Por Anaïs Fernandes e Marta Watanabe — De São Paulo
28/08/2023 05h01 · Atualizado há 5 horas
O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil deve mostrar um comportamento bem diferente no segundo trimestre do ano daquele observado no primeiro. Não só a atividade registrará desaceleração significativa, como os fatores que darão contribuições positivas e negativas são quase inversos na comparação entre os períodos, apontam economistas.
O PIB deve passar de um crescimento de 1,9% no primeiro trimestre do ano, em relação aos três meses imediatamente anteriores, para alta de apenas 0,3% no segundo trimestre, com ajuste sazonal, de acordo com a mediana das projeções de 74 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor.
Na comparação com o mesmo período de 2022, a alta esperada é de 2,6%, pela expectativa mediana de 69 casas, também uma desaceleração ante o salto interanual de 4% do primeiro trimestre.
Os dados oficiais serão divulgados pelo IBGE na sexta-feira, 1º.
Do lado da oferta, a agropecuária deve passar de uma alta de mais de 20% na comparação trimestral, por causa da supersafra, para uma queda de 3,5%, dada a elevada base de comparação. Em relação ao segundo trimestre de 2022, no entanto, o agro ainda deve subir 12%, demonstrando a força do setor.
A indústria e os serviços, por sua vez, devem subir 0,5% cada, ante queda de 0,1% e alta de 0,6%, pela ordem, no primeiro trimestre.
“A alternância de desempenhos é o destaque na passagem do primeiro para o segundo trimestre. O agro vai devolver parte da alta super forte, o que é normal. A indústria reagiu um pouco, com um crescimento moderado. O resultado mais surpreendente é o bom desempenho dos serviços. O setor não foi muito bem no primeiro trimestre e esperava-se que já estaria um pouco mais fraco”, afirma Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg. Ele projeta um PIB no segundo trimestre, ante o primeiro, em linha com a mediana.
Após a surpresa positiva da agropecuária no primeiro trimestre, Luca Mercadante, economista da Rio Bravo, olha para o setor com mais cautela. Para ele, o agro pode trazer, no segundo trimestre, uma surpresa mais negativa em relação à mediana das projeções.
Quando se observa o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), um dos indicadores que ajudam a dar uma “temperatura” para o PIB, há no trimestre uma “herança estatística” positiva de 0,4 ponto percentual, mas, com o agro, esse resultado fica um pouco mais fraco, explica Mercadante.
Por isso, a gestora estima queda de 0,2% no PIB do segundo trimestre, em relação aos três meses anteriores. Essa cautela maior em relação ao agro também faz diferença, segundo Mercadante, para o projeção do PIB no ano, de 1,9%.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2023/Q/W/8lgWPNTweY2HIV8OoVBA/arte28bra-102-vdpib-a4.jpg)
Para 2023, a expectativa mediana colhida pelo Valor é de alta de 2,3%, em linha com a pesquisa Focus, do Banco Central, mas, para 2024, já está um pouco acima: 1,5%, ante 1,3%.
O comportamento dos serviços contribui para um viés positivo na projeção da Rio Bravo para o PIB do segundo trimestre, reconhece Mercadante.
“O resultado do setor de serviços tem se mostrado muito resiliente, trazendo todo mês um surpresa. Na verdade, parece que a expectativa para o PIB agregado do segundo trimestre converge para perto da estabilidade, mas estamos na ponta negativa”, afirma.
Em uma ponta mais otimista, Claudia Moreno, economista do C6 Bank, projeta crescimento de 1,1% para o PIB do segundo trimestre, na comparação com os três meses anteriores. Essa alta, diz, é puxada por crescimentos de 1,1% na indústria e de 0,9% em serviços.
Uma hipótese é que esses desempenhos possam vir da agroindústria que, com o salto do primeiro trimestre, pode ter elevado a demanda por transporte, escoamento e processamento da safra de grãos. “Temos confiança de que a atividade venha acima da mediana do mercado”, afirma Moreno.
Do lado da demanda, também deve ocorrer uma “troca de papéis”. Apesar do resultado surpreendente do PIB no primeiro trimestre, a demanda doméstica caiu 0,5%, lembra Serrano, do Bmg, porque o consumo das famílias foi fraco, e a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida para os investimentos no PIB), ainda mais.
