Quem observa os preços dos barris de petróleo Brent e WTI — referências global e americana da commodity, respectivamente — sendo negociados na faixa dos US$ 100 pode acabar subestimando a dimensão do choque atual nos mercados de energia. Isso porque as referências de petróleo no Oriente Médio, como as de Omã e Dubai, por exemplo, já são negociadas acima dos US$ 150 o barril, o que, na visão do J.P. Morgan, reflete com maior precisão o tamanho da disrupção no mercado físico de petróleo.
Segundo a equipe de estratégia global de commodities do banco americano, apesar de possivelmente o mundo estar diante de um dos maiores choques exógenos de oferta da história recente, os preços ocidentais de referência do petróleo permaneceram relativamente contidos, com o Brent negociando próximo de US$ 100 o barril e o WTI em torno de US$ 95.
“À primeira vista, isso poderia ser interpretado como complacência do mercado. Uma análise mais cuidadosa, no entanto, sugere um desalinhamento entre os preços de referência e a geografia da disrupção”, afirmam Natasha Kaneva, Lyuba Savinova e Artem Fakhretdinov, do J.P. Morgan.
A questão central, para os analistas, é a de que tanto o Brent quanto o WTI são referências da Bacia do Atlântico, enquanto o choque atual está concentrado no Oriente Médio. Assim, os benchmarks acabam sendo desproporcionalmente influenciados por fundamentos regionais, que permanecem relativamente favoráveis.
Os estrategistas notam que tanto os EUA quanto a Europa entraram em 2026 com níveis confortáveis de estoques comerciais, ao mesmo tempo em que a Bacia do Atlântico, de forma mais ampla, segue relativamente bem abastecida no curto prazo. Além disso, a expectativa de liberações da reserva estratégica de petróleo (SPR) tem contribuído para reduzir a pressão de curto prazo nos mercados atrelados ao Brent e ao WTI.
Assim, para a equipe de commodities do J.P. Morgan, a aparente estabilidade do Brent e do WTI não deve ser interpretada como evidência de oferta global abundante, já que apenas reflete um colchão temporário criado pelo excesso de estoques regionais, pela composição dos benchmarks e por intervenções de política econômica.
“Caso o Estreito não seja reaberto, é improvável que essa divergência persista: Brent e WTI tendem, em última instância, a se reajustar para cima, à medida que os estoques da Bacia do Atlântico sejam consumidos e o mercado global passe a se equilibrar em um nível de oferta significativamente mais apertado”, afirmam.
“Em contrapartida, as referências do Oriente Médio, como de Dubai e Omã, oferecem um retrato mais fiel do desequilíbrio no mercado físico. Tanto o petróleo de Dubai quanto o do Omã à vista estão sendo negociados agora em torno de US$ 155 o barril, evidenciando a gravidade da escassez de barris originados no Golfo. Esses benchmarks estão diretamente expostos às interrupções nas exportações e, por isso, capturam com mais precisão a escassez marginal do que os petróleos atrelados ao Atlântico”, dizem os profissionais do J.P.
Segundo o banco, China, Índia, Japão e Coreia do Sul são os principais compradores de petróleo do Golfo. Ao todo, a Ásia absorve cerca de 11,2 milhões de barris por dia de petróleo bruto e 1,4 milhão de barris por dia de derivados que transitam pelo Estreito de Ormuz.
“Como resultado, o déficit físico imediato concentra-se nos mercados asiáticos, onde a dependência do petróleo do Golfo é maior. Já começam a surgir sinais inicais de destruição de demanda na Ásia, à medida que os preços dos derivados disparam e os barris no mercado à vista se tornam proibitivamente caros”, observam.
Fonte: Valor Econômico
