O petróleo recuperou parte das perdas após ultrapassar brevemente a faixa dos US$ 100 por barril, enquanto as maiores economias do mundo discutem uma liberação coordenada de reservas estratégicas. Ao mesmo tempo, a paralisação do tráfego de petroleiros pelo Estreito de Hormuz, uma rota vital, está estrangulando o fornecimento para o restante do mundo.
O West Texas Intermediate (WTI) chegou a subir até 31% mais cedo nesta segunda-feira (9) e era negociado em alta de quase 6%, perto de US$ 96 por barril. Os preços reduziram os ganhos depois que ministros de Finanças do G7 afirmaram estar prontos para tomar medidas necessárias para apoiar a oferta global de energia, incluindo a liberação de reservas estratégicas — embora o grupo ainda não tenha decidido agir.
A capacidade de armazenamento está ficando cada vez mais escassa no Oriente Médio. A Arábia Saudita começou a reduzir a produção de petróleo à medida que seus tanques se aproximam do limite, segundo uma pessoa familiarizada com a situação, seguindo movimentos semelhantes em países vizinhos. O reino tem desviado parte da produção por um oleoduto até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, mas não possui capacidade suficiente para substituir totalmente os volumes que normalmente passam por Hormuz.
A guerra no Oriente Médio não mostra sinais de arrefecimento após os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã há mais de uma semana, aumentando temores de uma nova crise inflacionária. A interrupção do transporte marítimo em Hormuz — por onde normalmente passa cerca de um quinto do petróleo mundial — e ataques a infraestruturas energéticas também elevaram os preços do gás natural e do diesel.
Kuwait e Emirados Árabes Unidos começaram a reduzir a produção no fim de semana à medida que os estoques se enchem rapidamente devido ao fechamento da rota marítima. O Iraque iniciou cortes na produção na semana passada. No pico do movimento, o Brent, referência global, chegou a disparar até 29%.
O presidente dos EUA, Donald Trump, comentou a alta do petróleo em uma postagem noturna na rede Truth Social, dizendo que os movimentos de curto prazo são “um preço muito pequeno a pagar” para os Estados Unidos, o mundo e a paz. Segundo ele, os preços cairão rapidamente “quando a destruição da ameaça nuclear iraniana terminar”.
O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que uma missão de escolta naval para navios no Estreito de Hormuz poderá ser possível quando a fase mais intensa da guerra terminar.
“Quanto mais tempo o estreito permanecer fechado, maior será a paralisação da produção, exigindo preços substancialmente mais altos para reduzir a demanda”, disse Giovanni Staunovo, analista de commodities do UBS.
Mais de uma dezena de países já foram arrastados para o conflito, e Trump indicou que pretende ampliar a ofensiva. Em uma publicação nas redes sociais no sábado, afirmou que os EUA podem considerar atacar áreas e grupos no Irã que antes não estavam entre os alvos. A declaração veio após o presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmar que o país não irá recuar.
O Irã nomeou o filho do aiatolá Ali Khamenei como novo líder supremo, segundo a agência semioficial Fars, enquanto a Guarda Revolucionária prometeu lealdade ao novo dirigente. Paralelamente, o Departamento de Estado dos EUA ordenou que funcionários e diplomatas americanos deixassem a Arábia Saudita, citando riscos de segurança.
Em um movimento incomum, a Saudi Aramco ofereceu barris para entrega imediata por meio de licitações, incluindo cargas de um superpetroleiro próximo a Taiwan. A empresa normalmente vende petróleo apenas por contratos de longo prazo — um sinal de que produtores estão adotando medidas extraordinárias para manter o mercado abastecido.
Um petroleiro também parece ter cruzado o Estreito de Hormuz com o sinal de satélite desligado nos últimos dias. É uma das primeiras grandes embarcações a realizar a travessia, enquanto a maioria dos armadores ainda evita a rota.
Os cortes de produção no Oriente Médio podem superar 4 milhões de barris por dia até o fim da próxima semana, à medida que os estoques se esgotam e gargalos logísticos persistem, escreveram analistas do JPMorgan, liderados por Natasha Kaneva, em relatório de 8 de março. A região responde por cerca de um terço da produção global.
“No momento, o maior temor ainda é a interrupção do fluxo por Hormuz”, disse Haris Khurshid, diretor de investimentos da Karobaar Capital. “Paralisações de produção importam, mas o mercado realmente teme barris que simplesmente não conseguem chegar ao destino.”
O aumento dos preços da energia já começa a se espalhar pela economia, especialmente em combustíveis como o diesel.
A China ordenou que suas principais refinarias suspendessem exportações de diesel e gasolina, enquanto a Coreia do Sul avalia impor um teto para os preços do petróleo pela primeira vez em 30 anos. A Índia disse que não pretende liberar reservas estratégicas nem aumentar, por ora, os preços de gasolina e diesel. Já a refinaria Dangote, na Nigéria, vai priorizar o abastecimento do mercado doméstico.
Nos Estados Unidos, o preço da gasolina nos postos atingiu o nível mais alto desde 2023, representando um desafio político para Trump e seu partido nas eleições legislativas de meio de mandato neste ano. No Reino Unido, o primeiro-ministro Keir Starmer levantou a possibilidade de intervenção para ajudar famílias afetadas por contas de energia mais caras.
Em sinal da forte pressão no curto prazo, o spread imediato do Brent — diferença entre os dois contratos mais próximos — chegou a US$ 9,82 por barril. Normalmente essa diferença é de apenas alguns centavos e, na segunda-feira, atingiu o maior nível desde 2013.
Fonte: Capital Aberto
