Por Anaïs Fernandes, Valor — São Paulo
02/01/2023 09h39 Atualizado há 56 minutos
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entra em seu terceiro mandato com uma economia no Brasil e no mundo completamente diferente da encontrada por ele 20 anos atrás, ao assumir a Presidência pela primeira vez, e “em um mundo novo, novas soluções precisam ser dadas”, diz Maria Silvia Bastos Marques, ex-presidente do BNDES e membro independente de conselhos administrativos de empresas. “O que não deu certo comprovadamente, não adianta tentar de novo, porque não vai funcionar”, afirma.
“A situação demográfica não é a mesma. Tivemos uma pandemia que desorganizou a economia mundial. Estamos vendo inflação alta em países em que nunca vimos. Houve aumento do desemprego, mas certamente houve também aumento do empreendedorismo. Vimos o avanço forte da economia digital, elemento de inclusão social. Hoje, muitas pessoas são empreendedoras graças ao PIX, bancos digitais, WhatsApp e Instagram”, exemplifica Bastos.
A reforma trabalhista, diz, foi no sentido de maior inclusão social, como Lula defende. “Fala-se muito em rever, rediscutir. A flexibilização das regras trabalhistas do Brasil, extremamente antigas, possibilitou a criação de empregos, maior oferta de trabalho”, afirma Bastos.
Na mesma linha, as concessões “também caminham no sentido que o governo deseja de liberar recursos para a área social”, aponta.
Que “os bancos públicos, especialmente o BNDES, e as empresas indutoras do crescimento e inovação, como a Petrobras, terão papel fundamental neste novo ciclo”, como disse Lula em seu discurso de posse, parece uma frase consensual, mas falta saber como isso será feito a partir das políticas efetivas, afirma Bastos.
Para ela, o BNDES já é indutor de crescimento e inovação ao apoiar os Estados em seus programas de concessão, especialmente em saneamento. “O novo presidente [Lula] tem como ponto central inclusão social. Saneamento é inclusão na veia, é qualidade de vida para as pessoas, é produtividade que a economia precisa, crianças que não deixam de estudar porque ficaram doentes, adultos que não deixam de trabalhar porque ficaram doentes”, afirma Bastos.
Para ela, é natural, depois da pandemia, que se olhe novamente para algumas estruturas produtivas industriais do país, como de medicamentos. “Pode ser que em alguns setores faça sentido ter uma produção nacional maior. Alguns precisam de uma escala muito grande, tem de ver se o Brasil tem condições”, pondera. Mas o que não cabe mais no mundo de hoje, diz, são favorecimentos artificiais, como taxas de juros subsidiadas. “Beneficiam quem tem acesso a elas. Não são transparentes, não estão no Orçamento”, afirma.
Reduzir estruturalmente as taxas de juro de longo prazo exige que haja confiança na política econômica, reforça Bastos. “Isso é uma coisa muito clara. É muito importante trabalhar com essa realidade, que haja política econômica consistente com política monetária e fiscal”, diz.
Bastos elogiou a rápida reativação do Fundo Amazônia — “foi uma enorme perda para o Brasil”, afirma —, ontem mesmo por decreto de Lula, e a preocupação com saúde e educação no discurso do presidente. “Quando você tem crianças que saem do ensino básico sem saber matemática e português, fica muito difícil falar em inovação e produtividade”, afirma. “Talvez, a maior preocupação seja a qualidade do gasto público, que os programa que existem sejam avaliados se funcionam ou não. Essa revisão não só vai ter impacto forte na produtividade como vai conseguir os recursos que o presidente deseja para fazer a inclusão social que o país merece”, afirma.
Fonte: Valor Econômico