O susto tomado pelos investidores com a mudança no quadro eleitoral desencadeada pela pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência teve um impacto comparável ao de um evento “cisne negro” para o mercado. É o que aponta o sócio e chefe de ações da Vinland Capital, Rodrigo Andrade, que dá ênfase à surpresa do anúncio para os investidores.
“Mudou muito. A média dos portfólios não estava preparada. Na verdade, ninguém estava esperando esse anúncio”, enfatiza. O episódio, na visão de Andrade, marca o início de um processo eleitoral que tende a ser turbulento, ao menos nos próximos três meses.
No jargão de mercado, “cisnes negros” são eventos raros e imprevisíveis, capazes de chacoalhar mercados financeiros e a sociedade.
“Operamos com muitas opções para manter uma camada de proteção no portfólio em casos de eventos de ‘black swan’, como foi a candidatura do Flávio para o mercado”, afirma Andrade, ao defender portfólios com hedges (proteções) e alta liquidez para momentos como o que ocorreu em 5 de dezembro.
E é diante de um grau de incerteza ainda elevado em relação às eleições de 2026 que o gestor avalia ser necessário diversificar as carteiras e evitar exposição excessiva ao Brasil e, em particular, a juros, embora acredite que a Selic será reduzida em algum momento do primeiro trimestre.
Desde o anúncio de Flávio, Andrade diz ter aumentado a exposição a papéis dolarizados como forma de proteção. Nesse contexto, o executivo aponta que a Vale é um bom exemplo de ativo que foge um pouco da dinâmica doméstica e tem gerado bastante ‘alfa’ (retorno acima do esperado) nos últimos meses, apoiada em fundamentos micro mais atrativos, mudanças na gestão e resiliência do preço do minério de ferro.
De forma geral, a casa privilegia empresas ligadas a utilidades públicas, como Sabesp, Copel, Eneva e Axia Energia (a antiga Eletrobras). Andrade argumenta que o mercado está migrando para uma nova realidade de preços de energia nos médio e longo prazos, o que sustenta uma visão mais otimista para o setor.
Embora as peças do tabuleiro político tenham sido embaralhadas, há alguns elementos que podem sustentar um ano positivo para as ações brasileiras. O gestor da Vinland afirma que a antecipação de dividendos, diante das mudanças tributárias, o fluxo para mercados emergentes e os programas de recompra de ações tendem a dar suporte ao mercado em 2026.
“Se não houver nada relevante lá fora, somado ao início do ciclo de queda de juros, seja em janeiro ou em março, isso abre um horizonte que ainda tem ‘upside’ para a bolsa”, avalia Andrade. “Eu diria que os ventos externos, que ajudaram neste ano, talvez continuem.”
Fonte: Valor Econômico
