O “boom” do mercado de crédito, diante da forte procura por debêntures incentivadas, tem provocado críticas diversas na Faria Lima.
Os fundos de crédito, claro, aproveitaram a janela criada pela já falecida MP 1.303 para aumentar a captação, mas nem mesmo isso impediu uma visão mais crítica de parte do mercado financeiro.
“As pessoas estão esquecendo que crédito tem risco”, diz um importante gestor de crédito em condição de anonimato, ao avaliar o rali recente no mercado que provocou um aperto muito expressivo nos spreads de crédito, sobretudo os de infraestrutura, em relação às NTN-Bs. “Tem muita gente olhando os spreads, mas esquecendo que a taxa de juros é altíssima.”
“Em crédito privado, taxa não é igual a retorno; taxa é igual a risco”, enfatiza.
O diretor de um importante banco de investimentos concorda. “A isenção desses papéis emitidos por empresas de infraestrutura muitas vezes causa uma percepção errada de risco, especialmente para as pessoas físicas.”
O executivo lembra que esses papéis privados costumam ser de prazo mais longo, o que requer cautela e uma análise minuciosa da qualidade dessa dívida por bastante tempo. “Será que a pessoa física vai ter conhecimento profundo para avaliar esse risco? Acho difícil. Por isso, acredito ter um problema de suitability [adequação dos investimentos ao perfil do investidor] nisso.”
“A sensação que eu tenho é que muitas pessoas têm visto as incentivadas como um retorno de renda fixa sem risco”, enfatiza o executivo, ao notar, sobretudo, que o nível da taxa de juros é muito elevado.
“Uma pergunta a se fazer é: quantas empresas aguentam esse juro tão alto por tanto tempo? As empresas aguentam, dependendo do nível de dívida que elas têm, carregar um juro nesse patamar de 15% e pagar mais um prêmio? É uma dúvida.”
Para esse diretor, um cenário de “eleição positiva” e de juros caindo rapidamente pode aliviar as pressões do mercado. “Mas se tivermos juros por muito tempo em um patamar tão restritivo, aumenta o risco de termos problemas no mundo corporativo.”
Fonte: Valor Econômico

