Por Alex Ribeiro — De São Paulo
14/03/2023 05h00 Atualizado há 4 horas
O ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore não vê indicações de que a economia está a caminho de um “credit crunch”, ou uma parada súbita no mercado de crédito, mas não descarta a possibilidade de o aperto monetário se transmitir com mais força que o esperado pelo canal dos empréstimos e financiamentos. É o que diz em relatório divulgado ontem a clientes de sua consultoria, a A. C. Pastore & Associados.
Pastore também diz que o Banco Central opera com uma meta implícita de inflação acima da oficialmente definida – o que coloca na própria autoridade monetária uma boa dose de culpa pela desancoragem das expectativas de inflação.
“Alguns empresários alinharam-se ao governo pressionando pela baixa precoce da taxa Selic, alardeando estarmos às vésperas de um ‘credit crunch’, que poderia levar a uma recessão”, afirma o relatório. “Porém, até o momento, não temos indicações de que estamos a caminho de um credit crunch.”
Ele sustenta essa visão, em grande medida, na ata do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) do Banco Central, divulgada na última quinta-feira, que diz entre outras coisas que os bancos aumentaram as suas provisões de crédito em fins do ano passado para absorverem um impacto específico da crise da Americanas.
Pastore, porém, pondera que, nas condições atuais, o aperto monetário poderá se transmitir com mais força pelas engrenagens do crédito, em meio à crise da Americanas e à fragilidade do comércio varejista provocada pela desaceleração econômica. “Não descartamos que os efeitos da política monetária, já há mais de um ano em território restritivo, se acentuem através do canal do crédito”, afirma o relatório.
O cenário básico do economista é que não ocorra um “credit crunch” e, nesse caso, o Comitê de Política Monetária (Copom) possa baixar os juros nas duas últimas reuniões marcadas para este ano, em novembro e dezembro, a um ritmo de 0,25 ponto percentual.
Mas, no caso de a política monetária se transmitir com mais força no canal do crédito, provocando uma desaceleração mais intensa da economia, as baixas de juros poderiam ocorrer mais cedo. Nessa hipótese, entretanto, o ritmo de baixa também seria de 0,25 ponto percentual, já que o Copom seria levado a agir com cautela, em virtude da desancoragem das expectativas de inflação.
“Se formos surpreendidos por uma ativação mais forte do canal de crédito, levando a economia a uma recessão, o Banco Central poderia – sem riscos – iniciar uma queda mais precoce da taxa de juros”, afirma o relatório.
A A. C. Pastore & Associados projeta um crescimento da economia de 1% neste ano, em grande parte devido ao bom desempenho esperado para o setor agrícola e também ao estímulo fiscal, como o aumento do Bolsa Família, do salário mínimo e dos vencimentos dos funcionários públicos.
O economista diz que, por trás da desancoragem das expectativas, está o fato de que o Banco Central está operando com uma meta de inflação implícita superior às metas oficiais. “Ao jogar para frente (talvez 2025) a convergência da inflação para a meta, o Banco Central está, obviamente, buscando em 2023 e 2024 metas implícitas superiores à oficial”, diz o relatório. “Essa é a principal razão para a desancoragem das expectativas.”
Pastore diz que o alto endividamento das famílias já provocou um aumento da inadimplência, mas o efeito ao comércio está sendo mitigado por essa expansão fiscal. No caso do crédito às empresas, ele cita uma situação mais problemática. “O aumento das taxas reais de juros produz o encolhimento do mercado de capitais, crescendo a tentação do BNDES voltar à ativa”, diz. “Acentua, também, o crescimento dos spreads [de crédito para as empresas].”
Pastore se diz cético em relação ao arcabouço fiscal e argumenta que seria necessário bem mais do que uma “boa narrativa” que agrade os mercados. “Precisamos um ajuste no resultado primário de, no mínimo, 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB).”
Fonte: Valor Econômico
