Nos últimos meses deixou de ser raro receber ligação de um assessor de investimento oferecendo uma “dose” de ouro para complementar o portfólio, mesmo para aquela pessoa física bastante acostumada aos títulos tradicionais de renda fixa. Em paralelo, no portfólio das plataformas de investimento, o número de produtos vem crescendo, acompanhando a procura, não só de pessoas físicas, mas também de fundos de pensão e fundos multimercados, que possuem flexibilidade para investirem no ativo.
Para se ter uma dimensão, levantamento feito pela B3Cotação de B3 mostra que o volume diário médio negociado dos fundos de índices (ETFs) de ouro cresceu 133% no primeiro semestre do ano, passando de R$ 12 milhões para R$ 29 milhões.
O pano de fundo foi o aumento da tensão global, algo que ganhou escala com o “tarifaço” promovido pelo presidente Donald Trump, que também atingiu em cheio o Brasil. Mas o movimento em busca ao ouro teve início com o bloqueio das reservas em dólar da Rússia, com o início da guerra com a Ucrânia. Como resultado, os bancos centrais ao redor do mundo começaram a aumentar sua exposição na commodity, diminuindo a de dólar. A tensão com a China trouxe mais um componente, com o país ampliando suas reservas em ouro físico.
O ambiente inflacionário ao redor do mundo também tem feito investidores ampliarem a exposição ao ouro, trazendo mais um ingrediente que tem feito a commodity subir quase 30% apenas neste ano, depois de uma valorização expressiva no ano passado.
Como consequência, o aumento de seu valor fez os investidores voltarem os olhos para a commodity e o mercado financeiro se preparou para o crescimento da demanda. A Investo lançou seu fundo de índice (ETF) atrelado ao ouro em março deste ano e hoje o patrimônio sob gestão alcança R$ 50 milhões e há três mil pessoas físicas investindo no produto.
“O atual momento de mercado leva os investidores a terem mais ouro na carteira. Esse é um dos ativos que mais se valorizou”, comenta o presidente da Investo, Cauê Mancanares. O benefício de investir em ouro por meio do ETF, segundo ele, é ter um ativo bastante líquido negociado em bolsa.
O estrategista da Victrix Capital, José Victor Cassiolato, aponta que o ouro sempre foi visto como um ativo contracíclico e com características de proteção, por isso sua maior procura em momentos de maior instabilidade. Assim, historicamente, investidores que buscavam potencial de valorização da carteira por meio de ativos ligados ao ouro preferiam comprar ações de mineradoras, por exemplo. No entanto, com recente dinâmica dos bancos centrais de ampliar a exposição de suas reservas em ouro, reduzindo em dólar, os valores foram a níveis recordes. “Essa é uma dinâmica que não deve mudar nos próximos cinco anos”, afirma.
O sócio e responsável pela área de alocação da XP, Rodrigo Sgavioli, diz que a valorização da commodity chamou atenção de muitos investidores pessoas físicas, que passaram a olhar para o ativo com o viés de valorização e não mais como reserva de valor. “É preciso lembrar que o ouro é um ativo com volatilidade e que não paga dividendo”, afirma. Segundo ele, a característica do ativo, de ser uma reserva de valor, precisa ser a razão para o investimento. Em eventos que costuma ir, segundo ele, o volume de perguntas costuma se concentrar em ouro e bitcoin, dois investimentos alternativos às moedas tradicionais.
Essa procura por investidores fez a bolsa brasileira completar a prateleira de produtos para estratégias ligadas ao ouro. Acabou de lançar, em julho, para complementar os ETFs, os derivativos de ouro, conta a responsável or produtos de commodities da B3Cotação de B3, Marielle Brugnari. “Essa era uma conversa que tínhamos desde o ano passado. Por conta de questões geopolíticas, o ouro tem chamado ainda mais atenção”, diz a executiva. No momento, segundo ela, a bolsa vem trabalhando para divulgar o produto, para ampliar sua liquidez.
A executiva da B3Cotação de B3 explica que o produto foi lançado com o tamanho de uma onça (cerca de 32 gramas), exatamente para ser acessível ao público de pessoas físicas, que também estavam demandando o produto. Antes, ela aponta, investidores institucionais buscavam estruturas semelhantes no exterior.
Outra prova da grande procura por estratégias ligadas a ouro, o fundo multimercado relacionado ao ouro da BB Asset dobrou de tamanho neste ano, chegando em R$ 1,5 bilhão, conta Fred Monteiro, gestor de ativos globais da instituição financeira. “A captação tem sido muito forte, de pessoas físicas e investidores institucionais, especialmente fundos de pensão”, comenta Monteiro. Ele aponta que dado o cenário inflacionário, que traz perda de valor às moedas, deve fazer com que os investidores sigam olhando com atenção para investimentos na commodity.
Na Itaú Asset, o fundo atrelado ao ouro está hoje com um patrimônio de R$ 600 milhões, com 15 mil cotistas, volume que passou a ganhar tração nos últimos anos. Para o gestor da Itaú Asset, Renato Eid, em tempos de tantas incertezas tem sido cada vez mais difícil ter uma previsão clara sobre a tendência de qualquer classe de ativos e que o mantra para o investimento precisa ser diversificação. Ele sustenta que ter alguma exposição em ouro, dado esse ambiente, faz sentido nesse ambiente. “Temos aversão ao risco, incerteza tarifária. O mundo está cada vez mais incerto”, diz. O lançamento de um ETF atrelado ao ouro não está descartado, afirma.
Foi por conta dessa janela de oportunidade identificada no mercado, que a fabricante brasileira de ouro, a Aura Minerals, conseguiu tirar do papel seu plano de listar a companhia nos Estados Unidos, na Nasdaq, após uma longa entressafra sem nenhuma empresa brasileira conseguir realizar uma oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), conseguindo atrair grandes investidores globais. “Pensávamos em fazer um IPO nos Estados Unidos desde dois, três anos atrás. Agora a percepção foi de que havia uma janela favorável e estávamos prontos”, afirma o presidente da Aura, Rodrigo Barbosa. Um dos pré-requisitos, segundo ele, era ter um tamanho acima de US$ 1 bilhão.
“Os investidores viram na Aura um case de ouro, mas não só isso. As empresas têm um risco associado maior, mas, por outro lado, conseguimos em uma combinação única mostrar que vamos crescer e que vamos pagar dividendo”, afirma o executivo.
Fonte: Valor Econômico
