Por Anaïs Fernandes, Valor — São Paulo
02/03/2023 13h57 · Atualizado há 20 horas
A desaceleração da atividade observada ao longo de 2022 e, principalmente, no último trimestre do ano passado dá indícios do que esperar para 2023: um PIB enfraquecendo na esteira de condições financeiras mais apertadas, aponta Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander.
O banco, que cravou a queda de 0,2% do PIB no quarto trimestre de 2022, ante o terceiro, e o crescimento acumulado de 2,9% no ano passado, espera uma alta de 0,8% para 2023. Consumo e serviços devem desacelerar, embora continuem crescendo, segundo Vescovi. “É uma dinâmica de desaceleração, cujos fatores que observamos em 2022 começam a arrefecer e vem um novo fator, que é a agropecuária”, diz.
O Santander projeta 7% de crescimento para o PIB agro neste ano, após queda de 1,7% em 2022. Até por isso, Vescovi diz não contar, por enquanto, com a possibilidade de uma queda da atividade neste primeiro trimestre, o que configuraria uma recessão técnica — dois trimestres de retração do PIB seguidos. “Temos essa perspectiva de primeiro trimestre mais forte, mas depois disso essa desaceleração cíclica pelo aperto das condições vai ficar mais clara”, afirma a economista.
Ex-secretária do Tesouro Nacional, Vescovi reforça que é preciso reduzir as incertezas em torno do horizonte fiscal do país, para que a percepção de risco sobre o Brasil, que, segundo ela, está muito alta, também diminua. “Isso se reflete em redução de prêmios de riscos, ajuda a curva de juros a ficar mais comportada e é isso que, na verdade, vai ajudar a reativar a economia. Não é o Banco Central que faz esse trabalho, ele só faz a leitura desse processo e ocupa os espaços dados em termos de fixação da Selic”, afirma.
O Santander projeta uma inflação de 5,9% neste ano, vindo de 5,8% em 2022, e possibilidade de corte da Selic apenas em novembro. “Mas isso a observar a evolução das variáveis de mercado que expressam qual a percepção de risco geral sobre a economia brasileira. Lembrando que não adianta quebrar a régua, é importante ter o termômetro”, afirma Vescovi.
A seguir os principais trechos da entrevista:
Valor: Qual o destaque do resultado do PIB do 4º trimestre de 2022 e do ano passado como um todo?
Ana Paula Vescovi: O PIB veio em linha com o que esperávamos, a gente tinha uma estimativa de -0,2% no último trimestre e de fechamento do ano de 2,9%, foi exatamente o que veio. Portanto, o PIB cresceu, em 2022, acima das nossas estimativas do seu potencial. Por isso, há a persistência de pressões inflacionárias. Esse crescimento do ano passado veio em função de um rescaldo, ainda, da reabertura do setor de serviços, que foi super importante para o resultado de 2022. Veio também no rescaldo de uma construção civil muito forte, que chegou a crescer dois dígitos em 2021, desacelerou agora, mas ainda registrou um crescimento importante de 6,9%. E também por setores mais ligados a utilidades públicas, como serviços de água, esgoto, energia elétrica, que tiveram um crescimento importante de 10% no ano passado. Teve certa frustração da safra, que era um componente que a gente acreditou, no ano passado, que pudesse amortecer o excesso de desaceleração ou explicar o processo de crescimento, mas vimos, por questões climáticas, perdas importantes, principalmente na soja. Uma observação: a demanda doméstica foi um componente importante, mas o setor externo também ajudou em 2022.
Valor: O que esperar para o PIB deste ano?
Vescovi: Um aspecto importante é observar a desaceleração do PIB ao longo dos trimestres de 2022, culminando nesse número levemente negativo no último trimestre. Isso está muito em linha com o aperto de condições financeiras que foi acontecendo durante o ano. Teve um fator no terceiro trimestre de 2022 que ajudou a atenuar, que foi um impulso fiscal extraordinário maior. As despesas do governo aumentaram muito, mas já desaceleraram no último trimestre. Isso dá um certo indício do que esperar para 2023, na esteira desse aperto das condições financeiras, que é um PIB desacelerando. A gente espera que saia de 2,9% para 0,8%, muito em função de uma contribuição menor do crescimento de serviços e consumo das famílias. Acreditamos que eles vão continuar crescendo. Temos estimativa da massa salarial real crescendo aproximadamente 2,5%. Então, acreditamos ainda em um ano com consumo positivo, o que será um atenuante para a desaceleração do ano. E acho que neste ano poderemos contar com a super safra. Os dados do IBGE no momento trazem um crescimento da safra de grãos de dois dígitos, bastante forte. Entendemos que sempre tem alguma quebra durante o processo de colheita, problemas climáticos podem ocorrer, mas nossa estimativa é de um crescimento do PIB agro neste ano de 7%, acima da economia. Mas contamos também com uma desaceleração das atividades mais cíclicas, muito em linha com o que comentei do aperto das condições financeiras. Isso é importante porque se trata da política de controle da inflação. Vemos um mercado de trabalho apertado nesse primeiro semestre, mas começando a atenuar na segunda metade do ano. Em resumo, é uma dinâmica de desaceleração, cujos fatores que observamos em 2022 começam a arrefecer e vem um novo fator, que é a agropecuária.
Valor: Podemos ter uma queda do PIB também neste primeiro trimestre de 2023?
Vescovi: A gente acha que vai ter um PIB levemente positivo, muito em função do PIB agrícola. Isso é importante para o primeiro trimestre. Temos essa perspectiva de primeiro trimestre mais forte, mas depois disso essa desaceleração cíclica pelo aperto das condições vai ficar mais clara.
