Por Larissa Garcia, Valor — Brasília
27/06/2022 09h36 Atualizado 27/06/2022
O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, afirmou nesta segunda-feira que “o pior da inflação no Brasil já passou” e que “grande parte do trabalho já foi feito”, em referência ao aperto monetário. A avaliação foi feita durante o X Fórum Jurídico de Lisboa, em Portugal.
“A gente ainda tem no Brasil um componente de aceleração [de inflação]. Os últimos dois números foram, pela primeira vez, dentro da expectativa, a gente acha que o pior da inflação no Brasil já passou. A gente tem algumas medidas sendo desenhadas pelo governo, que a gente precisa entender qual vai ser o efeito disso no processo inflacionário, ainda não está claro”, disse.
“Mas é importante dizer que o Brasil fez o processo antecipado, acreditamos que a nossa ferramenta é capaz de frear o processo inflacionário e vai frear. A gente acha que grande parte do trabalho já foi feito”, complementou.
Média histórica
Durante o evento, Campos afirmou também que a inflação brasileira sempre ficou acima de países desenvolvidos e que atualmente está dentro da média histórica dos últimos 20 anos.
Campos mostrou um gráfico com a diferença da inflação brasileira em relação à média do mundo desenvolvido.
“O Brasil quase sempre trabalhou com uma média de inflação acima do mundo desenvolvido [nos últimos 20 anos]. Ao contrário do processo inflacionário de 2013, 2014 e 2015, quando a inflação do Brasil cresceu muito acima da média mundial, essa nossa inflação está até relativamente abaixo da mediana histórica”, disse.
“Essa inflação tem um componente global forte e mostra que o Brasil está na média do que sempre esteve nos últimos 20 anos”, avaliou. “É óbvio que temos que combater a inflação, não vamos olhar para o que está acontecendo fora e usar isso como qualquer tipo de desculpa, mas é importante conhecer os componentes”, complementou.
Campos comentou ainda sobre um estudo global que mostra que as empresas aumentaram salários e benefícios de funcionários. “Tem um tema importante para inflação, se vai ser persistente ou não, que é se eu estou indexando salários ou não. A gente começa a ver esse processo, não estamos vendo isso no Brasil ainda, mas vemos uma contaminação grande em salários [no mundo]”, ressaltou.
Disseminação
O presidente do BC também afirmou que a alta de preços no mundo em energia e alimentos tem contaminado toda a cadeia de inflação. Segundo ele, essa dinâmica impacta a atuação de autoridades monetárias.
“A inflação hoje começa com energia e alimentos, mas ele agora é um tema muito mais disseminado. Se tem uma coisa que está acontecendo no índice de inflação de todos os países, é que está ficando mais disseminado”, disse. “O Banco Central atua de uma forma se a inflação for só em elementos voláteis e de outra forma quando está mais espalhada na cadeia”, complementou.
Campos destacou em sua apresentação que países como Chile, México e Colômbia adotaram medidas para atenuar preços ao consumidor. No Brasil, ele destacou aprovação no Congresso de medidas para cortar impostos de combustíveis, energia elétrica e telecomunicações.
“O que está sendo feito no tema de energia e alimentos no mundo? Vários países adotaram redução de tributos e transferência de recursos para mais vulneráveis”, ressaltou.
O titular do BC afirmou que muitos países adotaram políticas protecionistas para garantir segurança alimentar, mas que as iniciativas foram feitas de forma descoordenada. “A gente precisa entender que quem produz energia e alimentos é o setor privado, não é o governo. O governo tem que funcionar e endereçar o problema das classes sociais mais baixas, mas a gente não pode desviar das práticas de mercado”, ponderou.
Fonte: Valor Econômico