“Boa parte do resultado se deveu às exportações líquidas. O setor externo deu uma contribuição positiva bem forte para o PIB. No segundo trimestre, deve acontecer o inverso”, diz Serrano.
Em linha com alguma resiliência em serviços, o consumo das famílias deve avançar mais no segundo trimestre: 0,6%, de acordo com a mediana das expectativas, após subir apenas 0,2% de janeiro a março. O crescimento, no entanto, deve acontecer “mais por intervenção do que pela dinâmica econômica propriamente dita”, diz Serrano, citando medidas do governo como a antecipação do 13º salário de aposentados e pensionistas e o aumento do salário mínimo. O programa de estímulo à venda de veículos deve ter tido algum impacto no fim do segundo trimestre, mas deve deixar uma carga positiva mais para o terceiro, acrescenta o economista.
A FBCF também esboça alguma recuperação, com alta prevista de 0,7% para o segundo trimestre, depois de cair 3,4% no período imediatamente anterior.
“Ela não será tão fraca quanto no primeiro trimestre em razão da recuperação marginal da indústria, da produção de caminhões e ônibus. A construção civil não foi bem, mas não deve ter uma queda suficiente para mitigar o bom desempenho da produção de bens de capital”, diz Serrano.
Além disso, diferentemente do que aconteceu no primeiro trimestre, as importações devem crescer mais do que as exportações – 5% e 2,6%, respectivamente. Assim, a expectativa é que a absorção doméstica – soma do consumo, dos investimentos e dos gastos do governo – possa voltar a dar contribuição positiva para o PIB, enquanto o setor externo terá um efeito levemente negativo, aponta Serrano.
“Por incrível que parece, a demanda doméstica deve crescer no segundo trimestre, enquanto o que se esperaria era uma desaceleração ainda maior por causa dos efeitos defasados da política monetária”, afirma.
Olhando à frente, a projeção mediana de 63 casas é que o PIB tenha ligeira contração, de 0,1%, no terceiro trimestre, ante o segundo.
Algumas casas têm uma projeção de PIB ligeiramente positiva ou negativa, mas, na média, é perto de zero, resume Serrano. “No curtíssimo prazo, há o efeito para o varejo das medidas do governo. Mas são coisas pontuais, esses programas acabam gerando mais uma antecipação de processos do que uma recuperação consistente”, afirma. Ao longo do segundo semestre, acrescenta, os setores devem flutuar em torno de uma tendência de zero.
“Acho que a desaceleração é consenso. A dúvida, entre economistas, é quantificar essa desaceleração. Alguns acham que o Desenrola [programa do governo para renegociação das dívidas das famílias], ao reduzir a negativação dos consumidores, pode colocá-los de volta no mercado de crédito e, portanto, estimular o consumo. Mas não vemos muito motivo para corrigir nossos números”, diz Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV.
Sua projeção para o PIB do segundo trimestre está em linha com a mediana, mas, para 2023, o banco espera um avanço menor do PIB, de 1,8%. “O risco que torna a gente um pouco mais conservador nas projeções é o global”, diz Padovani, citando desacelerações importantes da atividade na Europa e na China e, em menor ritmo, nos Estados Unidos.
Isso, segundo ele, afeta a economia brasileira por dois canais: pelas commodities e, mais importante, pela redução do fluxo financeiro para mercados emergentes. “O efeito prático é que parece haver um alívio financeiro para as empresas e as famílias que será gradual. É uma história que vale já para o segundo semestre deste ano e o primeiro semestre do ano que vem”, afirma.
Até o fim do ano, Mercadante, da Rio Bravo, diz esperar que os efeitos da política monetária contracionista, que já aparecem no mercado de crédito, fiquem mais claros. Ele lembra que, apesar do início do corte de juros em agosto, a Selic permanecerá em níveis elevados. “Quando acabar o excesso de poupança, o impacto da política monetária deve chegar ao mercado de trabalho, o que pode trazer uma atividade mais fraca”, afirma. Por isso, diz, é preciso acompanhar os impulsos fiscais, porque “alguma surpresa” ainda pode vir do governo.
Fonte: Valor Econômico
