Preconceitos contra os velhos atingem o mercado de trabalho, a vida cotidiana e a sexualidade
PorMárcio Ferrari
— Para o Valor, de São Paulo
Em 2022, quando tinha 55 anos, depois de não conseguir voltar ao mercado de trabalho na área de marketing, Ana Lucia Leitão resolveu dar uma guinada na vida profissional e tornar-se modelo. Desde então vem atuando na área. Com isso, desafiou o etarismo de dois modos: voltou-se para uma profissão comumente associada à juventude e detectou um nicho de mercado que começa a existir em função do envelhecimento da população, mas para o qual se dá pouca atenção.
A modelo se vê agora diante de uma única limitação. “Não tenho cara de vovó, que é o que mais se procura entre pessoas mais velhas na publicidade”, diz ela, que mantém cabelos grisalhos e longos e nunca usou tintura. Posou para marcas de roupas, uma delas voltada para pessoas de idade avançada, outra de camisetas para qualquer faixa etária, recebendo elogios nos comentários do Instagram. Fez ainda uma personagem hippie para um anúncio da Mega-Sena.
Etarismo – também chamado de idadismo ou ageísmo – é um conceito relativamente novo, principalmente no Brasil, onde o envelhecimento se deu com rapidez. Três décadas atrás, era considerado um país de jovens. Hoje, a população acima de 60 anos soma 35 milhões ou 15% do total (27% acima de 50), e cada vez mais a taxa de natalidade é baixa. Dois estados, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, têm mais pessoas idosas do que crianças e adolescentes até 14 anos.
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O médico Alexandre Kalache, de 78 anos, especializado em envelhecimento desde que se formou, caracteriza o idadismo por meio de quatro “is”: ideologia, institucionalização (preconceito que se torna regra), intrapessoalidade (atitudes para diminuir o idoso) e internalização (autoetarismo). “No país ainda há um quinto i, a iniquidade”, acrescenta o médico. “É um campo fértil para que os outros se manifestem.”
As pessoas com mais de 50 anos são um grupo com pouco ingresso no mercado profissional, que merece menos atenção como consumidor e é pouco atendido pelas políticas públicas, além de sofrer outros preconceitos, restrições e barreiras sociais. O etarismo atinge até pessoas abaixo dos 50. Recentemente, num episódio que veio a público graças à viralização de comentários e imagens em redes sociais, uma aluna de 45 anos de um curso de biomedicina em Bauru (SP) foi alvo de uma chuva de reprovações de colegas jovens, por supostamente não estar no lugar onde achavam que deveria estar – isto é, em casa.
A pandemia também escancarou o menosprezo aos idosos. Kalache vê como uma manifestação calamitosa do etarismo a atitude dos governantes que adotaram uma atitude de “deixa morrer” combinada ao negacionismo em relação às vacinas, razões que colaboraram para que a faixa mais velha da população fosse a que mais morreu de covid.
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O médico – que é presidente do Centro de Longevidade Brasil e do Grupo de Trabalho em Envelhecimento da Associação Brasileira de Saúde Coletiva e foi diretor de Longevidade da Organização Mundial de Saúde – adota como meta para uma vida saudável acima dos 65 anos o “envelhecimento ativo”, que define como o processo de otimizar oportunidades em quatro eixos: saúde, aprendizagem, participação na sociedade (o que só se consegue com direitos estabelecidos) e segurança/proteção. “O horror de envelhecer é não ter ninguém que exerça cuidados, não ter acesso a serviços e, enfim, não ter comida no prato”, resume Kalache.
O etarismo afeta a saúde física e mental dos velhos. “Basta imaginar como pode ser a vida de pessoas que muitas vezes são vistas como estorvo em família ou socialmente”, diz Marco Túlio Cintra, 42 anos, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Muitos idosos, afirma ele, se debilitam porque são impedidos de sair de casa, mesmo que se trate de uma interdição disfarçada de proteção. Certos males ligados à idade, como o Alzheimer, custam caro e têm suporte profissional intermitente. Cintra lembra que os cuidadores raramente contam com formação adequada.
Os sistemas de saúde público e privado acumulam carências causadas pela rapidez do envelhecimento da população. “O país devia ter 30 mil geriatras para suprir as necessidades da população idosa, mas tem 2 mil”, diz Kalache. “Evidentemente não é possível atrair 28 mil médicos para atuar em geriatria em pouco tempo. Mesmo se supusermos ser possível atrair 10 mil em 15 anos, o déficit vai chegar a 40 mil.”
