Investidores têm defendido a escolha de um novo líder que venha de fora da empresa e uma rápida revisão em seu enorme portfólio
Por Judith Evans e Adrienne Klasa — Financial Times, de Londres
04/10/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
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Alan Jope, executivo-chefe da Unilever, vai se aposentar no fim de 2023 — Foto: World Economic Forum/Sandra Blaser
Motoqueiro experiente, Alan Jope já havia atravessado estradas acidentadas pelo mundo, do Peru ao deserto de Gobi, mas as que enfrentou como executivo-chefe (CEO) da Unilever estiveram entre os mais implacáveis.
Na semana passada, Jope, de 58 anos, anunciou que se aposentará no fim de 2023, depois de três anos nos quais vendeu a maior produtora de chás do mundo, fez uma oferta malsucedida de 50 bilhões de libras esterlinas (US$ 55,66 bilhões) pela unidade de bens de consumo de saúde da GSK e alterou a estrutura de duas sedes da Unilever, apenas para ver as ações ficarem anemicamente um pouco abaixo do patamar em que estavam quando ele chegou.
Depois do anúncio da saída de Jope, investidores têm defendido a escolha de um novo líder que venha de fora da empresa e uma rápida revisão em seu enorme portfólio de marcas. O desempenho ambíguo de Jope, um veterano de 35 anos na empresa, trouxe novos questionamentos à cultura da empresa de mais de 90 anos, fabricante dos sabonetes Dove, da maionese Hellmann’s e dos sorvetes Magnum.
“Há questionamentos sobre até que ponto a empresa é ágil internamente, seja na prestação de contas, desempenho, foco ou equilíbrio entre as questões ESG [ambientais, sociais e de governança] e os resultados comerciais, ou na velocidade para tomar medidas”, diz Bruno Monteyne, analista da Bernstein.
James Edwardes Jones, analista da RBC Capital Markets, disse que uma “falta de franqueza crítica” parece ter levado a Unilever a apresentar a oferta pela unidade da GSK e a alterar seu esquema de remuneração em 2021 para reduzir os incentivos a desempenhos fora de série. O analista disse que a empresa tem uma tendência a parecer “introspectiva e disfuncional”.
Desde que Jope assumiu o comando, o retorno total dos acionistas da Unilever está 16% abaixo do índice MSCI de bens de consumo básicos na Europa, de acordo com a RBC Capital Markets. Em média, a empresa teve um desempenho inferior ao visto com o antecessor de Jope, Paul Polman, que foi recrutado da Nestlé.
“A Unilever enfrenta há muitos anos dificuldades para gerar crescimento e um candidato externo [chegaria] com mais chances de acelerar uma mudança empresarial”, disse Tineke Frikkee, gestor de fundos da Waverton Investment Management, que detém uma pequena participação na empresa. Um dos 20 principais investidores disse que a Unilever poderia procurar nomes até fora do setor de bens de consumo: “Não há vacas sagradas aqui”.
De acordo com Samuel Johar, presidente do conselho da firma caça-talentos Buchanan Harvey, a Unilever deverá levar em conta, entre os possíveis candidatos de fora de empresa, nomes como Remy Ejel, CEO da Nestlé para Ásia, Oceania e África, e Shailesh Jejurikar, diretor de operações da Procter & Gamble. Lubomira Rochet, ex-diretora da área digital da L’Oréal, pode ser outra candidata, de acordo com Monteyne.
Uma fonte da empresa disse, no entanto, que os problemas que assolam o Reino Unido – onde a libra teve forte desvalorização na semana passada e o Banco da Inglaterra viu-se obrigado a intervir nos mercados dos títulos de dívida governamentais após o desastroso anúncio de um “miniorçamento” pelo governo — poderiam impedir o recrutamento de um novo chefe de outro continente.
Um ex-executivo da Unilever sinalizou que a empresa poderia recorrer a “sir” Dave Lewis, o ex-CEO da rede de supermercados Tesco, que foi recrutado da própria Unilever e a quem se credita a recuperação da varejista. No entanto, Lewis neste ano tornou-se presidente do Haleon, a empresa de bens de consumo de saúde que foi desmembrada da GSK e que Jope tentou comprar.
Caso a Unilever queira procurar internamente, Hanneke Faber, presidente da área de nutrição, poderia ser uma possível candidata. Ela já trabalhou na multinacional holandesa Ahold Delhaize e na P& G, o que lhe deu experiência fora da Unilever.
