como o Pix, lançado em novembro de 2020 pelo Banco Central brasileiro, o FedNow estará disponível para instituições financeiras de diferentes portes e permitirá pagamentos em tempo real, 24 horas por dia, todos os dias. A implementação será feita em fases e a ideia é que tanto pessoas físicas quanto jurídicas possam transacionar recursos.
O modelo é parecido com o implementado no Brasil, mas terá a concorrência de sistemas instantâneos de instituições privadas já existentes nos EUA. Um deles é o Zelle, que funciona desde 2017 e é controlado por grandes bancos.
O desenho elaborado pelo Fed inclui bancos menores e digitais, demanda antiga desses grupos. Há mais de 10 mil instituições financeiras nos EUA. Recentemente, a secretária do Tesouro, Janet Yellen, chamou atenção para as mudanças que o FedNow pode trazer. “Para muitos americanos, a maioria das transações ainda demora muito para ser liquidada”, destacou.
Estudo feito pela ACI Worldwide, em parceria com a GlobalData e o Centro de Pesquisa Econômica e Empresarial (Cebr), mostra que, nos EUA, as transações instantâneas representaram apenas 1% das operações realizadas em 2021 no país e a expectativa é que cheguem a 4% em 2026. No Brasil, a participação foi de 5% e a projeção é que avance para 34% em cinco anos.
Para Leonardo Escobar, líder para a América Latina da ACI Wordwide, o Fed tem um propósito diferente do BC brasileiro. Enquanto aqui a inclusão financeira está entre os principais objetivos, lá o regulador busca principalmente a adoção do sistema por pequenas e médias instituições.
Outra diferença é que, nos EUA, a tendência é que a adesão de grandes instituições não seja obrigatória. Ricardo Pandur, gerente sênior de estratégia de negócios da Accenture, diz que, no Brasil, o BC atuou como protagonista, chamando o mercado para a discussão. O Fed, por sua vez, adota um papel mais de supervisão.
Aqui, o BC estabeleceu que instituições com mais de 500 mil contas de clientes ativas teriam de participar do sistema. “Mas não combina muito com o jeito americano obrigar os bancos a entrar e isso pode ser até uma ameaça à expansão do FedNow”, avalia Carlos Netto, CEO da Matera, empresa de tecnologia para serviços financeiros.
A Matera está expandindo sua atuação para os EUA de olho no FedNow e em outras opções de pagamentos. A companhia está entre os 74 fornecedores de soluções para o sistema do BC americano. “Pode ser interessante para os bancos grandes entrar, mas não estou apostando minha vida no sistema como fiz com o Pix”, diz Netto.
Professor de Direito do mercado financeiro e de capitais do Insper, Eduardo Dotta acredita que a adesão ao FedNow deve ocorrer com o tempo, mesmo que de forma menos acelerada que no Brasil. “Mesmo que não seja obrigatória, acaba sendo uma tendência.”
Fonte: Valor Econômico