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É necessária uma reforma educacional. “O que se precisa não é necessariamente multiplicar o número de geriatras, mas garantir que todos os profissionais de saúde, de enfermeiros a psicólogos, estejam preparados para atender pessoas velhas”, afirma Kalache. Áreas como a de cuidados paliativos, diz Cintra, ainda são especializações raras e recentes. A atuação do geriatra, contudo, é importante para a “orquestração” dos cuidados. “Os idosos não costumam se dar bem com a medicina segmentada e por isso precisam de um profissional que administre diferentes diagnósticos e medicamentos.”
As mudanças necessárias na formação não se restringem à medicina, segundo Cintra. Profissionais das esferas pública e privada, como urbanistas, arquitetos e engenheiros, praticamente não têm em seus currículos universitários formação para que se pense sistematicamente na acessibilidade, nem mesmo nos projetos de residências.
O trabalho, sobretudo, é frequentemente negado aos idosos. Foi pensando em mudar essa situação e ainda lucrar com isso que Mórris Litvak, de 41 anos, fundou em 2016 a Maturi (o nome vem de maturidade), cujo faturamento saltou de R$ 15 mil no primeiro ano para R$ 2,2 milhões em 2023, com um investimento-anjo no entremeio.
Continuamos negando o fato de que um idoso saudável e ativo é um recurso para a comunidade”
— Alexandre Kalache
A Maturi é uma plataforma que conecta profissionais acima de 50 anos a empresas dispostas a preencher vagas para esse público. Atualmente, o empreendimento de Litvak, que promove também programas de capacitação, consultoria e estratégias de branding, tem 753 empresas parceiras e 220 mil profissionais cadastrados.
Uma experiência em família levou Litvak para a área da atenção a idosos. A inspiração veio de sua avó, que trabalhou até os 82 anos e parou por causa de uma queda, o que desencadeou um processo de debilitação acelerado. Numa pesquisa informal, Litvak percebeu que a preocupação com trabalho era prioritária na população em processo de envelhecimento. “Mas entre os gestores ainda é raro um olhar para essas pessoas.”
“Na maioria dos casos, existe a necessidade de uma fonte de renda, até mesmo na aposentadoria, porque tudo fica mais caro nessa idade, incluindo o plano de saúde e os remédios”, diz Litvak. “É muito importante também se sentir útil e produtivo, trocar experiência com pessoas mais jovens; a sociabilização que o trabalho traz é fundamental.”
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Na direção oposta, o próprio ambiente de trabalho costuma ser beneficiado por colaboradores mais velhos. “Hoje, para os jovens, é estranho ficar muito tempo no mesmo emprego, enquanto os idosos demonstram maior comprometimento. Nas equipes multigeracionais, a rotatividade e o absenteísmo são menores, e as trocas são mais ricas.”
“Nós precisamos ter pessoas idosas que sejam viáveis e que continuem produtivas”, destaca Kalache. “Faz 25 anos que os casais não se reproduzem, ou seja, as mulheres têm uma taxa de fecundidade abaixo da reposição. Com menos crianças e os 60+ aumentando, a conta não fecha. É inevitável que as pessoas idosas possam trabalhar e contribuir para a sociedade.”
“Continuamos negando o fato de que um idoso saudável e ativo é um recurso para sua família, para a comunidade e para o próprio desenvolvimento econômico”, diz Kalache. “Quem garantiu o sustento de muitas famílias mais pobres no Brasil durante a pandemia foram os velhos que compartilhavam sua pensão, por mais baixa que fosse. Não se valoriza a contribuição que a pessoa idosa traz justamente por ser idosa.”
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“O principal motivo da ausência de diversidade geracional são estereótipos preconceituosos, às vezes até inconscientes, presentes em toda a sociedade, como as ideias de que os mais velhos não sabem lidar com tecnologia, que não estão abertos a novidades ou que são muito caros para as empresas”, diz Litvak. Segundo ele, a questão da suposta dificuldade com a tecnologia pode ser superada facilmente com orientação e aprendizado.