A tarefa de encontrar um CEO é complicada pois a rival Reckitt Benckiser (RB) também procura um novo líder. Laxman Narasimhan, CEO da RB anunciou sua saída para a Starbucks em setembro.
Ao assumir o comando em 2019, Jope herdou uma empresa sob pressão para aumentar as margens de lucro depois de ter repelido uma oferta de aquisição da Kraft Heinz. Ele levou um ano para desistir da difícil meta de alcançar margem de 20%, definida por Polman, apesar de declarar que a prioridade era aumentar as vendas.
A projeção para as margens agora caiu para 16% em 2022, mas as taxas de crescimento das vendas ficaram abaixo das expectativas em diversas ocasiões. A empresa não atinge projeções desde 2018, segundo o RBC.
O descontentamento dos investidores eclodiu após as notícias da oferta pela unidade bens de consumo de saúde da GSK no início do ano. “Houve um nível extremo de descontentamento entre os acionistas quando [a oferta] foi anunciada”, disse o acionista. “Não havia a sensação de que a liderança tivesse conquistado o direito de fazer uma grande transação, e isso não havia sido conversado com os investidores. Eles foram pegos um pouco de surpresa.”
Embora fontes da Unilever sustentem que Jope havia indicado anteriormente que seria CEO por cerca de cinco anos, elas admitem que ele teria ficado por mais tempo se sua audaciosa oferta pelo braço da GSK tivesse dado certo.
Assim como Polman, Jope deu ênfase à sustentabilidade e ao “propósito” das marcas, uma prioridade que criou rachas entre os acionistas, especialmente depois da eclosão de uma batalha com a subsidiária Ben & Jerry’s sobre as vendas na Cisjordânia.
Ainda assim, credita-se a Jope a criação de estruturas mais eficientes, o que permitiria a seu sucessor realizar fusões e aquisições mais rapidamente. Ele acabou com a estrutura de sede dupla em 2020, trocando Roterdã por uma sede única, em Londres, em um processo sem percalços que contrastou com a tentativa de seu antecessor de mudança para a Holanda.
O objetivo, em parte, é acelerar as fusões e aquisições, permitindo que a Unilever entre em áreas de maior crescimento, como a rival Nestlé fez. A venda da divisão de chás da Unilever levou quase dois anos desde seu anúncio em 2020.
Jope também reestruturou a Unilever neste ano, abandonando a estrutura “matricial”, com base nos produtos e na geografia. Adotou cinco divisões separadas, uma simplificação bem recebida pelo mercado. “O lado positivo é que a Unilever decidiu mudar sua estrutura, há foco no crescimento e o negócio com a GSK está fora de cogitação”, disse um dos dez principais acionistas.
Jonathan Harper, líder mundial da área de consumo na empresa de contratação de executivos Spencer Stuart, disse que “talvez seja muito cedo para julgar o desempenho geral [de Jope], já que os próximos 15 meses serão cruciais para seu legado, após a reorganização substancial do início deste ano”.
Durante o restante de sua liderança, Jope estará operando sob o olhar de Nelson Peltz, o acionista ativista com histórico ter remodelado fabricantes de bens de consumo. Peltz se juntou ao conselho de administração em maio.
No alto da agenda do sucessor de Jope estará a revisão de sua carteira de mais de 400 marcas. “A maioria das pessoas gostaria de ver uma aceleração do processo de venda das partes de baixo desempenho da empresa”, disse um acionista que está entre os 20 maiores da empresa.
Frikkee destacou como fatores que dificultam o crescimento o cenário na região europeia e o braço de alimentos. No entanto, um consultor disse que a atual turbulência no mercado financeiro atrasaria qualquer tentativa de grandes vendas de unidades, como a da divisão de sorvetes, em razão da falta de financiamento para respaldar as firmas de private equity que provavelmente teriam interesse em tal compra.
Martin Deboo, analista do banco de investimento Jefferies, defendeu “escolhas de portfólio mais nítidas e radicais”. A Unilever, segundo o analista, tem um “portfólio demasiado abrangente, enraizado no modelo de supermercado da década de 1950, e não nas capitanias de categorias mais estreitas de hoje”. (Colaboraram Harriet Agnew e Arash Massoudi) (Tradução de Sabino Ahumada)
Fonte: Valor Econômico