Valor: Você mencionou o crescimento da massa salarial real ampliada. Medidas do governo como reajuste do salário mínimo e novos pagamentos dentro do Bolsa Família contribuem para isso? Não atrapalha o processo de desinflação?
Vescovi: Tudo isso já estava na conta dos agentes. O que devemos comentar, talvez, é um fator que está pesando sobre as expectativas futuras de inflação, que é uma percepção ainda forte de risco fiscal. Na medida em que esses fatores também contribuem para o aumento da despesa pública — nossa estimativa é que o aumento real das despesas primárias neste ano será de 4% —, isso exerce uma pressão sobre expectativas de inflação. Isso torna mais difícil o trabalho do Banco Central de controle da inflação. A gente precisa ter mais clareza. É importante ter uma redução da incerteza quanto à trajetória da dívida pública, em função de um ajuste fiscal mais de longo prazo. E aí estamos todos aguardando como vai ficar a configuração do novo marco fiscal porque isso será uma fonte de discussão para a gente modular essas expectativas.
Valor: Qual é a expectativa para essa nova regra fiscal?
Vescovi: Todos nós, inclusive o governo, gostaríamos de ter um ajuste mais rápido. Eu já fui do governo e não conseguimos fazer um ajuste rápido. Conseguimos fazer uma regra que ajudasse na redução da percepção de risco e na convergência de expectativas. E isso foi importante, convivemos com juros baixos nesse período por causa da redução dos prêmios de risco. O que a gente espera é que tenha uma regra de controle de gastos. Tivemos inflação muito alta no período recente, juros reais negativos no período da pandemia e logo imediatamente após, isso ajudou a desbastar o crescimento da dívida pública. Ela está fechando o ano um pouco acima de 72% do PIB — o PIB nominal divulgado hoje deve trazer uma leve correção na estatística de dívida bruta, que deve ficar um pouco abaixo de 73% do PIB. Isso é um bom ponto de partida, a dívida que chegou a 85% do PIB voltou para o patamar pré-pandemia. Esse ponto de partida seria um fator a permitir que a gente tivesse, por uma regra de controle crível das despesas públicas, a possibilidade de reduzir os prêmios de risco, que estão muito altos. Se houver uma redução das incertezas, isso se reflete em redução de prêmios de riscos, ajuda a curva de juros a ficar mais comportada e é isso que, na verdade, vai ajudar a reativar a economia. Não é o Banco Central que faz esse trabalho, ele só faz a leitura desse processo e ocupa os espaços dados em termos de fixação da Selic. Precisamos gerar esses espaços para o BC poder fazer o trabalho de iniciar a redução das taxas de juros. No momento, a gente vê que isso só vai acontecer mais para o fim do ano.
Valor: Com a reoneração parcial dos combustíveis, o governo tem falado que espera criar esses espaços para o BC cortar juros. O que acharam da medida?
Vescovi: Ficou bem dentro da nossa estimativa. Praticamente não altera nosso cenário de de 5,9% para o IPCA neste ano, porque a gente acreditava que seria uma reoneração gradual, mais focada em gasolina e isso realmente aconteceu. Ressalto que, dado que fechamos o ano passado com IPCA de 5,8%, não temos desinflação esperada para esse ano. É mais ou menos o mesmo patamar de inflação, embora, na média, a inflação deste ano seja menor do que a do ano passado, que partiu de um nível maior para chegar a 5,8%.
Valor: Por que essa desinflação não acontece apesar dos juros tão altos?
Vescovi: O Valor divulgou um estudo muito interessante hoje que tentou fazer uma mensuração do que a teoria já fala: quando você tem expectativas de inflação majoradas, isso tende, sim, a se reproduzir em termos de repasses para preços. As empresas tendem a usar as expectativas de inflação para reajustar seus preços, para trazer viabilidade para seus fluxos de caixa. O que forma a expectativa de inflação, no curto prazo, são fatores dados, como reajuste de contratos de preços administrados e a parte cíclica, de preços livres, em resposta às condições de oferta e demanda. No médio-longo prazo, é a capacidade da política monetária de reagir a esses fatores, contendo a demanda. Então, se as expectativas de inflação estão convergindo para níveis mais altos do que a meta – e é isso que está acontecendo, uma certa desancoragem -, é uma janela que se fecha para o BC reagir. Além disso, temos dados recentes sobre a economia dos Estados Unidos rodando em um ritmo bem apertado de demanda acelerada. Isso trouxe para os agentes a expectativa de que o Fed [Federal Reserve, o banco central americano] pode ter de ir um pouco mais à frente. O juro lá ficando mais alto puxa um canal de resistência também para redução de juro no Brasil. Mas, de novo, se a gente conseguisse ter uma redução de incertezas domésticas, se tiver, por exemplo, um reforma tributária aprovada com um desenho bastante importante para a redução de custos de transação e ineficiências da nossa economia, se tiver aprovação de um marco fiscal que tenha uma regra de contenção de despesas e o “enforcement” necessário para cumprimento dessa regra, a gente tem condições de ter uma redução grande dos prêmios de risco.
Valor: Vocês veem espaço para corte da taxa Selic quando neste ano?
Vescovi: Pelas atuais condições de mercado e os eventos recentes, inclusive externos, acreditamos que o BC só vai poder reduzir a Selic na reunião de novembro. Mas isso a observar a evolução das variáveis de mercado que expressam qual a percepção de risco geral sobre a economia brasileira. Lembrando que não adianta quebrar a régua, é importante ter o termômetro, que são os mercados que revelam para a gente o risco percebido sobre a economia brasileira, para que a gente possa reduzir esse risco. Não adianta quebrar o termômetro, o risco não vai sair.
Fonte: Valor Econômico