Desde a posse de Donald Trump em 21 de janeiro de 2025, o dólar se depreciou cerca de 10% frente a diversas moedas globais. Não é um acaso. Esse processo marca uma inflexão relevante no sistema financeiro internacional. É uma mudança profunda para a principal moeda de reserva do mundo, historicamente um porto seguro em momentos de estresse. E a perspectiva de cortes de juros promovidos pelo Federal Reserve (FED), o banco central americano, deve reduzir o diferencial de taxas entre os EUA e outras economias avançadas. Isso atenua o incentivo para investidores manterem recursos em dólar. E a expectativa de que ganhos de produtividade associados à inteligência artificial permitam uma política monetária mais frouxa reforça a projeção de baixa dos juros.
Esse não é o único fator, porém. Outra causa é a política externa errática dos Estados Unidos. O uso frequente de tarifas como instrumento de barganha por Trump, que anuncia medidas para desistir em seguida, além das críticas à atuação do FED e de seu presidente, Jerome Powell, ampliaram a percepção de risco. Em vários episódios recentes, o dólar deixou de se valorizar em momentos de aversão ao risco, comportamento considerado atípico para uma moeda de reserva global. Em alguns casos, ações americanas, títulos do Tesouro e o próprio dólar recuaram simultaneamente, sinalizando perda de confiança.
Esse novo ambiente afetou a dinâmica dos investimentos internacionais. O retorno de aplicações nos EUA passou a depender não apenas do desempenho econômico, mas também do comportamento do câmbio. A alta das ações americanas de tecnologia foi prejudicada pela conversão para outras moedas devido ao enfraquecimento do dólar.
Como isso afeta as economias emergentes, o Brasil entre elas? Um dólar mais fraco costuma aliviar pressões financeiras, ao reduzir o custo do serviço da dívida externa e favorecer fluxos de capital de curto prazo. Porém, a maior instabilidade da moeda americana amplia a incerteza. Países emergentes tornam-se mais sensíveis a mudanças súbitas de humor dos mercados e a reorientações estratégicas da política econômica dos EUA. E a combinação de dólar fraco e de políticas comerciais agressivas pode redistribuir competitividade global, afetando exportadores que disputam mercados com empresas americanas.
O custo para o Brasil
Para o Brasil, os efeitos da fraqueza do dólar são complexos e carregam riscos relevantes. Segundo Ramiro Gomes Ferreira, cofundador do Clube do Valor, a valorização recente do real não reflete um fortalecimento estrutural da economia brasileira. “A valorização acumulada do real em 12,5% durante o ano de 2025 não foi por fortalecimento interno da economia, mas sim um subproduto da desvalorização estrutural do dólar”, afirma.
De acordo com Ferreira, esse movimento traz consequências diretas para a inserção internacional do país. “Com o real mais forte, as commodities e produtos manufaturados brasileiros chegam ao mercado externo com preços menos competitivos”, diz. Ele acrescenta que há também um fator geopolítico relevante. “O principal objetivo do Acordo de Mar-a-Lago é a reindustrialização dos Estados Unidos. Ao enfraquecer o dólar, o governo americano barateia a própria produção, e como EUA e Brasil competem em vários mercados, isso pode pressionar setores onde a indústria brasileira antes tinha vantagem de custo.”
O impacto pode se estender ao comércio exterior como um todo. “Enquanto os Estados Unidos tentam se tornar uma potência exportadora de bens, desvalorizando estrategicamente o dólar e fortalecendo sua indústria, o Brasil pode ver seu superávit comercial pressionado pela agressividade tarifária e cambial americana”, avalia Ferreira.
Ele descarta a hipótese de uma mudança no curto prazo. “Existe uma ação deliberada para provocar a desvalorização do dólar e uma pressão crescente por juros mais baixos, com o objetivo de reduzir o custo da dívida pública, que já supera 120% do PIB.”
Na mesma linha, Marcos Bassani, especialista em investimentos e sócio da Boa Brasil Capital, avalia que o impacto imediato tende a ser negativo para setores exportadores. “Com o dólar mais fraco e o real valorizado, o Brasil tende a perder competitividade nas exportações, sobretudo de commodities, que ficam mais caras em dólar e geram menos receita em reais”, afirma. Segundo ele, isso pode reduzir o superávit comercial e pressionar cadeias produtivas ligadas ao mercado externo.
Bassani ressalta, porém, que o efeito não é unidirecional. “O câmbio valorizado barateia importações de insumos e tecnologia, o que pode favorecer a modernização produtiva e a integração a cadeias globais”, diz. Para que isso se traduza em ganhos duradouros, no entanto, seria necessária coordenação de políticas públicas. “Sem estratégia, o efeito predominante é negativo para as exportações e a indústria; com estratégia, pode ser uma oportunidade de mudança qualitativa na inserção internacional do Brasil.”
Quanto ao futuro do dólar, Bassani também vê baixa probabilidade de recuperação rápida. “Uma retomada forte do dólar aos níveis anteriores é pouco provável no curto prazo, dado o cenário de juros mais baixos, incertezas fiscais e políticas nos Estados Unidos”, afirma. No médio e longo prazo, ele admite uma reversão apenas em cenários específicos, como uma crise global que volte a posicionar o dólar como principal ativo de proteção.
Fonte: Forbes
