Por Agências Internacionais
03/04/2023 05h02 Atualizado há uma hora
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) confirmou nesta segunda-feira (3) um corte de produção de até 1,6 milhões de barris por dia dos países do grupo até o final de 2023, medida divulgada inicialmente pela Arábia Saudita sob a alegação de que é uma medida de “precaução”.
Os cortes vão começar em maio e vão durar até o final de 2023.
Os sauditas têm posição de liderança no cartel e anunciaram que vão diminuir em 500 mil barris por dia a produção local, o maior corte entre os países do grupo. O segundo membro da Opep+ que terá maior corte é o Iraque, com terá queda de produção de 211 mil barris por dia até o final deste ano.
Os Emirados Árabes Unidos anunciaram um corte de 144 mil barris diários, o Kuwait, de 128 mil barris, Omã, de 40 mil barris, e a Argélia, de 48 mil. O Cazaquistão reduzirá a produção em 70 mil.
O impacto inicial dos cortes, a partir do próximo mês, será de cerca de 1,1 milhão de barris por dia. A partir de julho, a redução será de cerca de 1,6 milhão de barris por dia, juntando todos os países da aliança.
Preços mais altos do petróleo podem ajudar receitas de exportação da Rússia e forçar outros países a pagar mais caro por derivados, diante da inflação mundial alta.
A redução foi confirmada um dia antes da reunião ministerial da Opep+, na qual se previa que o grupo se ateria a manter os cortes já em vigor, de 2 milhões de barris diários, até o fim de 2023.
Em março, os preços do petróleo caíram para US$ 70 por barril, a menor cotação em 15 meses, diante dos receios de que a crise bancária internacional impacte a demanda mundial. Mesmo assim, não se esperavam novas medidas da Opep+ para dar sustentação aos preços no mercado, depois de fontes terem minimizado essas chances e de a cotação ter se recuperado para a faixa de US$ 80.
Os preços da commodity no mercado internacional reagiram ao anúncio de ontem. Os contratos futuros de petróleo Brent escalaram com alta de mais de 7% do barril para US$ 85,54, na abertura dos mercados hoje. O petróleo WTI subiu 8% para acima de US$ 81 por barril, a maior alta diária em mais de um ano, segundo a Bloomberg.
A redução anunciada eleva a redução da Opep, da Rússia e de outros aliados, para cerca de 3,66 milhões de barris diários, segundo cálculos da Reuters, o equivalente a 3,7% da demanda mundial.
“A Opep está tomando medidas preventivas para o caso de qualquer possível redução na demanda”, disse Amrita Sen, diretora da Energy Aspects, no domingo.
Em outubro, a Opep+ acertou corte de produção de 2 milhões de barris diários de novembro até o fim de 2023, decisão que irritou Washington, já que reduzir a oferta aumenta cotações do petróleo.
Os EUA argumentam que o mundo precisa de preços mais baixos para sustentar o crescimento econômico e impedir que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, ganhe mais receitas para financiar a guerra na Ucrânia. Os novos cortes começam a valer em maio.
Ontem, o vice-primeiro-ministro da Rússia, Alexander Novak, disse que Moscou estenderia corte de 500 mil barris diários até o fim 2023. Moscou anunciou os cortes unilateralmente em fevereiro, após a introdução de tetos para preços pagos pelo Ocidente.
O Ministério da Energia saudita informou que o corte voluntário de ontem é uma medida de precaução, com o objetivo de sustentar a estabilidade do mercado de energia.
O ministério destacou que a redução seria feita de forma coordenada com membros e não membros da Opep, sem citá-los. Os cortes representam menos de 5% da produção média saudita, de 11,5 milhões de barris por dia em 2022.
Os cortes anteriores haviam sido anunciados na véspera das eleições de meio de mandato nos EUA, quando a alta dos preços era um tema eleitoral. Na ocasião, o presidente americano, Joe Biden, prometeu que haveria “consequências”, e democratas pediram o fim da cooperação com os sauditas.
Tanto os EUA quanto a Arábia Saudita negam motivos políticos na disputa, com cada país sustentando estar empenhado em manter um preço de mercado saudável. Desde os cortes, a tendência dos preços, na verdade, vinha sendo de queda. O barril de Brent era negociado a cerca de US$ 80 por barril no fim da semana passada, abaixo dos cerca de US$ 95 do início de outubro, quando os cortes anteriores haviam sido anunciados.
Kristian Coates Ulrichsen, especialista em Golfo Pérsico no Instituto Baker de Políticas Públicas, da Rice University, disse que os sauditas estão determinados a manter os preços do petróleo altos o suficiente para financiar uma série de megaprojetos ambiciosos, ligados ao plano Vision 2030, do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, para reformar a economia.
“Esse interesse tem precedência na tomada de decisões sauditas sobre as relações com parceiros internacionais e deve continuará sendo um ponto de atrito nas relações EUA-Arábia Saudita no futuro próximo, mesmo sem levar em conta a dimensão russa”, disse.
A Aramco, gigante petrolífera estatal da Arábia Saudita, anunciou recentemente lucro recorde de US$ 161 bilhões em 2022. O lucro cresceu 46,5% em comparação a 2021, quando totalizou US$ 110 bilhões. A Aramco espera aumentar sua produção diária para 13 milhões de barris até 2027.
A aliança EUA-Arábia Saudita, que dura décadas, tem ficado sob tensão cada vez maior, depois do assassinato em 2018 do jornalista saudita Jamal Khashoggi e da guerra desastrosa da Arábia Saudita com rebeldes iemenitas houthis, apoiados pelo Irã.
Na campanha à Presidência, Biden havia prometido tornar a Arábia Saudita um “pária” em razão do assassinato de Khashoggi, mas acabou recuando diante da alta dos preços do petróleo, após sua posse. Ele visitou o país em julho, para tentar remendar as relações, e foi criticado por ter cumprimentado o príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman amigavelmente, com punhos cerrados.
A Arábia Saudita nega apoiar a Rússia na guerra da Ucrânia, embora tenha cultivado laços mais estreitos com Moscou e Pequim, irritando aliados como Washington. Na semana passada, a Aramco anunciou bilhões em investimentos no setor petroquímico chinês.
Fonte: Valor Econômico

