Investidores globais de renda fixa começam a ver determinados mercados emergentes como mais seguros do que muitos países muito mais ricos, uma mudança significativa que prepara o terreno para a próxima fase de desempenho superior da classe de ativos.
A tendência é mais evidente nos títulos soberanos e corporativos de países com classificação AA, como Emirados Árabes Unidos, Catar, Taiwan, Coreia do Sul e República Tcheca.
Eles têm registrado retornos totais mais fortes neste ano do que créditos de países desenvolvidos com a mesma nota, tanto em dólares quanto em moedas locais. E, para algumas dessas nações, os custos de captação em dólar estão se aproximando dos EUA, há muito considerados o mercado mais seguro de todos.
Além disso, há sinais de uma convergência de risco mais ampla, que inclui até economias com notas de crédito mais baixas.
O desempenho superior decorre, em grande parte, do progresso feito por amplas regiões do mundo em desenvolvimento na redução da dívida, no controle da inflação e na melhora dos saldos em conta corrente. Mas também é resultado do retrocesso fiscal sem precedentes nos países do G7, onde as relações dívida/PIB devem continuar subindo nos próximos anos, corroendo seu status de porto seguro.
— Se eu quero conservadorismo fiscal e ortodoxia de política econômica, eu vou para o mundo emergente atualmente, não para os mercados desenvolvidos —, disse James Athey, gestor de portfólio da Marlborough Investment Management.
Ele aumentou sua alocação em dívida de emergentes, comprando títulos em pesos mexicanos, além de títulos locais do Chile e papéis denominados em dólar da África do Sul.
Em termos de ganhos anuais, 2025 caminha para ser o melhor ano nos mercados emergentes desde antes da pandemia.
No mercado de dívida soberana em dólar, os investidores agora demandam o menor prêmio em sete anos em relação aos títulos do Tesouro americano. Para emissores com nota AA, esse spread caiu para um recorde de 31 pontos-base. E, desde o fim de 2024, os rendimentos médios da dívida em moeda local têm ficado abaixo das taxas dos títulos, com esse desconto atingindo um recorde em agosto. China, Tailândia, Malásia e Lituânia estão entre os países que tomam empréstimos domésticos a taxas menores do que as praticadas pelos EUA.
Vantagem macro
O universo dos mercados emergentes inclui muitos créditos frágeis, principalmente na África e na América Latina, onde o risco de sobre endividamento e a instabilidade política são constantes. Apenas alguns soberanos têm classificação AA — poucos demais para permitir que investidores aloque grande volume de capital.
Além disso, investidores tendem a tratar países em desenvolvimento como um grupo único, vendendo indiscriminadamente quando o sentimento piora, descartando créditos fortes junto com os fracos.
E muito do desempenho superior deste ano se deve à fraqueza do dólar e à queda das taxas de juros nos EUA. Isso reacendeu uma operação chamada carry trade, ou carrego — quando se toma financiamento em moedas com juros mais baixos e aplicam em economias de juros altos, lucrando com a diferença —, atraindo capital para mercados de alto rendimento como Líbano e Argentina. Por fim, fatores como maior duração dos títulos e menor oferta de nova dívida também contribuíram.
Apesar disso, há uma mudança palpável em curso: em vez de buscar apenas carry trade, muitos investidores dizem estar se comprometendo com mercados emergentes porque fundamentos macroeconômicos essenciais estão mudando a seu favor.
Por exemplo, a inflação caiu abaixo dos níveis das economias avançadas — uma inversão rara, vista apenas uma vez nos últimos 35 anos — mesmo com os bancos centrais mantendo juros, em média, 2,1 pontos percentuais acima dos níveis dos mercados desenvolvidos.
A vantagem também se estende ao front externo e fiscal. Enquanto economias emergentes, em média, registram superávits em conta-corrente, países mais ricos operam no déficit. Os déficits orçamentários são semelhantes entre os dois grupos, mas o crescimento é muito mais forte no mundo em desenvolvimento, com a produção prevista para crescer cerca de 2,5 pontos percentuais a mais neste ano.
“É irônico que os emergentes, antes vistos como caloteiros em série, agora sejam os que apresentam superávits primários e inflação sob controle, enquanto mercados desenvolvidos têm déficits fiscais persistentes”, disse Marco Ruijer, gestor da William Blair.
Prêmios em queda
Nenhuma mudança é tão marcante quanto nos EUA, onde as políticas comerciais e tributárias do presidente Donald Trump devem ampliar significativamente os déficits do país. A dívida do governo agora supera 100% do PIB, o déficit orçamentário equivale a quase 6% do PIB e os custos anuais de serviço da dívida ultrapassaram US$ 1 trilhão pela primeira vez na história.
— Se alguém não dissesse o país e mostrasse os indicadores dos EUA, você não chegaria perto —, disse Erik Weisman, gestor da MFS Investment Management, que administra US$ 660 bilhões. — Dá pra dizer algo semelhante sobre o Reino Unido ou a França.
Weisman administra um portfólio de mercados desenvolvidos, mas tem usado seu mandato flexível para comprar dívida de emergentes de alta qualidade em detrimento dos países do G-10.
Os últimos meses trouxeram vários exemplos de convergência de risco com os EUA. Em outubro, investidores aceitaram um prêmio de apenas 17 pontos-base acima dos tesouros americanos nos títulos de cinco anos da Coreia do Sul — uma mínima histórica.
E não é de se espantar: a relação dívida/PIB do país deve ficar em 55% neste ano — metade da média do G7 — e o país registra superávit em conta corrente de 6%.
Da mesma forma, Abu Dhabi vendeu títulos de 10 anos a 18 pontos-base acima dos títulos americanos — o spread mais apertado já visto para esse prazo entre mercados emergentes. E a China precificou sua emissão de três anos em dólar exatamente em linha com os títulos, eliminando o prêmio exigido pelos investidores no ano passado.
O fato de alguns títulos de emergentes agora negociarem no mesmo nível — ou até abaixo — de títulos americanos de mesma duração é sinal de que há forte demanda por diversificação, segundo Nick Eisinger, chefe de estratégia de dívida soberana de emergentes na JPMorgan Asset Management.
— Países emergentes de alta qualidade vêm melhorando estruturalmente há anos, e o mercado finalmente está percebendo isso —, disse Eisinger.
Fonte: O Globo