Milton Longobardi, de 78 anos, já ouviu empregadores dizerem que não gostariam de ter a imagem de suas empresas associadas a pessoas velhas. Queriam colaboradores jovens, “que ditam moda” e são supostamente mais produtivos. “Na minha idade, a pessoa se tornou invisível para o mercado”, diz o administrador, que integra os conselhos da plataforma Longevidade Expo Forum, empresa que promove feiras para o segmento de consumidores mais velhos, e da Universidade Fordham, em Nova York, onde fez seu mestrado.
“Estamos lutando para dar visibilidade aos longevos”, diz Longobardi. “ As empresas perdem 15% do mercado por não desenvolverem produtos e serviços para esse nicho de mercado.” O trabalho para os idosos, diz ele, estimula atualizações e leva os colegas jovens a superar etapas, tornando o aprendizado mais rápido.
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O combate ao etarismo não pode prescindir de leis. O Estatuto do Idoso, aprovado em 2003 no Congresso, “é um dos mais avançados da América Latina”, diz Kalache. Mas ainda não se veem desdobramentos práticos. “O desafio é fazer com que tudo que está escrito lá seja realmente implantado, e ainda há muito o que avançar”, diz Cintra.
“Eu conheço projetos de lei que preveem cotas e incentivos fiscais, mas estão todos parados”, diz Litvak. Medidas como essas, destaca Longobardi, levariam o Estado a economizar em serviço de saúde. Para Litvak, a reforma da Previdência chamou a atenção para a necessidade de as pessoas trabalharem por mais tempo, mas não veio acompanhada de iniciativas que compensem a mudança no regime de benefícios.
Longobardi ressalta outras questões, fora do mundo do trabalho, que dificultam o dia a dia dos idosos e não costumam ganhar atenção pública. É o caso dos rótulos de produtos industrializados, onde informações importantes estão impressas em letras de tamanho inacessível para quem tem dificuldades de leitura próxima, como é comum nos velhos.
Além disso, o desenho de embalagens e outros objetos que dependem de manipulação, como torneiras, são desafios para quem está acometido por artrite ou artrose. “No Brasil, há até remédios contra artrite com tampas que provocam dor”, observa Longobardi. Ele lembra que países como a Alemanha desenvolveram tampas em formato triangular que facilitam a vida do idoso
Uma velhice saudável permite uma vida plena, e isso inclui a atividade sexual. “Havia um forte tabu em torno do assunto, mas vem diminuindo nos últimos anos”, diz a antropóloga Andrea Moraes Alves, 53 anos, da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “O que se mantém é a discriminação contra casais em que a mulher é mais velha do que o parceiro.”
Durante muito tempo, o tabu falou mais alto, embora o sexo tenha deixado há décadas de ser restrito à reprodução. “As mulheres de 80 anos já chegaram à maturidade sexual convivendo com a pílula anticoncepcional”, lembra Carmita Abdo, 75 anos, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Uma vida sexual saudável, combinada a exercícios físicos e boa alimentação, retarda as doenças que são inexoráveis”, diz ela.
As restrições à sexualidade dos idosos têm relação com o culto à beleza e a jovialidade, que é muito forte no Brasil, segundo Alves e Abdo. As mulheres são invariavelmente estigmatizadas, seja porque investem em métodos de rejuvenescimento e são acusadas de não aceitar a velhice – como aconteceu com a cantora Madonna -, seja porque, ao contrário, “não se cuidam”, exibem sinais como celulite ou não estão sempre impecáveis – vejam-se as críticas à atriz Paolla Oliveira no último Carnaval.
“A obsessão com a beleza pode provocar o recurso a práticas que não são saudáveis, como o abuso de hormônios, de substâncias de procedência questionável e sem receita médica, adquiridas das mais diferentes formas”, alerta Abdo.
Como acontece com toda minoria que seja alvo de preconceito, lidar com as palavras é um assunto que inevitavelmente vem à tona. Termos como “terceira idade”, “melhor idade”, “mercado prateado” são eufemismos que muitas vezes ressoam estigmas, algo como evitar chamar as pessoas como elas são. Ana Lucia Leitão vai além e rejeita “idosa” e “madura” no lugar de “velha”. “Sou mais velha do que fui e espero que menos velha do que serei”, diz ela, bem-humorada. Mais recente Próxima Jorge Lucki: As personalidades marcantes do mundo do vinho que conheci
Fonte: Valor Econômico