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A China confirmou na sexta-feira que a segunda maior economia do mundo manteve um ritmo forte de crescimento de 5% em 2024. Mas muitos chineses estão céticos com esses dados.
“Não sei de onde se supõe que esse crescimento está vindo”, disse Hao, dono de uma empresa gráfica e de publicidade em Pequim, que pediu para ser identificado apenas pelo sobrenome.
“As autoridades podem dizer o que quiserem”, disse Hao, sinalizando que os dados estão “cegos à realidade”. “Para mim, 2024 foi o pior ano em mais de 20 anos administrando esta empresa.”
Economistas, e até autoridades de alto escalão, questionam há muito tempo a exatidão dos números do PIB da China, que são divulgados pela Agência Nacional de Estatísticas e quase sempre atingem as metas anuais do governo com rara precisão.
Embora a meta de Pequim de expansão do PIB de “cerca de 5%” – pelo segundo ano consecutivo – seja modesta em comparação a décadas passadas, um ritmo de crescimento como esse seria motivo de empolgação para a maioria dos países – ainda mais se sofressem de uma profunda crise no setor imobiliário, como a China.
Mas para a maioria dos chineses a experiência não condiz com os dados oficiais. Muita gente que trabalha em setores como bancos, governos locais, restaurantes e aplicativos de transporte diz que as condições atuais se assemelham a uma recessão.
“Eles falam em crescimento de 5% no ano, mas será que as pessoas sentem esse crescimento? Para o povo comum, estou te falando, é uma questão de apenas de ganhar o suficiente para sobreviver e não passar fome”, disse um motorista de aplicativo de transportes.
Segundo um economista de uma universidade em Pequim, muitos acadêmicos acreditam que os dados oficiais de crescimento do PIB costumam ter imprecisões de até 2 pontos percentuais para mais ou para menos, mas salientam que a distorção aumentou nos últimos dois anos.
Ele destacou como sinais da baixa demanda na China a inflação para o consumidor, abaixo de 1% há meses, e os mais de dois anos de variações negativas no índice de preços dos produtores.
“Pessoas da classe média estão perdendo seus empregos pela primeira vez”, disse o economista, que pediu para não ter o nome identificado. “Em 45 anos, isso nunca aconteceu.”
Questionar dados econômicos oficiais e discutir tendências econômicas negativas tem se tornado cada vez mais delicado na China. Em dezembro, Gao Shanwen, economista-chefe da corretora estatal SDIC Securities, disse que a economia chinesa pode ter crescido em média apenas cerca de 2% nos últimos dois a três anos.
Na semana passada, o “The Wall Street Journal” noticiou que Gao foi proibido de falar em público em razão dos comentários. Após as declarações, as autoridades financeiras chinesas iniciaram uma investigação sobre Gao.
Muitos economistas estrangeiros também questionam os números oficiais. Analistas do centro de estudos americano Rhodium Group disseram em relatório que o crescimento em 2024 provavelmente esteve entre 2,4% e 2,8%, cerca de metade da meta oficial.
A crise do setor imobiliário da China “afastou” o investimento local e o consumo – dois motores econômicos importantes – em 2024, levando Pequim a anunciar uma série de medidas urgentes de estímulo, segundo analistas.
Os dados oficiais da China provavelmente exageraram o consumo das famílias e do governo, assim como a formação bruta de capital, que os analistas estimaram como negativo em 2024 em comparação ao ano anterior. Essas áreas foram afetadas pela crise imobiliária.
Esse quadro corrobora as experiências relatadas por pessoas que trabalham na China.
De acordo com um gerente de crédito em um banco na província central de Anhui, o valor da carteira de empréstimos administrada por ele caiu 20% em 2024. Em uma viagem recente a Hangzhou, capital da rica província vizinha de Zhejiang, ele soube que a fábrica de um cliente, que no ano anterior empregava 1,7 mil pessoas, agora tinha 1,1 mil funcionários.
“Mais pessoas estão pagando seus empréstimos com antecipação”, disse o gerente de crédito, acrescentando que elas acham “mais eficiente em termos de custo” reduzir dívidas do que investir. Ele e a esposa também limitaram os próprios gastos “desnecessários”, como comer fora.
Nem as empresas estatais estão imunes. Um funcionário de uma estatal na província de Fujian, no sul do país, disse que as autoridades em Pequim pediram à empresa para elevar os investimentos para apoiar a economia.
Em resposta, a empresa antecipou os gastos de um projeto de 25 anos, mas, ao mesmo tempo, cortou salários – mais de 20% em comparação com três anos atrás.
“Fui promovido em 2024 e minha renda mensal ainda era 1 mil yuans (US$ 136) menor do que em 2023”, disse o funcionário.
Para muitas famílias, o feriado do Ano Novo Lunar deste mês, quando parentes se reúnem em suas cidades natais e trazem presentes e envelopes vermelhos com dinheiro, pode trazer algum breve alívio para as condições difíceis.
Não será o caso de Hao, cuja empresa gráfica e de publicidade sofreu uma queda de 40% na receita em 2024 e viu os lucros caírem ainda mais. Ele pretende pular as festividades deste ano em sua cidade natal na província de Shandong, no leste do país.
“Na minha idade, voltar significa dar envelopes vermelhos para os jovens, e simplesmente não tenho dinheiro para isso”, disse.
Fonte: Valor Econômico


