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A escalada dos preços de petróleo acima de US$ 100 o barril no fechamento da sessão de ontem, patamar que não era visto desde agosto de 2022, provocou revisões para cima nas expectativas de grandes bancos para a commodity e uma nova rodada de reprecificação de ativos, tanto locais quanto externos. Por aqui, a alta das cotações da commodity, vista como termômetro de risco da guerra contra o Irã, fez a bolsa tombar quase 3% e o dólar tocar os R$ 5,25 na máxima do dia. Lá fora, os principais índices acionários americanos fecharam com perdas de até 1,8%.
Ontem, a Agência Internacional de Energia (AIE) alertou que a atual interrupção na oferta de petróleo é a maior da história do mercado global, ao mesmo tempo que pesou sobre o preço da commodity a primeira declaração pública do novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei. Em comentários feitos na televisão estatal do país, ele afirmou que vingará a morte de outras lideranças e que o Estreito de Ormuz seguirá fechado.
No fim da sessão, o contrato mais líquido do petróleo Brent, com vencimento em maio, terminou cotado a US$ 100,46 por barril. Já o WTI (referência americana) com entrega prevista para abril subiu 9,72%, a US$ 95,73 por barril, no maior nível em três anos.
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Em meio à disparada dos preços da commodity, o Goldman Sachs alertou que os preços do petróleo podem superar o pico de 2008 caso os fluxos de produção permaneçam baixos. O banco projeta que o Brent fique em torno de US$ 76 e o WTI em US$ 72 no quarto trimestre se a interrupção no tráfego pelo Estreito de Ormuz durar 30 dias. Já se a disrupção se estender para 60 dias, a estimativa dos analistas é que o Brent fique em US$ 93, e o WTI, em US$ 89. “O risco de alta para a as previsões de preço é que a interrupção dure mais tempo”, afirmam, em relatório.
Já o HSBC elevou a projeção para o barril de petróleo tipo Brent no fim do ano de US$ 65 para US$ 80. Para a equipe do banco, a eclosão da guerra no Irã destravou um “super-squeeze” nos mercados de commodities. Ou seja: um desequilíbrio de posições ou de liquidez que obriga participantes do mercado a ajustar rapidamente suas posições, amplificando o movimento dos preços dos ativos.
Os executivos do HSBC, no entanto, observam que o movimento de agora no mercado de commodities é diferente do superciclo de matérias-primas observado entre 2003 e 2014, quando a demanda estrutural da China era maior.
“O atual movimento de alta [das commodities] parece diferente. Apenas a história dos metais básicos está ligada a uma demanda estrutural forte. A alta do petróleo e do gás natural decorre de um choque geopolítico de oferta; a valorização dos metais preciosos é resultado de fluxos para ativos de segurança; há ampla oferta de produtos agrícolas, o que pesa sobre os preços; e o fraco investimento em ativos fixos na China tem limitado a demanda por minério de ferro e carvão metalúrgico”, notam os estrategistas do banco, em nota.
Em meio às incertezas sobre a oferta de petróleo no curto prazo, o mercado acionário local voltou a sofrer com a fuga de ativos de risco. Na mínima intradiária, o Ibovespa chegou a cair até 2,98%, mas conseguiu devolver parte das perdas ao longo do dia, com alta das ações ordinárias da Petrobras.. No fim do pregão, o índice encerrou em queda de 2,55%, aos 179.284 pontos.
Já as ações da Petrobras avançaram: as ON subiram 1,45% e as PN tiveram valorização de 0,45%, o que indica que houve compra do papel por parte de estrangeiros.
Um estudo de sensibilidade feito pela XP mostra que, se os preços de petróleo subirem até os US$ 90, o movimento pode ser favorável para a balança comercial, arrecadação e royalties, explica o estrategista de ações da casa, Raphael Figueredo. Acima desse nível, no entanto, o avanço no preço da commodity pode ser prejudicial para companhias de petróleo, como é o caso da Petrobras.
“Você coloca a empresa sob pressão para, em algum momento, fazer um eventual reajuste de preço. A Petrobras já afirmou que não vai repassar a volatilidade [nos preços de petróleo]. Porém, a permanência desse conflito e a manutenção do nível alto do petróleo por muito tempo podem fazer com que haja um reajuste de preços e aí o efeito começa a se tornar bem mais negativo do que positivo”, pondera Figueredo.
Ao contrário do que ocorreu na quarta-feira, a alta dos preços do petróleo não deu suporte para o câmbio ontem. A leitura de que a guerra no Oriente Médio pode escalar e trazer impactos adicionais aos mercados, e não apenas uma alta temporária nos preços das commodities de energia, prevaleceu e afetou ativos de risco, como moedas de países emergentes.
Se o ambiente global já não era favorável, a medida do governo brasileiro de cortar tributos do diesel para reduzir o impacto da guerra no país pressionou ainda mais o câmbio doméstico. A preocupação com a seara fiscal e com possíveis novas medidas do governo para conter a crise externa embutiu mais prêmio de risco, o que fez com que o real se tornasse uma das moedas com maior desvalorização do dia frente ao dólar, na relação das 33 moedas mais líquidas. No fim, o dólar comercial registrou valorização de 1,62%, cotado a R$ 5,2422.
Para Otávio Oliveira da Silva, gerente de tesouraria do Banco Daycoval, a renúncia fiscal anunciada pelo governo explica a piora adicional observada na bolsa, nos juros e no câmbio. “Independentemente de quem estivesse no governo agora, fosse esquerda ou direita, haveria algum tipo de medida para conter a pressão externa. A questão é que, talvez outro governo fosse fazer uma medida que segurasse menos [os preços]. Então, ter a perspectiva de alguma intervenção, em um ano eleitoral, acaba elevando a percepção de risco do país”, diz. “E o atual cenário, em que o candidato da oposição, possivelmente o senador Flávio Bolsonaro, está se aproximando de Lula nas pesquisas é mais um motivo para o governo fazer esse tipo de intervenção”, acrescenta.
Em Nova York, as bolsas tiveram mais um dia de perdas: no fim, o Dow Jones fechou em queda de 1,56%; o S&P 500 recuou 1,52%; e o Nasdaq caiu 1,78%, aos 22.311,979 pontos. No total, oito dos 11 setores do S&P 500 terminou o dia no negativo, com bancos e tecnologia entre as perdas. Por outro lado, as ações ligadas ao setor de energia, como a Chevron (+2,70%) e a Exxon Mobil (+1,29%) tiveram alta.
O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a seis moedas fortes, subia 0,49%, aos 99,72 pontos.
Fonte: Valor Econômico
