A economia dos Estados Unidos cresceu a uma taxa anualizada de 3,8% no segundo trimestre, uma revisão de 0,5 ponto percentual em relação à estimativa anterior, segundo dados do Departamento de Comércio divulgados ontem. O resultado, o melhor em quase dois anos, também veio acima da expectativa de economistas, que esperavam um avanço de 3,3%.
Os dados mais recentes do Produto Interno Bruto (PIB) confirmam que a economia se recuperou entre abril e junho, depois da queda de 0,6% no primeiro trimestre, em parte causada pela corrida das empresas para reforçar seus estoques antes da entrada em vigor das tarifas comerciais impostas pelo presidente Donald Trump.

O crescimento no segundo trimestre foi puxado pelos gastos do consumidor — principal motor da economia americana —, que avançaram a uma taxa anualizada de 2,5% ante 1,6% da estimativa anterior. A revisão para cima refletiu o aumento das despesas com serviços de transporte, assim como com serviços financeiros e seguros.
O investimento das empresas se expandiu a uma taxa de 7,3%, impulsionado pelos maiores gastos com produtos de propriedade intelectual desde 1999. O investimento em data centers, que abrigam a infraestrutura para a inteligência artificial, bateu um novo recorde e chegou a mais de US$ 40 bilhões em uma base anualizada.
Stephen Stanley, economista-chefe do Santander para os EUA, observou que a média de crescimento do PIB foi de 1,6% no primeiro trimestre de 2025 e a dos gastos do consumidor, de 1,5%. “Isso não é ótimo, mas é muito melhor do que se pensava inicialmente”, disse ele.
Como as oscilações no comércio e nos estoques distorceram o PIB deste ano como um todo, os economistas têm prestado mais atenção às vendas finais para compradores domésticos privados, um indicador mais restrito da demanda do consumidor e do investimento das empresas. Essa medida foi revisada para cima em um ponto porcentual completo, para 2,9%.
Apesar dos resultados, economistas estimam uma desaceleração no segundo semestre do ano devido ao impacto persistente da política comercial de Trump, assim como das deportações em massa, que estão prejudicando o crescimento do emprego por meio da redução da oferta de mão de obra.
“Apesar do ganho moderado esperado do PIB real no terceiro trimestre, puxado pelos gastos dos consumidores, investimentos em IA e oscilações bruscas no comércio internacional, o crescimento deve desacelerar no segundo semestre”, disse Lydia Boussour, economista da EY-Parthenon.
As estimativas de crescimento para o terceiro trimestre estão convergindo para uma taxa anualizada de 2,5%, segundo a Reuters. Mas há analistas mais pessimistas, como os ouvidos pela FactSet, que estimam um avanço de apenas 1,5%.
Um dos motivos são as revisões para baixo significativas nas estimativas de lucros das empresas no último trimestre, sugerindo que elas não estão repassando os custos com as tarifas aos consumidores. Economistas vêm alertando que uma compressão das margens de lucros poderia pressionar o mercado de trabalho.
“O impacto nas margens de lucro das empresas tem sido pequeno, o que é fundamental. Mas se elas diminuírem, cresceriam as chances de um aumento significativo nas demissões”, avaliou Ryan Sweet, economista-chefe da Oxford Economics para os EUA.
Outros dados referentes ao mês de agosto e também divulgados ontem mostram que as encomendas de equipamentos para empresas cresceram em um ritmo sólido, enquanto o déficit comercial de mercadorias diminuiu mais do que o previsto. Na semana passada, os pedidos iniciais de auxílio-desemprego caíram para o nível mais baixo desde julho.
“Os dados mais recentes sobre o PIB e os pedidos de auxílio-desemprego devem amenizar a crise de ansiedade provocada pelo fraco relatório de agosto sobre empregos e pelas revisões para baixo dos dados de referência de empregos”, escreveu em uma nota Bill Adams, economista-chefe do Comerica Bank. “As contratações estão em marcha lenta em 2025, mas o crescimento econômico é resiliente e o mercado de trabalho não parece ter enfraquecido em setembro.”
Segundo Adams, isso dificilmente garante que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) cortará as taxas de juro em cada uma das duas reuniões que ainda terá este ano, como algumas autoridades previram recentemente. Vários membros do Fed continuam cautelosos, dada a persistência da alta inflação.
Os dados revisados mostraram que o indicador de inflação preferido do Fed, o índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês), que exclui itens voláteis como alimentos e energia — também registrou um aumento no segundo trimestre, para 2,6%.
A expectativa é que os dados mensais do PCE, que serão divulgados hoje, apontem que o indicador avançou quase 3% em agosto em base anual.
Fonte: Valor Econômico
